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Construção civil

Muito além do amianto: o futuro da Eternit após a recuperação judicial  

Companhia ganha injeção de ânimo com retomada do Minha Casa Minha Vida – e aposta em telhas solares e no mercado de construção modular 

Fábrica de Manaus: Empresa investiu R$ 24 milhões em ampliação de capacidade de fibra de polipropileno (PP) (Foto: Divulgação)  (Eternit/Divulgação)
Fábrica de Manaus: Empresa investiu R$ 24 milhões em ampliação de capacidade de fibra de polipropileno (PP) (Foto: Divulgação) (Eternit/Divulgação)
Raquel Brandão

27 de fevereiro de 2024 às 10:40

Na expectativa para sair da recuperação judicial nos próximos meses, a Eternit – líder no mercado de telhas no Brasil, ao lado da Brasilit – está otimista para o ano de 2024. Com a dívida equacionada e superavitária, a empresa vê um vento de cauda para a demanda por suas telhas de fibrocimento com a retomada do programa federal Minha Casa Minha Vida.  

Além disso, vem se reinventando, com entrada em segmentos como telhas para geração de energia solar e produção de placas para construções modulares, deixando para trás o legado do amianto, substância que marcou sua história e desde 2017 está proibida no Brasil.  

A Eternit está em RJ desde 2019, e no fim do ano passado pediu à Justiça para encerrar a recuperação. “Foi uma curva de aprendizado. A empresa conseguiu sobreviver, começou a se recuperar e hoje está superavitária”, conta o CEO, Paulo Roberto Andrade, que assumiu o comando em julho do ano passado, depois de três anos no conselho. Há seis anos na presidência-executiva, Luís Augusto Barbosa assumiu a cadeira no board.  

Uma das empresas listadas há mais tempo na Bolsa, a Eternit não tem controlador, mas é uma das investidas do megainvestidor Luiz Barsi – que hoje tem pouco mais de 5% da companhia. Com quase 48% da base acionária composta por investidores pessoa física, a empresa também espera que o processo de transição traga mais atenção do mercado para o papel – que cai 25% em um ano, a R$ 7,26. O valor está longe da máxima de R$ 28 no começo de 2021, mas muito acima das mínimas abaixo de R$ 3 logo antes da RJ, em 2019.   

“Somos um bom pagador de dividendos. Saindo da RJ, o investidor institucional também vai voltar”, diz Andrade. 

Depois de um 2023 de perda de volume e rentabilidade – os números dos primeiros nove meses mostram queda de 3,2% nas vendas enquanto o lucro bruto ficou 22% menor –, a companhia acredita que o segmento de telhas voltará a crescer ao menos um dígito.  

O primeiro sinal de recuperação veio no terceiro trimestre, quando as vendas das telhas voltaram a ganhar fôlego, subindo 12% em relação ao segundo trimestre. Essa retomada vem em conjunto com o aumento de capacidade da empresa no segmento.  

Ao fim do quarto trimestre, passou a operar a unidade de fibrocimento de Caucaia, no Ceará, com capacidade de 6,5 mil toneladas por mês -- um investimento total de R$ 172 milhões.  

“Fizemos investimentos importantes, apesar da reestruturação e dos desafios da recuperação judicial. As telhas não vão ter um crescimento de 10% ou mais, mas é um produto que tem demanda recorrente”, afirma Andrade.  

Recentemente também investiu R$ 24 milhões no projeto de ampliação de capacidade da unidade de Manaus, responsável pela produção de fibra de polipropileno (PP). 

Mesmo com o tíquete-médio baixo e um mercado extremamente pulverizado, a aposta nas telhas tem uma razão: pelo menos 50% dos telhados brasileiros são de fibrocimento, principal negócio da companhia.  

Novos segmentos  

Ainda assim, também está em busca de novos segmentos para se reinventar. De olho na demanda cada vez maior por energia solar, ainda em 2019, a Eternit lançou a telha de concreto com painel fotovoltaico, com capacidade para cada unidade produzir 1,15kW/h por mês. Pouco depois passou a produzir também telhas solares de fibrocimento.  

Outro segmento em que está apostando é na construção modular, feita em blocos montados direto no canteiro de obras. A companhia começou a investir em sistemas construtivos, com placas cimentórias e placas construtivas. A vantagem dessas estruturas pré-montadas, conta o CEO, está em reduzir a necessidade de mão de obra, cujo custo está crescente.  

“Essas unidades ainda têm baixa representatividade, mas o potencial de crescimento é de dois dígitos”, diz o CEO, destacando não haver necessidade pelos próximos dois a três anos de aumento de capacidade para os novos segmentos.  

A empresa ainda mantém a mina de amianto em Minaçu (GO), mas toda sua produção é destinada, por lei, à exportação. Em sua reestruturação, a empresa pôde contar com vários ativos não operacionais que foram vendidos, reforçando o caixa. Uma das principais fontes de recurso foi uma fábrica de louças sanitárias no Ceará vendida para a Roca por mais de R$ 100 milhões. Ainda tem um grande terreno em Goiânia (GO), estimado em R$ 20 milhões, que pode ser vendido para reforçar o caixa. 

“Não descartamos a busca de M&A. Mas não é prudente fazer isso na RJ. À medida que saímos, vemos possibilidade de entrar em novas áreas”, diz o CEO, destacando, também, o espaço deixado para maiores prazos de pagamento a fornecedores ao fim do processo de recuperação judicial.  

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Raquel Brandão

Raquel Brandão

Repórter Exame IN

Jornalista há mais de uma década, foi do Estadão, passando pela coluna do comentarista Celso Ming. Também foi repórter de empresas e bens de consumo no Valor Econômico. Na Exame desde 2022, cobre companhias abertas e bastidores do mercado