"A impossibilidade de fazer IPOs afetou o mercado de várias formas. Fundos tiveram que adiar seus desinvestimentos, empresas adiaram seus planos e acabaram usando dívida para financiar a maioria dos projetos", destaca Brito.
Seca de IPOs pode acabar em 2026; retomada não depende só da queda dos juros
Brasil não tem estreias na bolsa há mais de quatro anos; fiscal e exterior também dificultam retomada


Rebecca Crepaldi
Repórter de finanças
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 14:25.
Última atualização em 5 de janeiro de 2026 às 14:45.
Há quatro anos o mercado se questiona: as Ofertas Públicas Iniciais (IPOs, na sigla em inglês) vão voltar? Desde 2021, quando 47 empresas foram à B3, não há abertura de capital de uma empresa no mercado brasileiro. A principal vilã? As altas de juros, que logo no começo de 2022 alcançaram a marca de dois dígitos.
A Selic ainda está em 15% o que gera um mercado cauteloso. Mesmo assim, começam a surgir alguns movimentos concretos. A BRK Ambiental, controlada pela gestora canadense Brookfield Asset Management, deu entrada em 12 de dezembro passado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com o pedido para realizar seu IPO no Brasil. Até o momento, não havia, na CVM, nenhum pedido protocolado para abertura de capital.
E é exatamente esse setor que os especialistas acreditam que impulsionará a volta dos IPOs: o de infraestrutura, o que inclui saneamento. Desde que sejam empresas de grande porte.
“Não vão ser transações pequenas, muito locais, de setores mais domésticos, como a gente teve em 2021. Acho que a gente vai ter transações de grande porte, que tenham bastante liquidez para evitar o que aconteceu há quatro anos”, diz Victor Rosa, do Scotiabank. Farmacêuticas, setor de energia e logística também entram no radar.
E quando os IPOs vão voltar? O movimento ainda é incerto. A expectativa de queda de juros em 2026 colabora para essa perspectiva, mas há um receio no ar. “Eu não posso afirmar que vai voltar. Mas eu acredito que o cenário está mais favorável em relação ao que vivenciamos nessa mesma época em 2024”, diz André Milanez, diretor executivo financeiro da B3.
Anderson Brito, head do Banco de Investimentos do UBS BB, diz que diversas empresas que tentaram fazer IPO no passado devem retomar os processos, "uma vez que o mercado apresente melhores condições”, afirma
Seca dos IPOs
Juros altos afastam o investidor da renda variável, já que a renda fixa passa a ser extremamente atrativa. Para convencer o investidor a migrar para ações — especialmente de uma empresa que ainda está “se provando” no mercado — o IPO teria de sair a um preço muito mais descontado. Muitas companhias preferem esperar a aceitar esse valuation menor.
“Não temos um problema de oferta aqui, há um pipeline grande de companhias que estariam prontas para acessar o mercado. O problema é de demanda. Mas os juros altos são a fagulha que inicia esse processo", diz Milanez.
"É necessário que a gente tenha um ambiente também com certa previsibilidade, com um cenário fiscal que seja crível e que inspire confiança por parte do investidor”, complementa.
As incertezas globais também são fatores que colaboram para aversão ao risco, explica Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima. “Não adianta você ter um juro menor e ainda assim muita incerteza”, afirma. Segundo ele, as eleições, tanto locais quanto estrangeiras, pioram o cenário de aversão ao risco.
Para além dos juros locais, as taxas ainda elevadas nos Estados Unidos drenam recursos para a renda fixa americana, o que explica a baixa atratividade para IPOs no Brasil. Para controlar o movimento inflacionário, chegou a 5,5% em julho de 2023.
Tudo isso gerou muito resgate, tanto de pessoas físicas, quanto jurídicas e de fundos de ações, o que fez o retorno de empresas que abriram capital em 2021 ficarem negativo. Segundo um levantamento da Elos Ayta Consultoria, das 47 empresas que abriram capital em 2021, 27 tiveram retorno negativo, enquanto 7 fecharam capital. O destaque foi a Infracommerce, que recuou, desde o IPO, 99,98%.
Rosa explica que a liquidez está concentrada em algumas empresas grandes, o que acaba prejudicando small e mid caps. Para contornar o fechamento da janela de IPOs, muitas companhias partiram para outros tipos de financiamento, como private equity. “Temos visto as empresas, que normalmente se financiariam por IPOs, partirem para transação privada para poder se capitalizar.”
Baixa representatividade
Apesar do mercado de capitais brasileiro ter evoluído significativamente em infraestrutura e diversidade de produtos ao longo das últimas décadas, ainda apresenta baixa representatividade como fonte direta de financiamento corporativo.
Segundo dados do Banco Mundial compilados pela Quartzo Capital a pedido da EXAME Invest, a capitalização de mercado (a soma do valor de mercado de todas as empresas listadas na B3) representava, em 2024, aproximadamente 30% do Produto Interno Bruto (PIB).
É muito menor do que nos Estados Unidos, em que a soma do valor de todas as empresas listadas nas bolsas americanas representa cerca de 213% do PIB – e menor que em economias como China e Reino Unido.
A abertura de capital ao redor do mundo também apresentou queda, mas não zerou como o mercado brasileiro. Em 2025, por exemplo, 73 empresas dos Estados Unidos fizeram IPO, enquanto 95 foram à bolsa na China e 18 na Inglaterra. No mundo, houve 539 IPOs – no Brasil, zero.

Estudo sobre IPOs da Quartzo Capital (Quartzo Capital/Reprodução)
Na contramão, número de OPAs aumenta
Esse movimento também se reflete no inverso: nos últimos anos ganhou força o número de Ofertas Públicas de Aquisições (OPA). “Observa-se um número crescente de companhias optando por sair do mercado acionário diante de valuations deprimidos, baixa liquidez e custos elevados de conformidade”, diz Luís Gustavo Budziak, sócio-diretor da Quartzo Capital.
O resultado, segundo ele, é um mercado cada vez mais raso, com menos empresas listadas, menor diversidade setorial e menor capacidade de atrair investidores, aprofundando a percepção de estagnação estrutural da B3 num momento em que outras economias já retomam ciclos mais sólidos de abertura de capital.
Enquanto, entre 2022 e 2025, não teve nenhum IPO brasileiro, o Brasil vivenciou um total 44 OPAs para cancelamento de ações no mercado acionário. Um exemplo recente é o da Iberdrola, empresa espanhola que conduziu a OPA para fechar o capital da Neoenergia.

Estudo sobre OPAs da Quartzo Capital (Quartzo Capital/Reprodução)
Milanez complementa e diz que é “triste ver as empresas abandonando o mercado de capitais”. No entanto, afirma que não faltarão empresas para investir e que o mercado segue líquido. “A gente acredita que os IPOs vão voltar a acontecer. Não acho que seja um problema imediato para qualidade da saúde do nosso mercado de capitais local.”
Brito, do UBS BB, enfatiza: em 2025, o Ibovespa bateu seu recorde histórico de pontuação, negociando acima de 160 mil pontos pela primeira vez. No dia 30 de dezembro, último pregão do ano, o principal índice de referência da B3 acumulou um retorno positivo de 34% em reais.
"O bom desempenho do mercado, somado a um ambiente de maior liquidez, deve propiciar um ambiente favorável para a retomada dos IPOs em 2026", conclui.
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Rebecca Crepaldi
Repórter de finançasJornalista formada pela Unesp, mestra em divulgação científica na Unicamp e especializada em Jornalismo Econômico pela FGV. Tem mais de 5 anos de experiência em redação com passagens pelo G1 e Estadão.
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