Mão inversa: estrangeiro compra bolsa e pessoa física decide vender

Em novembro, fundos internacionais já trouxeram mais de R$ 16 bilhões para bolsa e pessoa física se apresenta como vendedora pela primeira vez em 2020

Os pequenos investidores decidiram que é hora de realizar — pelo menos em parte — o lucro que tiveram com a pandemia. Pela primeira vez em um mês de 2020, o investidor direto de bolsa está mais vendedor do que comprador. Em novembro, até o dia 12, já reduziu sua exposição em 5,7 bilhões de reais. E não está sozinho. Os investidores institucionais domésticos também diminuíram em 9 bilhões de reais o total investido em bolsa, no mercado secundário — isso após uma redução de 6,8 bilhões de reais em outubro. No mês passado, embora tenha desacelerado nas aplicações, o investidor direto ainda deixou um dinheiro extra na bolsa: as compras líquidas foram de 1,8 bilhão de reais.


As vendas dos investidores domésticos são o outro lado da moeda da força da entrada de recursos do investidor estrangeiro. 
O saldo positivo de capital externo só engorda. O descasamento de fluxo entre investidores domésticos e estrangeiros atingiu mesmo seu ápice em 2020.

É como se os fundos globais tivessem acordado agora para os preços no Brasil. Embora o Índice Bovespa não tenha recuperado as máximas, o valor de mercado somado das empresas do indicador já superou o fechamento de fevereiro, pré-covid no país. Na sexta-feira, todas juntas, as companhias do Ibovespa valiam 3,7 trilhões de reais, ante 3,5 trilhões pós-Carnaval e 2,5 trilhões de reais ao fim de março.

Em dólar, porém, os preços estão praticamente no mesmo patamar do auge do estresse: 676 bilhões de dólares. É o mesmo valor do fim de março, comparado aos 933 bilhões de dólares do encerramento de fevereiro.


No auge do estresse e das dúvidas, os fundos internacionais venderam as ações das companhias brasileiras e da América Latina em grandes quantidades. Foi nessa mesma proporção que o pequeno investidor decidiu ir às compras, enquanto ainda manteve os aportes em fundos de ações.
Agora, os sinais se inverteram. Os fundos internacionais colocaram de volta mais de 16 bilhões de reais, só no mercado secundário, em apenas dez pregões em novembro. Sem contar as ofertas de ações. No IPO da fabricante de pás eólicas Aeris, por exemplo, o livro de ordens foi dominado pelo capital externo, como nos velhos tempos — bem diferente da proporção média de 30% verificada ao longo do ano até aqui.


Por enquanto, os especialistas ainda estão tentando entender o descompasso. Pedro Rudge, sócio da gestora Leblon Equities, acredita que os estrangeiros estão motivados pelos balanços das companhias do terceiro trimestre. “A bolsa brasileira ainda concentra as maiores empresas do país nos setores representados. 
Além de terem mostrado forte recuperação e balanços sólidos, essas companhias podem, algumas, até se beneficiar da crise, indiretamente, pelo enfraquecimento da concorrência em função da pandemia.”

Um experiente estrategista do mercado diz que o investidor estrangeiro voltou a assumir mais risco de vez com a vitória de Joe Biden na eleição por uma margem que torna improvável a reversão do resultado na Justiça e com as perspectivas de aprovação de uma vacina para o novo coronavírus. Isso ajudaria a explicar o ingresso maior de capital externo no país e o rali recente do Ibovespa, que subiu 13,4% no mês.

Rudge acha difícil tentar explicar neste momento, pois os movimentos são recentes. Não há como saber se são um soluço (ainda que intenso) ou uma virada de comportamento. Sobre o doméstico, enfatiza que, pelo lado dos investidores institucionais, há uma preocupação crescente com a situação macroeconômica do Brasil, com as contas públicas e o teto dos gastos do governo.

E depois de assistir três vezes o Índice Bovespa tentar engatar para acima de 100 mil pontos, o investidor doméstico que comprou bolsa quando o indicador bateu o piso em março, em 63 mil pontos, achou melhor garantir pelo menos uma parte.

Também houve o peso, no entendimento de Rudge, tanto entre os investidores profissionais quanto no varejo do processo de diversificação, com migração de parte das aplicações para fundos estrangeiros e em companhias americanas, agora acessíveis no Brasil. Essa migração está relacionada, justamente, às preocupações com o futuro econômico do país.

Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de renda variável e derivativos do BTG Pactual Digital, acredita que, do lado do fluxo doméstico, o mercado passa por uma acomodação. Para ele, esse período pode durar até o começo de 2021, quando deverá haver mais clareza sobre orçamento público no Brasil, transição política nos Estados Unidos e vacina para a covid.

Desde a semana passada, um otimismo generalizado tomou conta dos mercados pelos avanços na terceira e última fase de testes das vacinas da Pfizer e da Moderna. Mas os sinais da doença na Europa e nos Estados Unidos não são bons. Nos grupos de investidores pessoas físicas, a volatilidade gerada pelas eleições americanas imperou durante outubro. A avaliação é que só mesmo fatores externos, como um otimismo com o combate à covid-19, poderiam melhorar de forma generalizada o humor dos aplicadores brasileiros. Isso porque em Brasília a agenda de medidas está paralisada.

A captação líquida dos fundos de ações só ficou positiva em 20,7 milhões de reais em outubro por causa de uma entrada no fim da última semana. Foi o menor saldo de 26 meses positivos consecutivos. Agora em novembro, o volume está ligeiramente melhor, mas nada bilionário. Até o momento, ingressaram nas carteiras dedicadas à bolsa pouco menos de 240 milhões de reais.

Apesar da saída do pequeno investidor, as ofertas de ações não parecem ameaçadas. Pelo menos, não as operações mais aguardadas. Ao contrário: a pessoa física é um investidor que, por maior comprador do mercado secundário que seja, tem limitação para IPOs e não forma preço. Com o estrangeiro, a realidade é bem outra: os fundos internacionais podem definir o sucesso ou o fracasso de uma oferta.
O fim de 2020 está mesmo curioso. Com essa inversão de sinais, a tarefa das previsões para o ano seguinte, que já é desafiadora, está quase uma missão impossível.

Espera! Tem um presente especial para você.

Uma oferta exclusiva válida apenas nesta Black Friday.

Libere o acesso completo agora mesmo com desconto:

exame digital

R$ 15,90/mês

R$ 6,36/mês

  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 44,90/mês

R$ 40,41/mês

  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa quinzenal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.