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Os desafios de Musk com o piloto automático da Tesla

Montadora é alvo de questionamentos depois de demonstração em vídeo de 2016 do full self driving não ser verdadeira

 (VCG/VCG/Getty Images)

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Karina Souza

22 de janeiro de 2023, 10h30

O Brasil todo só fala em Americanas — e com razão. O rombo de R$ 43 bilhões (nas estimativas mais atualizadas) em uma rede quase centenária não poderia passar despercebido. Mas, dando um respiro num dos tópicos mais falados nos últimos dias, um assunto que ganhou destaque na mídia norte-americana ao longo desta semana, especialmente no New York Times, é a capacidade de os carros da Tesla serem realmente autônomos. Mais do que isso, o grau de consciência dos motoristas a respeito do risco que correm com um modelo ainda bastante cheio de falhas. 

Na reportagem, publicada no dia 17 de janeiro, o repórter Christopher Cox acompanha o dia a dia de dois motoristas de Tesla, depois de muita insistência com vários deles para abordarem o assunto. Os que topam falar e aparecem na notícia, curiosamente, têm a mesma profissão (são engenheiros) e, para além da ocupação, compartilham também a meia-idade, a forma de ver a montadora e os carros lançados até hoje. Para ambos, o piloto automático está em constante atualização e, ao reportar os erros que percebem, estão contribuindo para que o sistema fique cada vez mais preciso. 

O raciocínio faz sentido dentro dos modelos de aprendizado de máquina e dos planos que o próprio Elon Musk tem para a montadora. Mas, ao promover o Full Self-Driving como uma ferramenta capaz de efetivamente dirigir sozinha, há questões importantes a serem levantadas. A matéria do NYT mostra que os carros dos entrevistados têm dificuldades básicas, como lidar com dias nublados ou muito ensolarados, eventuais falhas em frear no trânsito ou em reconhecer todos os pedestres que passam na rua. Um deles, inclusive, já chegou até mesmo a se envolver em um acidente (leve), mas há casos reportados, inclusive judicializados, de acidentes fatais envolvendo os modelos da Tesla. 

De olho na propaganda que é feita a respeito dos veículos e do modelo de direção autônoma, uma novidade veio à tona também nesta semana: um vídeo de 2016, publicado pela montadora e até mesmo presente no Twitter de Elon Musk, afirmando que se trata de uma demonstração na qual "o veículo dirige sozinho", é falso. Ou, pelo menos, não completamente verdadeiro.

Uma matéria publicada na Bloomberg com base em e-mails trocados entro da montadora mostrou que o CEO, há sete anos, pediu uma demonstração do que o veículo poderia fazer no futuro. Depois de várias versões, a final foi bem mais imediatista. E virou até prova em caso judicial depois de mortes envolvendo o tal piloto automático acoplado aos veículos. Investigações ainda estão sendo conduzidas nos Estados Unidos para apurar se houve disseminação de propaganda enganosa, de acordo com o portal.

Outro ponto relacionado ao Full Self Driving também ganhou destaque neste mês. Em janeiro, a Reuters mostrou que a National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), agência reguladora dos EUA, questionou a Tesla por uma funcionalidade anunciada no Twitter, de que os motoristas com mais de 10 mil milhas rodadas conseguiriam desativar o alerta do sistema de direção autônoma que aponta a necessidade de assumir a direção. Musk confirmou o erro à agência e disse que a atualização viria em janeiro, mas não deu mais detalhes sobre o assunto.

O desenvolvimento da montadora ao longo do tempo levanta uma discussão mais ampla, que envolve até mesmo o papel dos reguladores diante do apetite do bilionário por riscos. O The Verge, site especializado em tecnologia, se aprofundou no tema, no fim de 2022, e apontou que, enquanto os Estados Unidos têm uma espécie de autorregulação das montadoras para o assunto, na Europa, isso funciona de forma totalmente diferente. Por lá, a Tesla tem de provar aos reguladores que um carro com o sistema é mais seguro do que sem ele, algo que não conseguiu fazer até o momento. As perspectivas de mudanças a curto prazo são extinguidas no que o texto consegue mostrar — levaria entre 10 a 15 anos para mudar isso — mas o ponto levantado não deixa de ser interessante, pensando no futuro. 

Concorrência

Com os pés menos centrados no que o futuro pode reservar para Musk e mais no presente, fato é que os assuntos (ainda) não fizeram preço, ou não parecem fazer, nas ações da Tesla.  Depois de ter perdido mais de 60% de seu valor de mercado em 2022, a montadora, mesmo com a divulgação dessas informações relacionadas ao piloto automático em janeiro, viu até uma alta sutil no preço dos papéis neste início de 2023, abrindo o ano em US$ 120 e fechando, nesta sexta-feira, a US$ 132.

Apesar da recente valorização, os desafios para o futuro da montadora se mantêm, em um ambiente ainda de juros elevados e de perspectiva de recessão global. Isso sem falar no aumento da concorrência, que vem tanto de players novos, como a chinesa BYD, quanto dos já consolidados nomes de Ford, Mercedes-Benz e GM. Um relatório da S&P Global Mobility em novembro descobriu que a participação da Tesla nas vendas de veículos elétricos deve cair para menos de 20% até 2025, dos dominantes 79% em 2020.

É bem verdade que todas estão mais focadas na corrida pelo elétrico do que pelo autônomo, mas, no momento em que investidores têm de escolher para onde vai o dinheiro, não deixa de ser interessante pensar até que ponto as atualizações dos modelos comercializados pela Tesla conseguirão ser empregadas em tempo hábil. 

O apetite para risco

Os episódios com a montadora fazem questionar, mais uma vez, o tamanho do apetite para o risco que o bilionário tem. Na matéria do NYT, Peter Thiel, ex-sócio de Musk no Paypal, afirma que, se fosse escrever um livro, o capítulo sobre Musk seria intitulado “O homem que não sabia nada sobre riscos”. A filosofia do bilionário, como mostra a reportagem, tem muito a ver com sacrificar possíveis erros no presente em nome de um ‘bem maior’ no futuro. É assim com o Twitter, com a promessa de entregar uma ferramenta ligada ao bem-estar da civilização, e com a Tesla, indo além dos carros elétricos para resolver questões ligadas à direção autônoma. O problema é que os erros para chegar até à Terra Prometida não são necessariamente pequenos. Um indício do tema é o fato de que a companhia parou de reportar nos relatórios trimestrais os dados de segurança -- que habitualmente disponibilizava aos investidores desde 2018. 

Ainda dentro dessa análise e do apetite de Musk para o risco, é quase impossível descartar a aquisição do Twitter e as obrigações financeiras do bilionário. No fim de janeiro, US$ 1,5 bilhão terá de ser desembolsado por ele como custo de aquisição, um dinheiro que ainda não se sabe muito bem de onde virá. No momento em que o Twitter já perdeu 40% da receita na comparação anual, como mostrou a New Yorker, as dúvidas sobre quanto das ações da Tesla terão de ser vendidas permanecem. Em dezembro de 2022, o bilionário já havia vendido cerca de US$ 3,6 bilhões em papéis.

Questões sobre o futuro de Musk para pagar as dívidas permanecem, bem como a curiosidade para entender quanto tempo o bilionário vai levar, mesmo, para que a montadora consiga ter um "piloto verdadeiramente automático". Os avanços até agora não podem ser descartados, mas é fato que há muito a se fazer antes que motoristas possam relaxar sem medo a bordo de um veículo da Tesla. As limitações ficam cada vez mais claras, assim como a responsabilidade dos consumidores sobre o que estão levando.