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2022, o ano para a indústria de fundos esquecer: saques de R$ 53 bi, após 13 anos de captação

Nem mesmo as carteiras de renda fixa escaparam do cenário macro: saques viram consumo, amortização de dívida e até migram para papéis isentos

Fundos de investimento: bancos recuperam recursos com títulos isentos de imposto (Anyaberkut/Getty Images)

Fundos de investimento: bancos recuperam recursos com títulos isentos de imposto (Anyaberkut/Getty Images)

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Graziella Valenti

23 de dezembro de 2022, 14h07

O custo da Selic em quase 14% ao ano ficou evidente para a indústria de fundos em 2022. Nem as carteiras de renda fixa estão escapando dos efeitos que o ambiente de inflação e custo caro do dinheiro faz com a economia. Em dezembro, saíram quase R$ 38 bilhões desses portfólios — isso até o dia 19, conforme dados da Anbima. Em novembro, R$ 17 bilhões já haviam sido sacados desses fundos, o que faz só a soma dos dois meses chegar a R$ 55 bilhões. Com isso, a captação líquida desse segmento, que foi superior a R$ 230 bilhões em 2021, caiu para R$37 bilhões, no acumulado deste ano, faltando ainda oito dias úteis para serem consolidados no total.

Um olhar mais amplo dos dados traz notícias pouco ou nada animadoras. Em 2021, foi notável a migração de recursos dos fundos de ações para a renda fixa, dada a escalada do CDI. Mas, agora, o que se vê é a queima de capital mesmo.

A leitura de especialistas é que muitas pessoas estão resgatando reservas seja para manter o padrão de consumo, seja para lidar com o encarecimento das dívidas. Não por acaso, a indústria vai encolher neste ano — no que diz respeito à entrada de dinheiro novo, não em patrimônio total. Depois de 13 anos sucessivos de crescimento, de captação líquida de recursos (foram mais de R$ 400 bilhões em 2021, por exemplo), o ano deve fechar negativo. Até agora, o saldo está no vermelho em mais de R$ 53 bilhões.

Falar dos fundos de ações e dos multimercados, nesse ano de tanta volatilidade na bolsa, já é chover no molhado. No ano, esses segmentos perderam aplicações R$ 68 bilhões e R$ 86 bilhões, respectivamente. Desde que o Banco Central iniciou a trajetória de alta da Selic, a alocação total dos portfólios de fundos no Brasil, que chegou a 15% do patrimônio total, vem caindo mês a mês e está agora em 10,7%, aponta relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da Exame).

Alguém ganhou?

Nessa onda de Selic morro acima, os bancos recuperaram parte dos recursos perdidos, com as emissões de letras financeiras e imobiliárias. Em especial porque cada instituição deixou de colocar os títulos em plataformas, oferecendo exclusivamente a correntistas. O motivo principal da atração é o baixo custo e a alta remuneração. São papéis isentos de imposto de renda e de taxa de administração. Assim, o que não virou consumo, nem amortização de dívida, procurou um porto seguro com o menor custo possível.

A expansão da indústria de fundos teve duas fortes correlações no Brasil: a primeira foi a queda na taxa de juros, e a segunda, o avanço da tecnologia sobre a capacidade de distribuição dos produtos. Ficou mais simples investir. Não por acaso, os tradicionais bancões viram seus fundos encolherem, frente à explosão das gestoras de recursos independentes — as maiores beneficiadas do advento das plataformas de investimento. Parte disso, porém, foi reconquistada nos dois últimos anos, com destaque para 2022.

Com essa brincadeira de LIG, LCI, LCA, o total sob gestão, considerando esses tipos de papéis, subiu de R$ 611 bilhões para R$ 659 bilhões no Bradesco, entre o fim de 2020 e setembro deste ano. No Itaú, o volume de ativos próprios sob gestão aumentou de R$ 1,65 bilhão para R$ 1,89 bilhão, nessa mesma comparação. O assunto foi até mesmo destaque nos comentários de resultado do terceiro trimestre. Em 12 meses, o total de ativos sob gestão tiveram aumento de 7,6% puxados exclusivamente pela alta de 9,1% em produtos próprios, em função dos recursos de letras. Com isso, o funding da instituição proveniente de clientes cresceu 13,2% em 12 meses. Os recursos vindos da emissão de letras cresceram 131%, aponta o banco.

Resta saber agora o que vai acontecer em 2023: com o Brasil e com a pujante indústria de investimentos, responsável para transformar a poupança das pessoas em capital produtivo.