Alpargatas tem receita recorde de R$ 1,1 bi no trimestre com Havaianas e sem online

Foram 73 milhões de havaianas vendidas de outubro a dezembro, mas só 5 milhões pela via digital

A Alpargatas, dona das marcas Havaianas e Osklen, fez um quarto trimestre de arrebentar quarteirão. A receita líquida da empresa alcançou R$ 1,1 bilhão, com crescimento de 10,5% sobre igual período do ano passado. “É o melhor desempenho em toda a história da empresa, mesmo quando considerados os anos anteriores cheios, com as marcas que foram vendidas e a operação na Argentina [de tecidos]”, comentou Roberto Funari, em entrevista ao EXAME IN.

A companhia vem em uma desmobilização de ativos e marcas que não considera centrais desde 2018, processo que terminou ano passado com a venda da licença da Mizuno. Essas outras bandeiras respondiam por 25% da receita há dois anos atrás e uma fatia de 36%, em 2016. O quarto trimestre da pandemia, portanto, entrou para história da centenária companhia.

O desempenho contou com avanço da empresa no digital, claro, como não poderia deixar de ser no ano da pandemia. Mas, como Funari definiu, a empresa promoveu uma quebra de paradigma, com uma “ressignificação do varejo físico”. Isso ocorreu no Brasil e também na operação internacional. A operação de e-commerce da empresa ainda é bastante reduzida.

Tanto no Brasil quanto no mercado externo, a Alpargatas adotou um modelo mais versátil de operação, com o varejo dentro do varejo, ou seja, pontos de venda em locais que ficaram abertos durante a pandemia. A empresa terminou o ano com 300 mil pontos ativos, um acréscimo de 40 mil em pleno 2020. Mas, para além das mudanças relacionadas à covid, há um redesenho definitivo

Fora do país, a companhia encerrou 26 lojas próprias na comparação de dezembro de 2020 com 2019. Os destaques desse ajuste, de acordo com o presidente da empresa, foram Estados Unidos com dez lojas, Europa com cinco e Índia com sete. Daqui para frente, a presenta física fora do país será concentrada no modelo pop-up, de quiosques temporários em galerias e shoppings, e de concessão, dentro de grandes redes de departamento. E as vendas online fora do Brasil já respondem por 40% do total.

O Ebitda recorrente da operação alcançou R$ 283 milhões nos três últimos meses do ano, com margem de 25,6%. “Esse indicador também nunca se viu na companhia. Era um negócio que historicamente ficava com margens de 10% a 13%”, destaca o executivo. Se for considerado apenas o Brasil, a margem alcançou 31%.

O desempenho consolidado sofreu com a margem negativa, ou seja, consumo de recursos, gerado pela operação internacional, já que o Ebitda das vendas externas ficou negativo em R$ 15 milhões. Esse é o dado recorrente, que exclui eventos extraordinários. O motivo foi a forte queda nos volumes, que recuaram 20% em razão da pandemia.

O câmbio, entretanto, favoreceu a receita líquida externa, que teve alta superior a 12,4%, para R$ 150,5 milhões, e ajudou na composição do todo. “Quando o volume internacional normalizar, as margens serão positivas e importantes. Se excluir um efeito de reclassificação de despesa para custo, a margem bruta fora do Brasil aumentou 7%”, afirma Funari, que não se cansa de repetir — e se desculpa, por isso — sobre o desempenho que chama de "excepcional" do quarto trimestre e “de todo o segundo semestre do ano”.

No rebolado que foi 2020, o lucro líquido do quarto trimestre teve alta simbólica de 0,6% e somou R$ 203 milhões. Esse é o valor que seria recorrente. O número efetivo mesmo, o que aconteceu, sofreu impacto negativo dos custos de separação da Mizuno e do fechamento das lojas internacionais: caiu 55% e ficou em R$ 53 milhões.

Soma daqui, tira dali, a Alpargatas terminou o ano passado com uma posição financeira líquida de mais de R$ 460 milhões, comparado a quase R$ 300 milhões de 2019 — um aumento superior a 50%. Com dinheiro sobrando (mais caixa que dívida), Funari repete o discurso quando questionado sobre aquisições: expansão inorgânica está no radar, mas só quando fizer muito sentido na combinação com o posicionamento Havaianas e pode ser global.

Na rede

A Alpargatas, com a Havaianas, foi na contramão de setor de consumo e varejo e Funari sabe disso. A operação digital  com um canal próprio e global só foi organizada a partir de outubro do ano passado. A pandemia foi ultrapassada, na raça, no varejo físico.

Dos 73 milhões de pares de havaianas vendidos no quarto trimestre, só 5 milhões foram de comércio eletrônico. Mas, perguntar para Funari quanto esse canal pode representar com a consolidação do modelo, é ouvir uma resposta chinesa. Para ele, não importa mais onde o cliente compra, tem que ser onde ele quiser. O importante é que tenha tudo à disposição. A questão é que, na visão do executivo, muito em breve 100% das vendas, não importa o canal, serão influenciadas pelo mundo digital. Hoje, a estimativa é que esse percentual esteja em 70%.

O canal digital, segundo o executivo, dá uma unicidade importante e as campanhas e lançamentos podem acontecer globalmente.

De todas as 500 lojas Havaianas, apenas 110 operavam com estrutura de omnicanalidade ao fim do ano passado. Mas o plano é alcançar 100% da rede até o fim deste ano.

China

A Alpargatas elegeu, como um de seus pilares estratégicos, a expansão internacional com foco maior em Europa, Estados Unidos e China. Enquanto na Europa a presença é mais consolidada, por ser mais antiga, a China é novidade. Mas a empresa já conseguiu se destacar e terminou 2020 apenas atrás da Nike, em marcas internacionais no país, em calçados abertos. A receita anual foi de R$ 28 milhões, um aumento de quase 500% mesmo com pandemia. É pouco, a empresa sabe. Por enquanto, apenas colocou um pé por lá. Mas o ritmo planejado da passada é alto.

Em dezembro, a Havaianas contava com 10 lojas dedicadas à marca, 200 pop ups de atacado, presença em quatro market-places online, uma soma de 10 milhões de visitantes únicos e mais de 600 mil seguidores em redes sociais. Como Funari disse no último ‘investor day’ da empresa, lá “qualquer pedaço é de milhões.”

 

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