Logo Exame.com
Estados Unidos (EUA)

Gustavo Franco: Paralelismos populistas entre Brasil e EUA

Os dois governos têm dificuldades para encontrar apoio político e acomodar contas fiscais em mau estado na política monetária

Trump e Lula: governos de teor populista, cada qual do seu jeito e na sua escala (Ricardo Stuckert / PR/Agência Brasil)
Trump e Lula: governos de teor populista, cada qual do seu jeito e na sua escala (Ricardo Stuckert / PR/Agência Brasil)
Gustavo Franco

Gustavo Franco

Economista

Publicado em 7 de maio de 2026 às 05:00.

No mês de abril prosseguiu o nervosismo com relação às implicações inflacionárias dos problemas no Oriente Médio, e com o Estreito de Ormuz em especial. Há um curioso paralelismo nas reações diante desse assunto em diversas partes do mundo, destacadamente no Brasil e nos EUA. Aqui como lá parece prevalecer um curioso otimismo, pelo qual não se nega a existência de um choque de oferta de consequências inflacionárias, mas se toma como certo, ou como mais provável, que seja um choque de pequenas proporções, ou seja, rápido o suficiente, para que não altere a política monetária.

Tanto o Banco Central do Brasil (BCB) como o Federal Reserve (Fed) trabalham com certa folga em seus objetivos, sobretudo no modo como tratam o seu horizonte de atingimento de metas. Sendo assim, aceita-se que se o transtorno no abastecimento internacional de petróleo não for prolongado, nada vai se alterar na política monetária. A ver.

Na fria lógica dos mercados financeiros, o choque de oferta que não afeta a política monetária, e nem a política fiscal, acaba atropelado pela rotina. Na verdade, nos EUA como no Brasil, por razões nem tão diferentes, nada parece afetar a política fiscal. Num caso como no outro, o fiscal reflete a vontade do presidente, cada qual com seu labirinto.

Nos EUA, está mais aceso um debate sobre ganhos de produtividade, muito provavelmente em razão do barulho em torno das consequências dos enormes investimentos em inteligência artificial, sempre acompanhados de relatos impressionantes sobre o potencial disruptivo das inovações aí envolvidas. O assunto se parece com o debate análogo sobre as consequências da própria internet, sendo que, desta vez, o Prêmio Nobel a fazer o contraponto não é mais Robert Solow (premiado em 1987) mas Daron Acemoglu (premiado em 2024).

Em 1987, Solow deu origem ao que muitos chamam de “paradoxo de Solow” ao afirmar que a “idade dos computadores pode ser encontrada em toda parte menos nas estatísticas de produtividade”. Acemoglu, por sua vez, estimou que o impacto da inteligência artificial sobre a produtividade total dos fatores seria da ordem de 0,66% ao longo de dez anos, um percentual, em suas palavras, “não trivial porém modesto”, e certamente bem distante das avaliações mais ousadas sobre os impactos da inovação.

Um dos efeitos de uma aumento de produtividade é o repasse aos preços, com consequências deflacionistas. Entretanto, a julgar pelas ordens de grandeza sugeridas por Acemoglu, dificilmente essa influência negativa sobre a inflação serviria para compensar o efeito inflacionário dos choques sobre os preços do petróleo atualmente tendo lugar. Já no Brasil, o debate sobre produtividade não é sobre o quanto a inteligência artificial vai fazer subir o valor adicionado por hora trabalhada, mas o quanto aos efeitos provavelmente negativos da abolição da escala 6x1.

Parece irreal que se assuma que a redução da jornada fará aumentar a produtividade, sem prejuízo da conversa sobre o tempo perdido no transporte público ou do valor monetário ou intangível do tempo adicional do trabalhador com a família. Ceteris paribus, a redução na jornada é como uma diminuição do número de dias úteis no ano, ou como se ficasse aumentado o número de feriados.

O PIB para o ano calendário vai ficar menor. Os especialistas em mercado de trabalho observam que: (i) depois da reforma trabalhista prevalece a liberdade de negociação quanto à jornada; e em razão disso se explica que (ii) a média nacional de horas trabalhadas por semana no Brasil situa-se em torno de 39,1 a 39,5 horas, segundo dados da PNAD Contínua (IBGE).

Em razão disso, a PEC da abolição da escala 6x1 deverá ter bem menos impacto do que se presume, a depender ainda do veredito sobre gradação e duração da fase de adaptação. Para as empresas afetadas, todavia, o efeito será o de aumento de custos e/ou perda de produtividade, em ambas as situações com algum efeito inflacionário, porém, adiante e talvez de pouca expressão.

No Brasil, o BCB seguiu seu caminho de redução modesta na taxa Selic, e em sua 278ª reunião de 28 e 29 de abril, reduziu a Selic em 0,25% em decisão unânime. No comunicado, o Copom indica que aguarda “novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços”.

Nos EUA, no mesmo dia 29, ocorreu a última reunião do comitê da política monetária deles (FOMC- Federal Open Market Committee), presidida por Jerome Powell. Como resultado, manteve-se o curso das últimas reuniões, tal como no Brasil: com isso, o juro básico americano manteve-se inalterado entre 3,5% e 3,75%.

A diferença, entretanto, foi notável nos votos divergentes. Dos 12 membros votantes no FOMC houve quatro votos divergentes, três na direção de uma linguagem menos dovish no comunicado, e um voto na direção exatamente contrária, para baixar o juro em 25 bps, o voto de Stephen Miran, economista alinhado com Trump.

O novo presidente indicado, Kevin Warsh, o substituto de Jerome Powell, terá diante de si um comitê dividido e majoritariamente alinhado com a conduta de Powell, o que pode ser ainda mais carregado de tensões depois das eleições mid-term, especialmente se Trump perder maioria em uma das casas. No Brasil, mesmo antes da indicação dos dois novos diretores do BCB, já se antevê certa tensão com o Palácio do Planalto, sobretudo se a trajetória de queda de juros continuar tão parcimoniosa.

O governo entra no “modo eleição” e com perspectivas piores. O mês de abril termina com uma notícia horrível vinda do Senado: o voto contrário à indicação do advogado Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. O resultado é nada menos que vexaminoso. Não foram poucos os que comentaram que, com essa votação, o governo terminou.

Em resumo, dois governos de teor populista, nos EUA e no Brasil, enfrentam dificuldades com seus respectivos parlamentos, e em encontrar acomodação na política monetária para contas fiscais em mau estado, cada qual do seu jeito e na sua escala.

Para quem decide. Por quem decide.

Saiba antes. Receba o Insight no seu email

Li e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade

Gustavo Franco

Gustavo Franco

Economista

Gustavo Franco é sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central do Brasil

Continua após a publicidade
O dilema da Petrobras com a disparada no preço do petróleo

O dilema da Petrobras com a disparada no preço do petróleo

O que explica a reação tímida do mercado às turbulências na geopolítica

O que explica a reação tímida do mercado às turbulências na geopolítica