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Shein

Com produto chinês, Shein é 52% mais barata do que varejista brasileira: como manter o diferencial?

Cálculo feito pelo BTG Pactual considera cesta de oito produtos e compara varejista chinesa com C&A, Riachuelo e Renner

Shein: receio do consumidor aumenta com maior perspectiva de taxação (Stefanie Keenan/Getty Images)
Shein: receio do consumidor aumenta com maior perspectiva de taxação (Stefanie Keenan/Getty Images)
Karina Souza

Karina Souza

27 de abril de 2023 às 10:02

A Shein é, hoje, 52% mais barata do que as varejistas brasileiras que têm ações negociadas na bolsa. O cálculo foi feito pelos analistas Luiz Guanais e Gabriel Disselli, do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da Exame), considerando uma cesta de oito produtos: vestido, calça jeans, jaqueta, saia, moletom, T-shirt, botas e bolsa. De acordo com os dados do relatório, enviado ao mercado na noite desta quarta-feira (26), esse conjunto de itens totaliza R$ 648 na varejista chinesa, cifra que é de R$ 989 na Riachuelo e de R$ 990 na C&A. A Renner é a que mais se distancia, com R$ 1.089 -- uma constatação que não surpreende, dado o posicionamento da marca.

O baixo preço não é uma exclusividade por aqui. Ainda segundo o relatório do BTG, a média de preços dos itens comercializados pela Shein é de US$ 11. O que significa, segundo os analistas, que a varejista está isenta do imposto de importação de 16,5% e de um imposto chinês, de 7,5%. "A companhia ainda se beneficia de uma brecha no pagamento de impostos, da era Trump, em que vendedores podem enviar US$ 800 em produtos diariamente da China para os Estados Unidos sem pagar taxas. Ao enviar produtos diretamente para os consumidores, a companhia aproveita de forma integral essa vantagem. Por outro lado, grandes varejistas têm de lidar com tarifas que aumentam cada vez mais, de olho em tornar os produtos chineses mais caros, impactando grandes envios", escrevem.

O material vem poucos dias depois do anúncio de que a Shein vai passar a fabricar produtos no Brasil. Na última semana, a companhia anunciou que pretende ter 85% das vendas nacionalizadas nos próximos quatro anos, sendo o restante formado por produtos importados da China. Para cumprir essa tarefa, a empresa vai investir US$ 150 milhões e deve gerar 100 mil empregos ao longo dos próximos três anos. No fim de semana, saiu o primeiro acordo de fabricação nacional, com a Coteminas.

A dúvida que os analistas expõem é como a companhia vai conciliar esse plano de expansão (e de produção nacional) com os preços baixos. Em entrevista ao EXAME IN na última semana, Marcelo Claure, chairman da Shein, afirmou que a companhia conseguirá atingir esse objetivo com a redução de custos atrelados à importação, sem mais detalhes relacionados ao assunto. No Brasil, para lembrar a fala do ministro Fernando Haddad, envios internacionais estão sujeitos a um pagamento de 60% do valor do item como pagamento de imposto.

"Sim, a companhia deve diversificar sua matriz de produção, ter um alto engajamento e tráfego orgânico, mas também vai competir sob as mesmas condições de produtores locais  e enfrentará desafios similares aos deles em escalar a capacidade de produção", afirmam os analistas. 

Apesar do atrativo de preço baixo por aqui, a companhia pratica preços, hoje, 1% mais caros do que nos dos Estados Unidos. Ajustada por poder de compra, essa diferença fica em 111% -- o que já torna o país um dos mais caros para a plataforma de varejo chinesa. 

Entre as vantagens da estratégia anunciada pela companhia estão a velocidade de disponibilizar produtos ao mercado (ainda que não se saiba como a companhia vai conseguir manter isso produzindo localmente), além de uma estratégia já consolidada de social selling. Outro ponto relevante tem a ver com ESG: ao fabricar produtos no Brasil, a primeira impressão é de que será mais fácil rastrear a produção da companhia -- hoje um tema que ainda gera questionamentos. 

Fábio Alperowitch, fundador da Fama Investimentos, trouxe a discussão para o LinkedIn. Em um post recente, o executivo, que também é conselheiro da WWF e da GRI, comparou os preços da Shein -- cujos critérios de trabalho ainda não são claros -- com os da Renner -- que tem credenciais de sustentabilidade. A comparação foi usada para levantar a bandeira de que o consumo a preços baixos é um ato político. "A geração-Z, que forma a base de consumidores da Shein, precisa se decidir pela coerência ou hipocrisia. Não dá para levantar um braço para defender direitos humanos e um planeta justo e usar o outro pra transgredir seus valores. O “barato” é a custa de alguém (ou alguéns)", afirmou.

Em um ambiente cada vez mais competitivo, mesmo entre as varejistas asiáticas (o BTG estima que a Shopee teve um faturamento de R$ 6 bilhões com roupas no último ano, R$ 1 bi a menos do que a Shein) ainda restam mais dúvidas do que certezas sobre o futuro da fast fashion de origem chinesa por aqui. A demanda dos consumidores por estar na moda está longe de desaparecer — bem como os olhares atentos sobre o futuro da varejista em sua nova estratégia local.

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Karina Souza

Karina Souza

Repórter Exame IN

Formada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduada pela Saint Paul, é repórter do Exame IN desde abril de 2022 e está na Exame desde 2020. Antes disso, passou por grandes agências de comunicação.

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