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“A B3 está preparada para qualquer tipo de concorrência”, diz Gilson Finkelsztain

CEO da exchange ressaltou foco 'ambidestro' da empresa como diferencial para o futuro e disse que negócios relacionados a dados devem representar parte relevante da receita em cinco anos

B3: empresa "ambidestra" tem mais chances de enfrentar futuro de forma saudável, na visão do CEO (Eduardo Frazão/Exame)
B3: empresa "ambidestra" tem mais chances de enfrentar futuro de forma saudável, na visão do CEO (Eduardo Frazão/Exame)
KS

Karina Souza

17 de janeiro de 2023 às 22:43

Web3, blockchain, tokens. Três termos que extrapolaram o mundo da tecnologia para serem apontados como tendência no mercado de capitais. O efeito de cada um deles em 2023 ainda é incipiente, mas desperta atenção de cada vez mais empresas, que buscam traduzir esses termos da teoria para a prática a fim de não perderem espaço diante da concorrência no ‘novo mundo’ que essas novidades representam. Uma delas é a B3. Por lá, os três assuntos já são acompanhados de perto — seja com equipes internas ou por meio de investimentos realizados via venture capital. O objetivo final da empresa é, no fim das contas, conseguir transformar inovações como essas e diversificar, cada vez mais, as fontes de receita ligadas à tecnologia. 

O passo mais recente dessa estratégia foi dado nesta semana, com o anúncio de um aporte na Parfin, fintech que oferece a infraestrutura para a Web3 — a ‘nova geração’ da internet baseada em inteligência artificial e blockchain. O investimento foi o primeiro em cripto feito pela L4, venture builder da B3 focada em inovação. A ideia, daqui para frente, é desenvolver a startup de forma apartada da exchange, mas sempre observando de perto cada passo dado por ela. Isso porque, caso o negócio efetivamente ganhe escala, pode ganhar um espaço maior dentro da B3, com a oferta de blockchain-as-a-service, por exemplo. 

Um outro ponto que a startup pode ajudar a fomentar, no futuro, é a criação de uma clearing para o mercado de energia elétrica. O projeto foi ventilado no mercado há um ano, com a formalização de operações de compra e venda no mercado livre de energia elétrica — um passo que foi interpretado, na época, como um teste para chegar ao serviço de compensação e liquidação de ordens de compra e venda. Por enquanto, segundo Finkelsztain, o projeto foi absorvido pela venture builder da B3, mas o objetivo final está mais distante. “A gente migrou para testar soluções de outras companhias ou de outras startups. Estamos num estágio embrionário, ainda não há tanta demanda por parte do setor”, afirmou.

Na ponta oposta, em um tema mais próximo da realidade atual, a B3 também deu mais detalhes no encontro a respeito de como vem se preparando em relação ao mundo cripto. O tema, que começou a aparecer no discurso de executivos em 2021, ganhou atenção dentro da empresa, principalmente no que diz respeito à tecnologia necessária para atender às demandas que gera. O maior receio há dois anos era o de não ter tecnologia compatível com esse novo universo, ser ‘pego de surpresa’ por alguma novidade. Algo que, na visão do CEO, já foi superado.

O foco da B3 nesse novo universo é o de prestar serviços para alguns de seus principais concorrentes nesse nicho, sejam depositárias ou plataformas de negociação. “A competição é saudável, já enfrentamos no balcão, na depositária, agora em plataformas de bloco também. Nós estamos preparados para competir. Trabalhamos, além da tecnologia, o aspecto cultural de agilidade, simplificação, isso continua daqui para frente”, afirmou Finkelsztain.

Além da concorrência com outros players em mercados novos, é também acompanhada de perto pela empresa a disputa que surge partir de aspectos regulatórios, como a internalização de ordens — um sistema que vai permitir transações no mercado financeiro fora da bolsa e que, portanto, poderia diminuir a quantidade de negociações que passam pela B3. O ponto foi levantado no B3 Day, em 2022, logo depois de a CVM ter estabelecido o assunto como uma das prioridades para 2023, e nesta terça, foi repetido pelo CEO: o posicionamento da empresa de ser contra a “internalização irrestrita”, mas a favor de uma feita com limites. Finkelsztain argumenta que, sem limites, o resultado final não seria benéfico, ao contrário do que é defendido por concorrentes da B3.

Ainda falando de pontos de interlocução com a CVM, o executivo mencionou que a tokenização de valores mobiliários deve ser uma agenda frequente com o regulador ao longo de 2023. No fim do ano passado, a CVM anunciou que deve editar, neste ano, normas fiscais para a emissão desse tipo de ativo. Atualmente, apenas algumas empresas podem emitir tokens que representam valores mobiliários, todas elas dentro do sandbox regulatório.

Antes de chegar a esse objetivo de forma propriamente dita, na visão da B3, é necessário definir uma série de pontos, começando pelo horário de negociações. Em seguida, a portabilidade de ativos, construindo a base do que vai definir as regras de negociações via token. “Temos algumas discussões que ainda vão levar tempo, por exemplo, o fato de qual será o papel desempenhado por tokens de ações, sem prejudicar o investidor. No fim, há que se perceber se vão ajudar ou atrapalhar a formação de preços”, disse. 

Dados, dados e mais dados

Enquanto os planos futuros ainda não deixam o papel, a B3 acumula avanços na agenda de dados. A companhia, que adquiriu a Neoway, especializada em soluções de Big Data, por R$ 1,8 bilhão em 2021, afirma que a startup já traz resultados. Bem como a Neurotech, especializada em soluções de inteligência artificial, comprada pela companhia no fim do ano passado por R$ 569 milhões.

Para entender o presente, é necessário lembrar do passado. A receita da B3 com produtos relacionados a dados era de menos de R$ 200 milhões em 2018, cifra que passou para R$ 350 milhões em 2021 e, entre setembro deste ano e de 2022, atingiu R$ 500 milhões. Dentro deste último número, R$ 135 milhões estão atrelados à Neoway.

A expectativa é que o crescimento continue em ritmo acelerado, em torno de dois dígitos por ano. Sem dar guidance, o executivo diz que “em médio prazo” as soluções de dados devem se tornar relevantes dentro do montante de receita da companhia, hoje em torno de R$ 10 bilhões por ano. Por médio prazo, entenda-se, algo em torno de três a cinco anos. 

O foco da B3, com as empresas altamente especializadas em análise de dados, não é vendê-los, pura e simplesmente. Mas, sim, desenvolver cada vez mais produtos que utilizem essa capacidade de análise para servir a um objetivo almejado por empresas de diferentes setores e portes. Alguns exemplos são soluções de vendas e marketing, hoje as principais dentro da Neoway, e as de crédito e seguros dentro da Neurotech. Novamente com a perspectiva traduzida em números, a empresa comprada primeiro já trouxe cerca de 500 clientes para a B3 — em segmentos diferentes do financeiro, principal público atendido pela bolsa hoje.

Sem deixar o tradicional de lado

As inovações estudadas pela companhia vêm, é claro, como uma forma de completar o ‘core’ da B3. Um negócio que, na avaliação do CEO, teve um quarto trimestre bastante importante em relação aos últimos dois anos. Em novembro, segundo Finkelsztain, o volume de negociações de ações chegou a R$ 36 bilhões, comparável à média de meados de 2021, de cerca de R$ 35 bilhões. 

“A gente vinha com o mercado à vista em uma média de R$ 17 bilhões em 2019, cifra que subiu para R$ 30 bilhões em 2020 e bateu R$ 35 bilhões em 2021. Em 2022, chegamos perto de R$ 30 bilhões, mas realmente o último trimestre foi muito bom. Dezembro teve uma desaceleração, é claro, mas na média, não foi ruim”, afirmou o CEO.

Para o Goldman Sachs, o resultado não foi tão satisfatório. Em relatório divulgado nesta terça-feira, o banco afirmou que o resultado de dezembro pode indicar um quarto trimestre mais fraco do que o esperado. “Nós avaliamos risco modesto de queda em relação às nossas estimativas, baseadas em volumes mais fracos de ações negociadas em dezembro, combinados com receitas de derivativos mais fracas do que o esperado”, afirmam os analistas. Nos números, o volume diário negociado de ações, de R$ 28,2 bilhões em dezembro, ficou 4% abaixo das estimativas. Em derivativos, o volume ficou 25% abaixo da comparação mês a mês, para 5,6 milhões de contratos.

Para 2023, o CEO da B3 espera uma agenda mais aquecida de IPOs, principalmente depois de abril. Empresas mais maduras, de setores tradicionais, devem dominar a agenda de aberturas de capital de 2023, na visão do executivo, acompanhando o menor apetite para risco dos investidores de modo geral.

De olho no ‘filme’, não na ‘foto’, Finkelsztain se mantém otimista. Na visão dele, a companhia está no caminho para se tornar uma empresa ambidestra, capaz de conciliar a atuação nos mercados principais — equity, derivativos, renda fixa, câmbio — com a expansão em novos negócios e territórios ligados à tecnologia. São as adaptações necessárias para sobreviver ao ‘novo mundo’: Mais dados, novos recursos com web3, blockchain e tokens. É essa a B3 do futuro.  

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