Logo Exame.com
Educação

Nicola Calicchio já transformou muitas empresas. Agora, quer unir gerações pela educação

Com ex-McKinsey como um dos patronos, Brasa, rede que apoia estudantes brasileiros no exterior, prepara megaevento para levantar fundos e conectar empresários, seus sucessores e jovens de baixa renda que querem estudar fora do país

Fundada em 2014, Brasa é uma rede que une estudantes  brasileiros que estudam – ou querem estudar – no exterior (Hiroshi Watanabe/Getty Images)
Fundada em 2014, Brasa é uma rede que une estudantes brasileiros que estudam – ou querem estudar – no exterior (Hiroshi Watanabe/Getty Images)
Natalia Viri

Natalia Viri

1 de julho de 2024 às 10:18

Desde que deixou a liderança da McKinsey no Brasil, em 2021, Nicola Calicchio – um dos mais respeitados consultores empresariais brasileiros – escolheu a dedo os conselhos em que atua.

Está no board da farmacêutica Cimed, da operadora de planos de saúde Hapvida, da CNN Brasil e atua como conselheiro consultivo do Morgan Stanley e do Cruzeiro, seu time do coração.

Desde 2017, no entanto, um espaço está reservado na agenda como conselheiro da Brasa, sigla para Brazilian Student Association, uma rede que reúne mais de 10 mil estudantes brasileiros que estudam fora ou já se formaram em universidades estrangeiras.

A escolha não veio à toa.“A conexão com o entusiasmo e o idealismo dos jovens é algo que me alimenta e me inspira”, afirma. “E, mais do que isso, sempre digo que o Brasil não é pobre por destino, é pobre por escolha. Nós fazemos as escolhas erradas. E quem vai mudar isso são as pessoas que têm que assumir o destaque na sociedade para tomar as decisões corretas.”

Fundada em 2014, a Brasa reúne e fomenta redes locais de estudantes em mais de 100 universidades em todo o mundo, de Harvard à China. A ideia é dar apoio para quem deixa o país em busca de educação de ponta, levando a cultura brasileira para o exterior e ajudando a trazer os talentos de volta para ajudar a transformar o Brasil.

O trabalho inclui o acolhimento de estudantes que estão fora do país e conferências anuais realizadas nos Estados Unidos e Europa reunindo alunos do mundo todo e nos quais são feitas feiras de recrutamento com empresas nacionais.

Mais recentemente, iniciou um trabalho ainda mais transformador: mentoria e concessão de bolsas de auxílio para estudantes de baixa renda que querem aplicar para estudar fora e até já conseguiram bolsa de estudo, mas ainda precisam de um apoio para o custo de vida em dólares ou euros – o que inclui moradia, alimentação, roupas e livros, por exemplo.

Conectando as pontas

No seu aniversário de 10 anos, a Brasa agora quer que se trabalho seja mais conhecido no próprio Brasil. E, para isso, estudantes e apoiadores estão preparando um megaevento para apresentar e potencializar seu legado, unindo gerações em prol do país.

No dia 12 de setembro, o Brasa Legacy vai reunir cerca de 300 pessoas no hotel Rosewood em São Paulo, que vai contar com a apresentação de uma grande liderança mundial no setor de tecnologia.

O nome ainda não foi revelado: “mas é alguém de peso”, diz Calicchio, que está atuando como uma espécie de patrono, fazendo suspense.

Palestras do próprio Calicchio, do presidente do BTG Pactual, Roberto Sallouti e do fundador do banco, André Esteves também estão previstas.

Mais que os grandes nomes no palco, no entanto, o principal objetivo é formar conexões fora dele. Serão formadas 33 mesas, com uma composição de três membros com perfis bem específicos.

Em cada uma delas, vai sentar uma grande liderança nacional, seja um grande empresário e empresária ou empreendedor dos mais diversos setores, de fundadores de startups a expoentes do entretenimento, e a segunda geração que está sendo preparada: pode ser o filho ou filha ou algum outro executivo ou executiva que está sendo cogitado para dar perenidade ao legado.

O terceiro componente será um dos estudantes apoiados pela Brasa, que já está no exterior com auxílio de bolsas da associação ou está no processo para se aplicar para universidades fora do país.

“A ideia é um evento para aproximar gerações. Para o estudante ou potencial estudante é uma chance de fazer conexão e ter acesso a essas grandes mentes empresárias. Para o empresário e seu sucessor, é quase como um exemplo para a próxima geração: conhecer um garoto ou garota que tem muita garra, muita vontade de fazer as coisas”, aponta Calicchio – ele mesmo um exemplo do potencial de transformação de uma temporada de estudos fora do Brasil.

A transformação pela educação

Nascido em uma família de classe média em Belo Horizonte, filho de um padeiro com uma professora do ensino fundamental, Calicchio se formou engenheiro na UFMG e viu sua vida mudar aos 24 anos, quanto passou num mestrado no prestigioso Massachussets Institute of Technology (MIT).

Foi de lá que ingressou na McKinsey, onde construiu uma carreira de mais de 30 anos que o alçou à liderança da prestigiosa consultoria no Brasil.

“Eu não teria tido o impacto na vida das pessoas que eu tive, como consultor, como conselheiro. O MIT me poliu e abriu as portas do mundo corporativo do Brasil e do mundo”, conta.

Na época, o dinheiro para a empreitada de dois anos nos Estados Unidos veio da venda do apartamento próprio em que sua mãe morava, conta Calicchio, de olhos marejados.

Numa época em que ainda menos brasileiros estudavam fora, a vida na fria Boston só não foi mais solitária, graças a um outro amigo brasileiro, que o acolheu. “Essa rede de relações faz muita falta”, aponta.

Ana Garcia, uma das fundadoras da Brasa, é um dos exemplos de transformação da rede. A ideia de fundar a associação, junto com Matheus Silva, veio em 2014, quando ela estava na graduação em Relações Internacionais na Universidade de Virginia, que ainda não tinha uma associação formal de estudantes brasileiros. “O que tinha eram os brasileiros que se reuniam periodicamente para conversar, trocar ideias”, afirma.

Conseguir um summer job, se mostrou um desafio enorme no Brasil, onde não havia uma cultura de estágio de férias. Muitas portas fechadas e vários telefonemas para empresários depois, Garcia conseguiu um estágio na Cogna, de educação.

“Você quer fazer o estágio no Brasil, no momento que pode ficar perto da família. E há uma oportunidade incrível das empresas de aprender com as experiências de quem vem de fora”, conta. “Foi o Brasa que criou a cultura de summer job aqui no país”.

Hoje, as empresas buscam ativamente estagiários na base da Brasa e nos seus eventos.

De volta ao Brasil, Garcia passou pelas áreas de inovação em marketing e pessoas na Ambev e, ao decidir empreender na área de educação, se juntou aos líderes do mercado financeiro que fundaram o Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), faculdade que almeja ser a melhor de tecnologia na América Latina, unindo computação, negócios e liderança. Hoje, é diretora de operações.

“Há um mito de que quem vai estudar fora quer ficar fora. Na grande maioria, as pessoas querem voltar e fazer a diferença para o Brasil”, diz.

No evento de setembro, o dinheiro arrecadado será voltado para financiar o programa de auxílio para estudantes. A participação, mediante convite, custará R$ 25 mil. O plano é engajar cada vez mais empresários nessa cultura doadora.

“O Fabio Barbosa [ex-presidente do Santander e atual CEO da Natura] tem uma frase que gosto muito que é: não deixamos um Brasil melhor para os nossos filhos, mas deixamos filhos melhores para o Brasil”, diz Calicchio. “É esse legado que a Brasa quer perpetuar.”

Para quem decide. Por quem decide.

Saiba antes. Receba o Insight no seu email

Li e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade

Natalia Viri

Natalia Viri

Editora do EXAME IN

Jornalista com mais de 15 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Valor, Veja e Brazil Journal e foi cofundadora do Reset, um portal dedicado a ESG e à nova economia.

Continua após a publicidade
Com IFC e BID, Natura capta R$ 1,33 bi para ampliar uso de bioingredientes da Amazônia

Com IFC e BID, Natura capta R$ 1,33 bi para ampliar uso de bioingredientes da Amazônia

Na USP, professor deixa legado de R$ 25 milhões – e um recado às elites

Na USP, professor deixa legado de R$ 25 milhões – e um recado às elites