No foco da Bolsa, inflação terá veredito do Fed?

Ata do comitê de política monetária do Federal Reserve sai hoje e mercado global aguarda posição sobre inflação histórica e sinalização para juros

A inflação no atacado e no varejo segue em descompasso agudo, mas não para sempre. Neste ano, o IGP-M será de 15,21%, três vezes superior aos 5,05% do IPCA. Em 2022, a relação será de 4,26% e 3,50%, respectivamente, prevê a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia. Em pouco mais de um ano, a inflação brasileira estará se aproximando da marca histórica da inflação americana que, em abril, atingiu 4,20%. Esse pico reforça a expectativa de analistas internacionais quanto à ata de política monetária do Federal Reserve (Fed), que sai hoje à tarde, em busca de sinalizações sobre a condução dos juros. Contudo, o mercado de títulos do Tesouro americano vê a inflação sob controle e o Fed poderá deixar o índice acima da meta, 2%, por dois ou três anos. Sem pressa, portanto, para iniciar um ciclo de alta do juro.

“O cenário é totalmente positivo para a Bolsa, com a economia reflacionando, o PIB em crescimento saudável e com repercussão positiva sobre os mercados emergentes. O mercado futuro de Treasuries aponta inflação anual implícita de 2,7% nos próximos cinco anos e de 2,3% nos cinco anos subsequentes. Juro real negativo não é ruim para Bolsa em geral ou para o setor de tecnologia em particular. E o debate principal hoje é exatamente se o Fed vai agir ou não mais cedo”, afirma Roberto Attuch, CEO da Ohmresearch, que chefiou a área de Equities do Credit Suisse e do Barclays.

A semana passada foi volátil em função da divulgação do número de inflação nos EUA. O CPI de 4,2%, em base interanual, veio acima da expectativa de 3,6%, e a variação de 0,8% em relação ao mês anterior foi a maior em 40 anos. O grande cabo de guerra no mercado hoje está entre aqueles que acham que a inflação mais alta dos próximos meses será algo transitório ou início de uma tendência.

Em entrevista ao EXAME IN, Attuch avalia que, até o momento, ganhou a primeira batalha quem comprou a narrativa do Fed de que não há descontrole inflacionário e que se trata de um fenômeno transitório. “O Fed não precisa agir correndo. O mercado de renda fixa, o mais relevante por sua magnitude, aponta que as expectativas de inflação estão relativamente ancoradas e o próprio Fed já deixou claro que deixará a inflação acima da meta por algum tempo”, afirma. Contudo, continua Attuch “a guerra não foi vencida ainda e só teremos o veredito final depois dos números de inflação de julho, com a dissipação do efeito calendário e a solução para alguns choques de oferta”.

Sergio Goldenstein, consultor independente da Ohmresearch, ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto do Banco Central e ex-diretor de Renda Fixa e Câmbio da BM&F Bovespa, concorda que ainda é cedo para se ter uma opinião forte sobre a trajetória da inflação nos EUA. “O Fed não vai se precipitar e deve esperar por algum tempo antes de decidir pelo ‘tapering’, a retirada dos estímulos monetários. Essa perspectiva favorece o apetite de risco nos mercados desenvolvidos e emergentes”, avalia.

Preços são formados no futuro

O especialista em preços, Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, pontua que a economia americana avança, após a China ter engatado seu crescimento ainda no ano passado, sinalizando expansão do PIB da ordem de 7% a 8% neste ano. “Fundamentos econômicos justificam a disparada dos preços das commodities. A lei de oferta e demanda prevalece na economia real. Mas não se engane, os preços são formados nos mercados futuros, onde atuam investidores sob o efeito de expectativas”.

Ao EXAME IN, Silveira comenta que a explosão dos preços das commodities, das matérias primas, carrega a inflação doméstica. Os índices de varejo, como o IPCA, são menos afetados por ser calculado com metodologia diferente dos IGPs. “O varejo é suavizado, o que não quer dizer que o estrago do aumento de custos trazido pelo atacado não quebre empresas. Quem não conseguiu repassar custos quebrou. E o desemprego é reflexo desse movimento, uma vez que especialmente na esfera do varejo as empresas não tinham crédito ou reservas quando o mundo e o país mergulharam na pandemia”, diz Silveira que prevê para o segundo semestre um arrefecimento dos índices – sobretudo no atacado – pelo declínio do dólar “que pode chegar a R$ 5,00, inclusive, porque temos um bom saldo comercial”.

Para o sócio-diretor da MacroSector, há uma “bolha” de preços das commodities. “Ela pode estourar se os EUA se assustarem e o Fed decidir aumentar o juro. Nesse caso, podemos aguardar uma revisão de portfólio, reposicionamento dos ativos ou uma rotação de carteiras com investidores saindo da renda variável para a renda fixa. Por ora, é importante ter claro que a alta das commodities não acabou. O ‘quantitative easing’ de Joe Biden continua alimentando a economia e, por tabela, os mercados.”

Fábio Silveira pondera que parte da injeção global e trilionária de recursos acaba direcionada ao mercado financeiro, onde as commodities são importante lastro em fundos de investimentos. “Esse movimento foi explícito no fim do ano passado, quando as commodities arrancaram”, conclui.

 

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