Mark Mobius, otimista com o Brasil: B2W dá mais retorno que a Amazon

Papa dos mercados emergentes está satisfeito de ter ampliado posição no país quando preços estavam baixos

“As pessoas falam da Amazon, nos Estados Unidos, que dobrou de valor desde o piso na pandemia. A B2W subiu 200%, nessa comparação. E, graças a Deus, eu comprei.” É assim que o lendário gestor Mark Mobius anuncia que o peso do Brasil em sua carteira de ações está hoje semelhante ao da China, em 17% — as duas maiores posições. O motivo? Simples: oportunidade. Os preços aqui ficaram muito mais baixos do que lá, explica ele em entrevista ao EXAME In. A distribuição é bem diferente de um ano atrás, quando a China tinha 20% da alocação e o Brasil, 10%.

A gigante fundada por Jeff Bezos, que diariamente fica mais e mais multibilionário, vale hoje mais que a bolsa brasileira inteira, 1,56 trilhão de dólares, ou o equivalente a quase 8 trilhões de reais. Pouco antes do meio de março, a ação da Amazon bateu em 1.676 dólares e agora é negociada por 3.138. Já a única puro-sangue do varejo online no Brasil, a B2W Digital, representa uma pequena fração (4%) da americana, mas também nunca valeu tanto: 62,6 bilhões de reais. A ação saiu de 43 reais, em 12 de março, para o atual patamar, próximo de 120. “Na verdade, nos preocupa que ela não dá muito lucro”, diz Mobius, descontraído. “Mas o fato de ela estar ligada à Lojas [Americanas] nos dá confiança.”

Sobre as máximas históricas recorrentes nas tech americanas, Mobius diz que é preciso cautela, pois algumas podem estar “caras”. Mas, ao mesmo tempo, reconhece que é difícil ficar de fora. “Quando você olha para o crescimento, para o que está acontecendo com o lucro delas, é histórico.”

À frente do Templeton Emerging Market Group por mais de 30 anos, até 2018, Mobius tornou-se uma referência internacional em mercados emergentes e fala amanhã na Global Managers Conference 2020, realizada pelo BTG Pactual. O evento será transmitido pelo canal do BTG Pactual Digital no YouTube, até sexta-feira, com diversos gestores internacionais. Com mais de 80 anos, ele passou a cuidar exclusivamente de sua própria gestora, a Mobius Capital Partners. Hoje se dedica ao que chama de “portfólio bem pequeno”, com um total de 800 milhões de dólares, depois de anos administrando mais de 50 bilhões de dólares (e quando esse valor impressionava muito mais do que agora).

O papa dos emergentes ampliou os investimentos no Brasil durante a crise, principalmente em abril e maio, quando o mercado estava “repleto de oportunidades.” A própria força da valorização desde então acabou elevando o peso do país na carteira. “Gostamos de comprar quando os preços estão caindo”, diz visivelmente satisfeito — e lembra do conselho básico de seu mentor Sir John Templeton, “o melhor momento de comprar é quando os demais estão vendendo em grandes quantidades.”

O especialista não vê risco de uma bolha de preços por aqui. “É difícil de entender, eu sei, porque você olha os jornais e só vê notícias ruins. Mas o mercado está olhando lá na frente, pois percebeu que a recuperação das empresas será em forma de V.” Ele também apontou as diferenças geográficas do país e a população jovem como pontos fortes no cenário de pandemia, pois a paralisação não precisa ocorrer em toda a nação ao mesmo tempo e boa parte das pessoas está naturalmente mais protegida — uma vez que a covid-19 é mais letal acima de 60 anos.

Mobius destacou como sua preferência as companhias do setor de saúde, tecnologia, consumo (principalmente as que misturem varejo físico e online) e educação. Ele está animado com o que a migração do mundo físico para o digital pode fazer pelas empresas desses segmentos. E entre as escolhidas citou também a Cogna, que está no meio do processo de listagem internacional da controlada Vasta — e subiu cerca de 100% do piso até agora, de 4,15 reais para 9,40 reais. Para Mobius, ainda que algumas sofram com a pandemia no curto prazo, elas se sairão bem da crise, pois muitas menores não conseguirão sobreviver. Quem ficar, portanto, conseguirá uma fatia maior do mercado.

Pessoas físicas

Apresentado ao crescimento da participação da pessoa física na bolsa, por meio de aplicações diretas, Mobius disse o pouco que é muito: “Ohh, big mistake”. E explicou a razão de seu péssimo. As pessoas têm pouco tempo para cuidar de seus investimentos e reagem muito a rumores. “É melhor transferir as decisões sobre como aplicar o dinheiro para um profissional e independente.” Ele disse que isso está acontecendo no mundo todo, não só no Brasil, e se preocupa. “Há muitos jovens no mercado agora e eles gostam muito de jogos. Usam o mercado para apostar, fazer day-trade. E a história mostra, você sabe, que day-traders não fazem muito dinheiro. Pode ser muito desapontador.”

Amazônia

“É verdade, o governo brasileiro tem feito má propaganda do Brasil com suas declarações sobre a Amazônia”, respondeu, quando questionado sobre o assunto. “Mas acho que agora já há bastante pressão para se evitar decisões ruins e, de forma geral, a Amazônia tem gerado uma excelente publicidade ao Brasil, como um grande ativo.” A população, acredita ele, tem dado muito suporte para boas práticas.

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