Recuperação da Oncoclínicas compra tempo. Desafio agora é levantar capital
Companhia negocia a reestruturação de mais de R$ 5 bilhões em dívidas, avalia converter parte dos créditos em ações e ainda busca um investidor disposto a capitalizar a operação em meio à disputa entre acionistas


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 14 de julho de 2026 às 17:10.
Última atualização em 14 de julho de 2026 às 17:14.
A Oncoclínicas avançou na tentativa de diagnosticar e enfrentar a crise financeira e de governança que atravessa há meses. Em meio à turbulência que culminou em mudanças na liderança da companhia, a empresa entrou em recuperação extrajudicial nesta segunda-feira, 13, para renegociar mais de R$ 5 bilhões em dívidas com credores — além de créditos entre empresas do próprio grupo — e busca reequilibrar sua estrutura de capital.
Entre as alternativas em discussão está a conversão de parte da dívida em participação acionária. Apesar da crise financeira, a operação continua sendo vista pelo mercado como um ativo interessante. A forte queda das ações, porém, reduziu o valor da companhia a um patamar que alguns investidores consideram uma oportunidade de entrada.
Com os papéis cotados a R$ 0,93, a empresa vale hoje cerca de R$ 1 bilhão na Bolsa — menos de um quinto dos mais de R$ 5 bilhões em dívidas que tenta reestruturar por meio da recuperação extrajudicial. No IPO, realizado em 2021, a Oncoclínicas chegou a alcançar um valor de mercado próximo de R$ 11 bilhões.
Obstáculos
Há fundo estrangeiros interessados na Oncoclínicas, mas o cenário financeiro, que levou a sucessivas mudanças na liderança da companhia e abriu uma disputa entre acionistas relevantes sobre os rumos da empresa, é complexo.
A Oncoclínicas precisa de dinheiro novo. Na avaliação de quem acompanha a operação, sem uma nova injeção de capital a companhia caminha para uma "morte lenta".
A tentativa mais concreta de recapitalizar a companhia, no entanto, esbarrou na disputa de poder entre os acionistas. Em março, a gestora americana MAK Capital, dona de cerca de 5% da Oncoclínicas, propôs um aporte de R$ 500 milhões para reforçar o caixa e aliviar as dívidas de curto prazo. A oferta estava condicionada a mudanças na governança, entre elas a substituição do conselho de administração, alinhado ao bloco liderado pela Latache Capital, que detém 14,59% do capital e defende a realização de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA). Sem consenso entre os acionistas, a proposta acabou não prosperando.
Enfraquecida na correlação de forças, a MAK Capital tirou a proposta da mesa e colocou a Oncoclínicas sob observação distante, fora de sua lista de prioridades. O investimento representa uma parcela pequena do portfólio do fundo americano, que administra cerca de US$ 1 bilhão em ativos e fez na Oncoclínicas sua primeira aposta no Brasil.
O fundo, no entanto, não fecha a porta para uma eventual nova capitalização da Oncoclínicas. A disposição existe, mas dependeria de uma nova rodada de negociações, em outros termos e valores, e da adoção de práticas de governança que considere adequadas. Na prática, isso passa por uma redução da influência da Latache, o que dificilmente deve acontecer.
Além dos desafios de governança e da pressão financeira, a Oncoclínicas corre contra o relógio. O plano de recuperação apresentado obteve adesão de 37% dos credores, percentual suficiente para dar início ao processo. Agora, a empresa tem até 90 dias para conquistar o apoio de credores que representem mais de 50% dos créditos, condição exigida pela Lei de Recuperação e Falências para que o plano seja homologado pela Justiça.
A concentração da dívida ajuda a explicar por que o sucesso da recuperação dependerá principalmente dos credores financeiros. Juntos, OPEA Securitizadora, Pentágono DTVM e Oliveira Trust concentram mais de R$ 3 bilhões em créditos e tendem a definir os termos da reestruturação. Entre os fornecedores, a maior exposição é da Onco Prod, com R$ 1,02 bilhão em créditos, enquanto Santander, Itaú e Banco Votorantim lideram entre as instituições financeiras.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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