Ultrapar, na mínima da década, aguarda por milagre de nova gestão

Conglomerado reduz projeções para 2021, após nova frustração de expectativas com rede de combustíveis, e vale hoje menos de US$ 2,5 bilhões
Ipiranga: principal ativo e também principal âncora, que segura melhor percepção sobre conglomerado (Ipiranga/Divulgação)
Ipiranga: principal ativo e também principal âncora, que segura melhor percepção sobre conglomerado (Ipiranga/Divulgação)
Por Graziella ValentiPublicado em 05/11/2021 08:33 | Última atualização em 10/11/2021 23:08Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Virou hábito em 2021: trimestralmente, a Ultrapar frustra, e não é pouco, os seus investidores. O problema dos resultados decepcionantes da rede de combustíveis Ipiranga, a principal controlada, tornou-se recorrente. A ação fechou nesta quinta-feira, dia 4, perto de sua mínima da década, em R$ 12,38, após um tombo de 8,09%. O desempenho da ação acompanhou o da operação: a rede de combustíveis teve a pior margem por metro cúbico desde 2010.

A companhia, que também é dona de Ultracargo e Ultragaz e que acaba de vender Extrafarma e Oxiteno, terminou o dia avaliada em R$ 13,5 bilhões — o equivalente hoje a menos de US$ 2,5 bilhões. Só para lembrar, em 2018, antes do início dessa trajetória negativa, a empresa chegou a valer a R$ 45 bilhões, algo como US$ 12,8 bilhões, ao câmbio da época, ou US$ 7 bilhões pelo dólar de agora. Gozava, então, da fama de midas da gestão. Parecia que tudo que estivesse em seu portfólio desempenharia incrivelmente bem.

Mas, pior do que o resultado, foi a percepção de analistas e investidores a respeito da teleconferência para tratar dos números. A sensação é que a gestão da empresa não tem a menor ideia de onde estão os problemas e que está totalmente desconectada dos desafios. “Foi a call de resultados mais triste que já participei”, disse um analista. “Parece que cada hora é uma explicação, mas o problema mesmo nunca se resolve”, comenta outro.

Depois do desempenho trimestral, a Ultrapar decidiu reduzir as próprias projeções para 2021. O ajuste não é exclusivo, mas está concentrado em Ipiranga, cuja previsão de Ebitda saiu de um intervalo de R$ 2,1 bilhões a R$ 2,5 bilhões — o que já não era considerado nenhuma maravilha — para algo entre R$ 1,8 bilhão e R$ 2 bilhões. Dessa forma, o teto da expectativa de Ebitda para o consolidado anual do conglomerado saiu de R$ 4,65 bilhões para R$ 4,13 bilhões.

“Cada trimestre tem uma justificativa. Dessa vez, o problema foi na importação. A empresa importava combustível na modalidade CIF [quando o custo logístico fica com o fornecedor] e nesse trimestre apostou no FOB [quando a logística fica no bolso do comprador]. Daí, o custo do frete explodiu”, comenta o analista de um grande fundo de investimento.

Após o segundo trimestre, o conglomerado finalmente admitiu o incêndio e anunciou o que o mercado tanto queria ouvir: mudança de gestão. Os investidores praticamente perderam a compostura para falar do tema, tamanha é decepção.

Agora, aguardam que Marcos Lutz, egresso da Cosan, conglomerado dono dos postos Shell no Brasil, opere um milagre quando assumir como presidente, em janeiro de 2022. Lutz passará uma temporada como presidente executivo antes de ocupar a cadeira para a qual se planejou de fato: presidente do conselho de administração, como acionista individual relevante, no lugar de Pedro Wongtschowski. A administração da Ipiranga também mudou: em outubro, saiu Márcio Araújo e entrou Leonardo Linden.

Lutz passou a deter 2,4% do capital da empresa e aderiu acordo de acionistas da holding Ultra S.A., onde estão apenas família e herdeiros, compondo uma fatia de aproximadamente 37% do capital total. "É um investimento para a vida", ele tem dito aos interlocutores, para destacar que vai se comportar como dono, no sentido de buscar o melhor desempenho possível e de que não se trata de uma passagem como investidor financeiro ou administrador.

Para alguns, o atual cenário é positivo para Lutz, que terá uma base de comparação muito fraca para enfrentar. Mas um antigo conhecedor do grupo — e de empresas, de forma geral — já avisa: será preciso dar tempo a ele. “Azeitar a gestão de um negócio é parecido com a discussão sobre confiança. Muito trabalho para construir e muito simples de destruir. Reconstruir, então, esforço triplicado.” Restará saber quais serão os caminhos de Lutz, o homem que Rubens Ometto, controlador da Cosan, descreve em sua biografia como um dos mais brilhantes com os quais já trabalhou.

A ansiedade dos investidores por respostas e resultados não será pequena. Por enquanto, essa é a única certeza.

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