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Petrobras

O dilema da Petrobras com a disparada no preço do petróleo

O que era para ser bom para a companhia vira ruído, na iminência de um repasse que deve atingir a inflação em cheio

Petrobras entre a cruz e a espada: reprise de um passado não tão distante (Agência Petrobras/Divulgação)
Petrobras entre a cruz e a espada: reprise de um passado não tão distante (Agência Petrobras/Divulgação)
Mitchel Diniz

Mitchel Diniz

Editor de Invest

Publicado em 9 de março de 2026 às 12:35.

Para uma empresa que produziu 3 milhões de barris de petróleo por dia em 2025, nada parece melhor que uma disparada no preço da matéria-prima. No caso da Petrobras (PETR3;PETR4) não é bem assim. Na posição de empresa estatal, responsável por mais de 80% da produção e da capacidade de refino do país, repassar a alta do petróleo para as distribuidoras (as donas dos postos de combustíveis) não é tão simples como em um mercado diluído entre players privados. Caso dos Estados Unidos, onde os preços já estão disparando nas bombas.

Nesse sentido, a disparada do petróleo também tem um lado problemático para a Petrobras. Apesar da produção robusta do item mais exportado pelo Brasil no ano passado, a companhia é também importadora de derivados da matéria-prima, que são "misturados" ao petróleo bruto para que o combustível chegue às bombas. O principal deles é o diesel — hoje, mais de 20% desse derivado, utilizado no refino, vem do exterior.

André Perfeito, economista-chefe do Garantia Capital, avalia que o superávit robusto das exportações de petróleo criam um hedge natural para o Brasil. " Se o preço do petróleo explode a gasolina importada sobe, mas o petróleo que exportamos sobe também", explica.

As variações de preço de combustíveis têm impacto relevante no IPCA, índice de inflação que é referência para o Banco Central nas tomadas de decisão sobre juros. É quase certo que o Comitê de Política Monetária (Copom) irá reduzir, por fim, a Selic na reunião do próximo dia 17. A autoridade monetária tem dito que percebe a inflação convergindo para a meta. Logo, o timing não poderia ser pior para uma disparada no preço do petróleo. Fora que uma situação de guerra tende a favorecer o dólar, outro componente crítico para a inflação.

Na última sexta-feira, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse que não há uma mudança de política de preço de combustível em estudo. Enquanto isso, a defasagem em relação ao preço internacional aumenta a cada nova disparada do preço do petróleo. Os fantasmas do "Dilma 2", aos poucos, reaparecem. É praticamente inevitável não lembrar do período em que o governo, acionista majoritário da Petrobras, praticamente obrigou que a Petrobras não repassasse a alta do petróleo para a bomba, uma política de preço que custou R$ 100 bilhões à companhia. 

Repassar ou não repassar? Eis a questão

Em 2022, última vez que o petróleo tinha ultrapassado os US$ 100 antes deste domingo, por conta da Guerra na Ucrânia, a política de preço da companhia teve relação direta com três trocas no comando da estatal em questão de meses. Para Adriano Pires, sócio-fundador do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura) o atual contexto vai testar se a governança da Petrobras melhorou de fato. O fato de ser um ano de eleição não ajuda muito. E desde que o atual governo assumiu, a companhia só tinha experimentado volatilidade de preço para baixo até então.

"Do ponto de vista do investidor, a Petrobras sempre tem ritmo político. É uma petroleira que não aproveita plenamente a valorização do aumento do barril do petróleo para gerar as receitas que poderia gerar", afirma Pires. Ele reconhece que a situação da Petrobras hoje é bem diferente da de 12 anos atrás. Com o nível de exportação que a companhia alcançou, existe hoje um "colchão" que amortece a perda com importações ao não repassar os preços.

"A saúde financeira da companhia está bem tranquila, mas, na minha visão, o não repasse pesa muito mais na credibilidade e confiança na empresa do que qualquer outra coisa", afirma João Daronco, analista da Suno Research. "É mesmo um dilema, tenho dificuldades hoje para entender qual lado da balança vai pesar mais: governo ou empresa."

Entre dividendos e queda de juros

Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue afirma que estrutura de capital não é algo que preocupa os investidores, já que o endividamento da companhia está em níveis saudáveis. "A Petrobras vai ter que fazer as contas e o dever de caso para não transferir lucro nem prejuízo para as distribuidoras de combustível".

Para Yamashita, ainda que os investidores reconheçam o impacto nocivo de um repasse da alta do petróleo para a inflação brasileira, a empresa, como qualquer outra, parte de um modelo de negócios.

Nas decisões de investimento, a Petrobras é comparada a outros pares do setor, que não lidam com esse mesmo dilema. Fora que uma maior lucratividade implica em dividendos maiores para os acionistas, incluindo o principal deles: o governo.

Pires adverte que a capacidade de repasse da empresa vai diminuindo à medida que o preço do petróleo sobe mais ainda. "Se chegar a US$ 150, não tem como repassar. Haveria uma explosão inflacionária", afirma. Para ele, a companhia já poderia ter repassado a valorização da commodity quando o preço chegou na casa dos US$ 70, como outros países fizeram.

O não repasse também pode levar a Petrobras a ter de importar mais diesel. "As refinarias privadas vão parar de importar, para não comprar algo mais caro lá fora que é vendido mais barato aqui dentro. Se a situação continuar assim, a Petrobras vai ter que importar 100% da gasolina e diesel que a gente precisa", conclui Pires.

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Mitchel Diniz

Mitchel Diniz

Editor de Invest

Jornalista há 20 anos, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pela FIA Business School. Passou pelas redações de Valor, Folha de S. Paulo, GloboNews e InfoMoney.

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