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Mineração

Como a China matou o mercado de metais para baterias

Metais como lítio e níquel negociam nos menores valores em anos, apesar da tendência de eletrificação. O problema está na oferta e não na demanda, diz a Gavekal – e não deve melhorar

Baterias: muito além do lítio, a China conseguiu uma posição de dominância também no níquel e cobalto (Getty Images) (Just_Super/Getty Images)
Baterias: muito além do lítio, a China conseguiu uma posição de dominância também no níquel e cobalto (Getty Images) (Just_Super/Getty Images)
Karina Souza

Karina Souza

3 de abril de 2024 às 09:30

Há alguns anos, investir em metais para baterias, como lítio, níquel e cobalto, parecia uma tese quase óbvia. Mas, contrariando todas as expectativas, os preços desses produtos despencaram e negociam próximos às mínimas.

(Que o diga empresas como a brasileira Sigma Lithium, que busca vender seu negócio no Vale do Jequitinhonha com o lítio negociando na bacia das almas, ou a Vale, que tenta revitalizar seu negócio de metais básicos, que incluem o níquel).

Os soluços no avanço da eletrificação dos transportes, que se traduziu em demanda menor por parte das montadoras americanas e mesmo das chinesas, explicam parte do movimento.

Mas o cerne do problema está na “superoferta massiva” da China”, aponta a Gavekal em relatório publicado nesta semana.

“Em uma história familiar de investimento excessivo levando a sobrecapacidade, a China matou o mercado de metais para baterias”, escreve o analista Tom Miller.

Em outras palavras: hoje a China e suas investidas controlam o preço e são capacidade de tirar produtos estrangeiros da jogada.

O país de Xi Jinping conquistou uma posição de dominância global não apenas pelas suas reservas locais – abundantes, mas não tanto –, mas pelo investimentos em diferentes regiões, que vão desde o Triângulo do Lítio (Argentina, Chile e Bolívia) até o cinturão do cobre em Katanga, na República Democrática do Congo.

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O plano, executado de maneira consistente, foi sempre o de verticalizar toda a cadeia: do acesso aos metais, ao refino, passando pela produção de baterias e dos próprios veículos elétricos. A BYD e a CATL foram os principais vetores da estratégia.

Gradualmente, os metais estão sendo refinados nos seus países de origem, mas o investimento ou a expertise ainda vêm dos chineses. Um consórcio chinês, por exemplo, se comprometeu a investir US$ 1 bilhão para processar lítio na Bolívia. Além disso, o presidente chileno Gabriel Boric recorreu a Beijing para ajudar o país a capturar mais valor na cadeia de produção.

Um dos investimentos mais recentes e emblemáticos neste sentido está na Indonésia, que recebeu US$ 30 bilhões da China com o objetivo de se tornar o maior processador de níquel do mundo.

A capacidade de processamento deve atingir 600 mil toneladas métricas nos próximos três anos, e triplicar para 900 mil até 2030. “Nós temos níquel suficiente para controlar o preço global de níquel por meio da nossa cota de produção”, disse Septian Hario Seto, vice-ministro da Indonésia à Gavekal.

Hoje, segundo os dados da consultoria, mais da metade da produção de níquel não compensa quando o preço cai abaixo de US$ 16,5 mil por tonelada métrica (mt, na sigla em inglês). Em perspectiva, no último mês, o preço ficou ligeiramente abaixo de US$ 16 mil/mt, muito distante do pico de US$ 48 mil em 2022.

O vice-ministro afirma que a Indonésia vai procurar ancorar os preços do níquel em US$ 15 mil a US$ 18 mil/mt, “alto o suficiente para permitir que refinadores domésticos sejam lucrativos, mas baixo o suficiente para causar problemas a produtores estrangeiros”, diz o relatório.

“Plantas com o investimento chinês podem processar o minério de baixo teor da Indonésia de forma mais barata do que mineradoras de outros países podem extrair minérios de maior qualidade. Isso transformou o equilíbrio oferta-demanda global e vai tirar da jogada mineradores estrangeiros”, afirmou Christel Bories, CEO da mineradora francesa Eramet ao Financial Times.

O movimento já começou. Mineradoras como a Anglo American e a BHP estão se desfazendo de suas operações de níquel.

Os impactos para o cobalto

Todo esse investimento também deve influenciar, cada vez mais, os preços do cobalto.

Hoje, a Indonésia produz o material como um subproduto de plantas de níquel, sendo uma tonelada métrica de cobalto para cada nove de níquel. Mesmo assim, o país foi responsável por 8% da produção global em 2023, o dobro de 2022.

Esse cenário, somado ao aumento da produção da mineradora chinesa CMOC em 172% no último ano contribuiu para que o preço do cobalto ficasse abaixo de US$ 40 mil/mt no último ano, consideravelmente abaixo do pico de US$ 80 mil/mt em 2022.

“A expansão da produção chinesa de níquel na Indonésia significa que o preço do cobalto provavelmente vai cair de novo”, diz Seto.

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A Indonésia está determinada a manter os preços baixos o suficiente para dissuadir produtores de baterias de mudarem para alternativas de ‘baixo cobalto’ ou sem cobalto, segundo o relatório.

De acordo com a Gavekal, a China vai deter ou operar 60% da oferta global de cobalto em 2025, ante 54% em 2023. "Esse cenário de sobreoferta deve durar até 2028", escreve Miller.

E o Ocidente?

Toda essa expansão da China acabou se tornando um enigma para seus rivais geopolíticos, que estão no corner.

O Inflation Reduction Act, dos Estados Unidos, por exemplo, almeja tirar o país da jogada ao garantir a produção por meio de suprimentos de países 'amigos'. Contudo, vale lembrar que nem Chile nem Argentina assinaram o documento ainda e as montadoras americanas vão ter problemas para garantir a oferta de níquel se não puderem comprar da Indonésia.

Ao mesmo tempo, o Critical Raw Materials Act, da União Europeia, aponta para um objetivo de produção para 17 materiais brutos estratégicos até 2030, estipulando que não mais do que 65% pode vir de um único país de fora do bloco.

“Isso parece propenso a falhar, dado que a União Europeia não está subsidiando nem a mineração nem o processamento”, diz a Gavekal.

Nesse cenário, a conclusão é simples: os veículos elétricos chineses devem se tornar ainda mais competitivos – o que aumenta os riscos de uma retaliação protecionista da Europa.

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Karina Souza

Karina Souza

Repórter Exame IN

Formada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduada pela Saint Paul, é repórter do Exame IN desde abril de 2022 e está na Exame desde 2020. Antes disso, passou por grandes agências de comunicação.

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