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Investidor flerta com renda fixa que tem 'aval' do BC e volta ao páreo

BC sanciona projeções de Selic de até 8% e juro real forte volta ao radar de gestores e investidores

Ganhar dinheiro com investimentos exige competência, método e interpretação certeira de indicadores. Esses predicados sugerem que ganhar dinheiro não é fácil sobretudo após o longo período de pandemia que truncou o ritmo de crescimento das economias, patrocinou intervenções monetárias e fiscais contundentes e coloca um ponto de interrogação quanto à retomada. Sinais mais claros sobre a inflação nos Estados Unidos e no Brasil fortalecem algumas apostas e ampliam alternativas para os investidores. Recordes recorrentes nos mercados acionários globais, mantêm os atrativos da Bolsa que, mesmo em queda no Brasil, acolhe empresas novatas, enquanto a conservadora renda fixa emerge das cinzas da Selic a 2% e recupera seu fôlego – com aval do Banco Central (BC).

Os fundos de renda fixa dominam o mercado como sempre. A caderneta de poupança ganhou projeção neste ano e meio de pandemia. Porém, as aplicações no ativo mais conservador e popular do país foram incentivadas pelo pagamento do auxílio emergencial, alertam especialistas. A caderneta não avançou por assegurar mais rendimento. Ela foi e é um veículo para que as pessoas chegassem ao benefício do governo. Já a renda fixa, concentrada nos fundos de investimento, é movida pela atratividade dos juros que entraram numa espiral de alta em março, com o ajuste da Selic que saiu de 2%, hoje está em 5,25% e mira 8%.

Segundo a ANBIMA – Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais – os fundos de investimento de todas as classes de ativos abrigavam, em julho, R$ 6,7 trilhões de patrimônio líquido, sendo que R$ 2,4 trilhões estavam na renda fixa. Apenas em julho, a entrada líquida de recursos na indústria de fundos inteira totalizou R$ 43,4 bilhões – R$ 28,3 bilhões destinados à renda fixa.

Esses dados confirmam o poder da taxa de juro no Brasil e valorizam, portanto, a sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom) que, em sua última reunião, apontou Selic a 7% - indicação que sancionou projeções que chegam a 8% e autorizam a expectativa de uma virada do juro real praticado no Brasil. Atualmente, mesmo em alta, o juro real é negativo se comparado à inflação em 12 meses, colada em 9%. Porém voltará a ser mais que interessante com a provável queda da inflação em 2022.

A pesquisa Focus aponta IPCA de 3,84% para o ano que vem. Essa estimativa tem um prêmio de risco. É precipitado, portanto, descartar o recuo da inflação ao centro da meta, de 3,50% sobretudo após a determinada ação – prática e retórica – do Copom. Este ano está perdido, não é novidade para ninguém. O próximo, não. Em 2022, o juro real poderá rondar 4%. Maravilha para o investidor, preocupante para o governo que enfrentará gastos mais elevados com o pagamento de títulos da dívida pública. Maior pressão sobre essa fatura será um teste para a determinação do BC de Roberto Campos Neto que tornou mais explícita a disposição de combater a inflação e sua inércia.

Real por dólar

Aposta temerária, porém, é quanto ao efeito do juro real mais elevado sobre o dólar. Historicamente, juro maior atrai mais capital estrangeiro para o país e valoriza o real. Logo, o dólar cede. Mas não é isso o que se vê no Brasil há muito tempo. “A pressão sobre o dólar persiste especialmente por dois fatores: a troca de ativos em reais para dólar para proteção de portfólios ou patrimônio e aumento na percepção do risco fiscal. O juro muito baixo durante meses colaborou para maior depreciação do real certamente, mas o Banco Central já reverteu esse cenário. Quanto aos riscos, eles permanecem”, afirma reservadamente ao EXAME IN, o gestor de uma instituição brasileira.

Com foco nos investimentos, Tony Volpon, ex-diretor de Assuntos Internacionais e Riscos Corporativos do BC e atual estrategista-chefe da Wealth High Governance (WHG), diz que enquanto o BC estiver disposto a neutralizar o efeito inercial da inflação corrente para a inflação do próximo ano, o que foi claramente sinalizado na última reunião do Copom, a desinflação que deve ocorrer a partir de setembro deve gerar ganhos na posição pré-fixada que atualmente a WHG recomenda.

Na última edição da Investment Letter do WHG, o economista chama atenção particularmente para uma nova dinâmica de risco que, avalia, está se tornando cada vez mais divergente sobretudo quanto à inflação e a política monetária. Volpon entende que, enquanto no Brasil a inflação tem se fortalecido recentemente devido a choques climáticos, o mercado internacional está cada vez mais confortável com a perspectiva de que a alta da inflação nos países desenvolvidos será transitória – leitura defendida exaustivamente pelo Federal Reserve, o banco central americano. Esse conforto já produziu impacto nos mercados e quase toda a alta que ocorreu nas taxas de juros em prazos mais longos nos Estados Unidos no início do ano já se reverteu.

“Enquanto isso, um contingente crescente de países emergentes, inclusive o Brasil, tem visto suas taxas de inflação surpreenderem para cima, forçando seus bancos centrais a implementar altas de juros além do esperado”, comenta Volpon também atento às questões fiscais, mas com uma visão nada alarmista. “Acreditamos que as movimentações ao redor da formulação do Bolsa Família não devem danificar de forma material a ancora fiscal representada pelo teto de gastos. Confirmada essa expectativa, o atual elevado nível de prêmio de risco deve diminuir. Isso, combinado com o que esperamos ser o pico das pressões inflacionarias nos próximos meses e com a sinalização de máxima vigilância com a inflação pelo BC, deve levar a um período de estabilidade nos juros de mercado, seguido pela sua queda”, afirma.

Acelerador fiscal x freio monetário

Luis Stuhlberger, gestor da Verde Asset, alerta na edição mais recente de sua carta aos investidores que o Brasil flerta perigosamente com o passado na questão fiscal. Ele diz que à medida que caminhamos para uma reabertura econômica mais ampla, o país parece flertar perigosamente com o passado. “As seguidas discussões recentes sobre tirar gastos do teto, com vistas a operações de cunho eleitoral, sinalizam uma preocupante vontade de reviver de modo permanente o ‘acelerador fiscal’ no modelo macro brasileiro. Este, por sua vez, vai naturalmente demandar a volta, também permanente, de um ‘freio monetário’, o que tende a dificultar a performance dos ativos de risco brasileiro e reverter, ou prejudicar, o processo de aprofundamento e sofisticação do mercado de investimentos no Brasil”, afirma.

O prestigiado gestor informa que o fundo Verde não está posicionado para esse cenário de volta ao passado. “Não temos convicção de que isso vi acontecer, embora nossas dúvidas sejam crescentes. Mas essa transição, ou incerteza entre os dois modelos, tem tornado o processo de gestão muito mais complexo”.

Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, avalia na carta mensal da instituição, que o diagnóstico de risco fiscal é um problema que será extinto apenas com reformas estruturais que verdadeiramente desobriguem, desvinculem e desindexem as despesas, e que ampliem a produtividade da economia, aumentando o potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) a longo prazo.

Segundo a economista, desde a apresentação da segunda fase da Reforma Tributária, que trata do Imposto de Renda, o mercado voltou a sentir a volatilidade das tratativas políticas, combinada a maior preocupação com a possibilidade de ocorrer uma desoneração fiscal excessiva. “Se a reforma tributária é negativa ou positiva para os mercados ou para a economia, ainda é cedo para dizer no curto prazo. O projeto ainda está sujeito a novos debates pelo Congresso e mais mudanças devem ser feitas nas próximas semanas.”

Quanto aos investimentos, Camila Abdelmalack concorda com Tony Volpon que a taxa Selic continuará a subir e, portanto, os ativos de renda fixa passam a ter clara importância. Porém, recorda a economista da Veedha, o aprendizado que o cenário de juros extremamente baixos trouxe [no passado recente] também deixa clara a importância da diversificação que deve acompanhar os investidores e as alocações em renda variável.

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