Mesmo com âncoras de grife, Dotz luta para garantir IPO de R$ 700 mi

Lista de compradores do IPO já tem Ant Financial, Softbank, Velt e Farallon Capital: 40% da oferta garantida

Os irmãos Roberto e Alexandre Chade foram dormir sem saber se tem ou se não tem oferta pública inicial (IPO) da companhia de fidelidade Dotz nesta quarta-feira, dia 12. Está previsto para o fim do dia a definição do preço da oferta. O cenário tem uma mistura de frustração, com apreensão e até alegria.

De um lado, a volatilidade e o fluxo para bolsa brasileira, e ainda mais para techs, está de lascar. Só com nervos de aço.  Do outro, a Dotz está acumulando etiquetas de investidores que já deram seu garantido antes de a operação fechar. Tem uma coleção de nomes de grife.

Começou com a Ant Financial, o braço financeiro da gigante chinesa Alibaba, que topou colocar R$ 50 milhões por uma fatia de 5% no capital, e mais uma opção por outros 10%. Agora, foi a vez do Softbank, que nessa reta final assinou um cheque de R$ 100 milhões. E na largada já estavam Velt e Farallon, que se posicionaram como âncoras para R$ 150 milhões.

A capitalização é muito mais do que uma oportunidade no caso da Dotz, é passo essencial na corrida por uma guinada do negócio, após anos de aperto.

Sobre preço, uma certeza: no piso da faixa, R$ 16,20. E já está uma luta. Nesse valor, a oferta base soma R$ 700 milhões, sendo R$ 615 milhões para o caixa. Com esse tanto contratado, mais de 40% do livro da oferta está coberto.

Quem acompanha a operação sabe que, na verdade, o livro já está quase cheio. Mas quase não é suficiente. Precisa ter um tanto razoável a mais, para garantir o famoso dia seguinte, quando o papel estreia mesmo no pregão e precisa fazer bonito. Ou pelo menos, não fazer feio. No piso do intervalo sugerido, a Dotz chega na B3 avaliada em R$ 2,25 bilhões.

Aqueles investidores que deixaram para dar as caras nesse último dia, crentes em um corte de preço relevante, podem se decepcionar. A operação não tem muita margem para descontos. A Ant Financial condicionou sua participação — que inclui um membro no comitê de estratégia — à concretização de uma captação primária de pelo menos US$ 100 milhões. A Velt também, mas o problema maior é que a Ant fala mandarim e ajustar qualquer condicionante aos 45 segundos do segundo tempo seria bem mais complexo.

Então, esta quarta-feira vai ser dia de definir se tem IPO no piso ou se a operação vira uma oferta no modelo 476 – quando a oferta já não é mais pública e sim, restrita (a um número limitado de investidores profissionais). Daí, precisa mudar a rota. Na mesa, existe a possibilidade de Softbank e Farallon aumentarem o tíquete para costurar tudo direitinho.

Entre os investidores de fora dessa lista o que se comenta é que comprar Dotz não é mais apostar no negócio de fidelidade, mas sim em uma reestruturação estratégica da companhia. A Dotz quer usar sua operação original para alavancar duas novas frentes: market-place de produtos e market-place de serviços financeiros. Nos programas de fidelidade, teve 9 milhões de clientes ativos em 2020 que movimentaram um total de R$ 23 bilhões.

A companhia vai disputar um lugar ao sol nos mercados mais concorridos do momento. Quase todo santo dia tem uma empresa nova que decide fornecer serviços financeiros ou agregar clientes para “vender” para o varejo expor seus produtos. Com tanta gente querendo fazer a mesma coisa, o investidor está buscando qual o cavalo certo vai estar na corrida da consolidação, seja para ser comprado ou para ser comprador. O duro é que muita gente vai ficar pelo caminho.

A queda recente das techs, na ressaca pós-euforia de Carnaval, atrapalhou a vida. E não foi só pela correção de múltiplos. Afetou o fluxo também. A baixa nos preços gerou oportunidade de entrada para fundos que queriam ter alguma exposição, mas achavam o que tinha disponível caro de mais. Uma vez aplicados em companhias que já conhecem e com mais histórico, o interesse desses fundos por novas histórias diminuiu.

Nesse momento de escassez, para a Farallon, aumentar o tíquete de R$ 50 milhões na operação está longe de ser um mau negócio. A gestora de recursos foi fundamental para ajudar a Dotz a encontrar novos caminhos, depois que passou a ser espremida pelo câmbio (que achata o retorno de programas de milhagens e derruba a receita e a margem).

As companhias de tecnologia — mesmo quando não são startups em idade — não têm os grandes bancos fazendo fila para fornecer crédito. Em especial, quando precisam de estruturas que sejam conversíveis ou multi-possibilidades, como normalmente é a vida no capital de risco.

Para isso, existe a Farallon e um número limitado de gestoras. O volume é menor ainda se considerar quem tem disposição para contribuir de verdade, com algum empenho, além de cifrões.

Em outubro de 2019, os irmãos Chade precisavam de dinheiro — ano a ano, a operação seguia cada vez mais apertada — mas não queriam ser diluídos no tanto necessário se tivessem que acessar um venture capital tradicional. Então, emitiram uma debênture conversível. A Farallon comprou e colocou R$ 82,5 milhões na empresa. Se o IPO sair, leva para casa R$ 130 milhões e mais R$ 95 milhões em participação na Dotz, ou seja, continua investida.

A beleza do mercado de capitais — em especial do versátil mundo dos fundos de venture capital e special situations — é que a Dotz poderá pagar a Farallon com um dinheiro que, na verdade, não é integralmente dela. É quase sempre assim até as companhias alcançarem alguma maturidade em suas atividades.

Quem vai pagar essa operação é a ciranda do mercado, com seus fluxos. Os irmãos Chade conseguiram dinheiro necessário para seguir com o negócio, desenhar um novo rumo e montar uma estrutura em que a remuneração ficasse para esse momento. Dessa forma, repassam à Farallon o retorno do risco a que a casa se expôs e mantêm o tutano deles próprios investidos na empresa — para além do patrimônio.

Pode ser hoje o primeiro dia do próximo capítulo da nova Dotz, de empresa de fidelidade para uma techfin.

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