Rio Bravo: incerteza afugenta investidor e cenário não muda até a eleição

Gestora reduz projeções de PIB, eleva as de inflação e espera Selic a 8,75% ao ano em dezembro de 2022
Houve melhora no texto final da reforma do IR, mas perda de arrecadação é da ordem de R$ 50 bilhões nos próximos três anos (Exame/Exame)
Houve melhora no texto final da reforma do IR, mas perda de arrecadação é da ordem de R$ 50 bilhões nos próximos três anos (Exame/Exame)
Por Angela BittencourtPublicado em 20/09/2021 14:28 | Última atualização em 20/09/2021 14:28Tempo de Leitura: 4 min de leitura

O terceiro trimestre ainda não terminou, mas é improvável que mais 10 dias alterem a herança de agosto e setembro para o ano de 2021. A crise política que se instalou no país no final de agosto não gera somente perdas no mercado de ações, mas afeta diretamente a economia real. A incerteza provocada pelo estresse político resulta na depreciação do câmbio, o que por sua vez reflete na inflação e no juro. A incerteza também afugenta os investidores, que passam a exigir um retorno maior para realizar investimentos no país, o que prejudica o crescimento econômico e a geração de empregos.

As afirmações são da Rio Bravo Investimentos que divulgou, nesta segunda-feira, o relatório “Consenso Macroeconômico”, revisando projeções para baixo do Produto Interno Bruto (PIB) deste e do próximo ano e, para cima, de inflação e Selic.

Para a expansão do PIB deste ano, a estimativa caiu de 5,3% para 5%; para 2022, de 2% para 1,5%. “Ambos os números possuem viés de baixa tendo em vista o risco para os próximos trimestres”, afirma a gestora. A inflação esperada passou de 8% para 8,4% este ano e, para 2022, de 4% para 4,3%. A Selic deve subir para 8,25% no final deste ano e para 8,75% em 2022.

Sem meias palavras, a Rio Bravo exibe em seu relatório macro a magnitude e as consequências de eventos que tiraram da rotina os negócios nos últimos dois meses de piora do clima político no Brasil.

“Agosto e setembro foram marcados pela piora do clima político no país. Desde um acirramento da relação entre Executivo e Judiciário, até o fatídico 7 de setembro, que obrigou o presidente Jair Bolsonaro a divulgar uma carta de conciliação entre os três Poderes”, afirma o relatório que lembra o fato de, neste período, o país ter voltado a falar em impeachment e ameaçado ir às ruas repetir os atos que culminaram na última destituição de um presidente da República no Brasil.

“A política brasileira voltou a gerar volatilidade no mercado, situação que não deve mudar até as eleições de 2022”, alerta a Rio Bravo que não vê perspectiva de melhora real desse cenário político com a proximidade das eleições no ano que vem. “Dessa forma, não deveremos ter melhora considerável no cenário macroeconômico, pois a incerteza política traz consigo a incerteza fiscal, que acaba também por afetar as expectativas dos agentes, pressionando a inflação e o juro.”

Soma-se a isso, ainda, a intensificação de outras crises, como a crise hídrica e a crise na cadeia global de suprimentos, que acabam por prejudicar uma economia com crescimento já fragilizado. A Rio Bravo destaca também o salto do juro que encarece o crédito que financia investimentos de longo prazo no país. Os vencimentos de 10 anos do juro futuro chegaram a ultrapassar 11% ao ano.

Perda de R$ 50 bilhões com “IR”

A Rio Bravo informa que a Câmara inesperadamente aprovou a reforma tributária e o texto agora segue para o Senado. A gestora reconhece que houve algumas melhoras no projeto final, como a redução na tributação de dividendos (de 20% para 15%), mas o projeto continua essencialmente ruim para a economia. E acrescenta que a redução na tributação do IRPJ é insuficiente para compensar a tributação de dividendos e resulta em uma elevação da carga tributária das empresas.

Além disso, afirma o “Consenso Macroeconômico”, os deputados incluíram uma série de exceções – em geral empresas que estão no Simples Nacional – que não precisarão recolher esse novo tributo. A gestora avalia que essa exceção gera um incentivo para que as empresas permaneçam pequenas ou se dividam em empresas menores.

Mais que isso, a apuração desse tributo também trará uma série de complexidades ao sistema, especialmente para evitar a distribuição disfarçada de lucros. Entre outras distorções geradas pela proposta, o desenho final do pacote tributário irá resultar em uma perda de arrecadação da ordem de R$ 50 bilhões nos próximos três anos, estima a Rio Bravo Investimentos.

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