Dynamo revê portfólio de R$ 21 bi para avaliar transformação digital

Gestora mais tradicional do Brasil mergulha no mundo da computação em nuvem em busca de fraquezas e oportunidades em suas investidas

A gestora de recursos Dynamo está revirando as entranhas das companhias investidas para examinar o estado atual delas no processo de transformação digital. O objetivo é entender melhor os riscos que essas empresas podem estar enfrentando ou os benefícios que podem obter com seus avanços. Ou seja, recado dado: o assunto se tornou fator de decisão de investimento e de preço. A digitalização da economia — para muito além do puro e simples e-commerce multiplataforma — fruto do desenvolvimento da computação em nuvem é o tema da carta aos cotistas de número 106.

“Acreditamos que haverá uma divisão competitiva fundamental entre as companhias que aceitam a necessidade de mudança e as que não aceitam”, escreve a Dynamo, que consegue ser, ao mesmo tempo, a casa mais tradicional e também uma das mais badalada quando o assunto é investimento fundamentalista de longo prazo. Sob os cuidados da gestora está uma das carteiras mais longevas do mercado brasileiro, o Dynamo Cougar — que historicamente seleciona entre 20 e 25 companhias para investir. O patrimônio médio do fundo nos últimos 12 meses é de 5 bilhões de reais. Mas, no total, são 21 bilhões de reais sob gestão, pois ao longo do tempo a casa abriu fundos exclusivos tanto para investidores institucionais domésticos, como para estrangeiros que replicam a carteira do Cougar.

Até o fim outubro, o fundo mostrava valorização de 5,7% neste ano. Mas, a título de perspectiva, até o fim do ano passado, o Cougar original acumulava valorização em dólar de 31.570,4% desde o lançamento, em 1º de setembro de 1993.

“O que está em jogo em uma transformação digital não é mais a capacidade de uma companhia de competir de forma incremental com seus pares, mas sim, a viabilidade de longo prazo do negócio”, segundo a avaliação da casa. “Para continuarmos a fazer investimentos concentrados com um horizonte de tempo plurianual, é crucial monitorar de perto os esforços de transformação digital das empresas do nosso portfólio, bem como, acompanhar os mais recentes desenvolvimentos dos principais fornecedores de tecnologia.”

A transformação a qual a Dynamo se refere não é aquela que impacta apenas a relação das empresas com os clientes — e que já foi alvo de estudo. É mais profunda. É aquela que diz respeito à operação, ao próprio funcionamento das companhias. Tudo porque os negócios que nasceram nos últimos dez anos já são todos estruturados sobre sistemas de tecnologia de informação modernos, leves e ágeis, na nuvem. Toda essa revolução terminou por erodir as barreiras de entrada dos mais variados negócios.

“Incumbentes nas empresas de bens de consumo, de pagamentos, indústrias, bancos, operadoras de saúde e muitos outros agora estão competindo com entidades que foram construídas em um ambiente que permite flexibilidade, modularidade e agilidade antes inconcebíveis. Essa mudança radical foi desencadeada pelo surgimento da computação em nuvem e está forçando as empresas a repensar completamente sua infraestrutura legada”, explica a carta de outubro.

Quadro geral

Cabe aqui uma interrupção para falar do tamanho desse mercado de serviços na nuvem, para se ter ideia do tamanho da revolução em andamento. O Gartner Group estima que esse mercado, que movimentou 242,7 bilhões de dólares no ano passado, alcance 364 bilhões de dólares ao fim de 2022 – um aumento de 50% em três anos. Dentro desse total, a maior parte está concentrada nos serviços de Software as a Service (SaaS), que vai passar de 100 bilhões de dólares para 140 bilhões de dólares nesse mesmo intervalo.

O uso de nuvem híbrida tem crescido entre as empresas brasileiras. Um estudo da consultoria IDC encomendado pela IBM mostra que 33% das grandes empresas no país já adotam o serviço que permite armazenar dados e rodar aplicações utilizando tanto data centers próprios quanto a infraestrutura de fornecedores de serviços de nuvem.

A consultoria ouviu executivos de 143 empresas de grande porte no país, com mais de 500 funcionários cada. Entre as empresas entrevistadas, 59% dizem utilizar algum tipo de nuvem — 33% optam por serviços de nuvem pública, 31% utilizam uma nuvem privada instalada na própria empresa (on-premises) e 27%, uma nuvem privada instalada em um provedor terceiro.

A pesquisa mostra ainda um grande interesse das companhias em aumentar os investimentos nessa direção. Das empresas entrevistadas 17% planejam utilizar serviços de nuvem híbrida nos próximos 12 meses. E 45% das empresas que já usam uma nuvem pública pretendem usar o serviço para executar até metade ou mais das suas cargas de trabalho em até dois anos.

Mão na massa

A Dynamo fez sua própria pesquisa sobre orçamento de tecnologia de informação (TI) dentro das companhias. Encontrou um quadro que mostra investimento e aumento do interesse pelas soluções de nuvem — 83% dos entrevistados afirmaram que aumentarão o número de aplicativos que usarão na nuvem nos próximos três anos. Mas, viu também um quadro que as pesquisas de TI não apontam e nem têm interesse em apontar. Eles perceberam que o principal obstáculo para que as companhias acelerem suas migrações está na própria equipe de TI, que sabe que boa parte de seus cargos será eliminada, e também nas lideranças e nos tomadores de decisão.

“A dificuldade dessa decisão, o custo associado à transformação, e a extensa duração de uma transformação completa (5 a 7 anos) significa que a maioria dos executivos tentará evitar assumir essa tarefa”, concluiu a Dynamo após entrevistas com mais de cem executivos-líderes de tecnologia e inteligência das companhias, além de consultores de implantação de nuvem e ex-funcionários de provedores de nuvem.

O resultado desse adiamento são “transformações parciais e pequenos projetos que podem ser apresentados como ganhos rápidos para o conselho e acionistas”, aponta a gestora.

E no maior estilo ‘sincerona’, a Dynamo opina sobre isso: “Por vezes, testemunhamos que as transformações parciais não passam de murros em ponta de faca. Frequentemente, é necessário que haja uma crise para que as equipes de gerenciamento percebam que precisam se reconstituir por completo.” A Dynamo acredita que, para algumas organizações, a covid-19 pode ser o evento desencadeador desse processo.

A carta apresenta diversos dados sobre o tema, como o levantamento anual do Google Cloud, em parceria com a DevOps Research & Assessment (DORA). O relatório incorpora seis anos de pesquisa e dados de 31.000 profissionais que trabalharam neste ambiente. Além disso, o documento traz um detalhado estudo de caso das transformações realizadas pela Nike e pela Equifax.

Após estudos e análises tão profundos, a Dynamo afirma se sentir mais capacitada para definir melhor se o estado de transformação de uma companhia tradicional representa um risco ou uma oportunidade que talvez ainda não seja compreendida pelo mercado. Além disso, entende que a “compreensão básica” dessas iniciativas permitiu concentrar esforços em encontrar oportunidades de investimento no novo mercado de software empresarial.

É, companhias, não bastasse a pandemia, o escrutínio sobre vocês a partir de 2020 será outro. Bem maior. Os investidores entenderam muito claramente como empresas podem estar mais preparadas para eventos inusitados. Além de toda escalada das preocupações com fatores ESG, há também uma compreensão maior sobre o impacto de processos digitais e de tecnologias modernas aplicadas aos negócios. Falando assim, 2021 promete ser o ano em que o mercado vai separar o joio do trigo e cobrar atitudes.

Os investidores poderão ir muito além de simplesmente valorizar as digitais mais óbvias, como o que ocorreu com a Magalu, que viu seu valor de mercado mais do que dobrar ao longo da pandemia até alcançar os atuais 155 bilhões de reais. Mas, vale citar, só para ilustrar, o que o primeiro efeito da compreensão dos investidores sobre a vida digital (e aqui é o mais superficial dos entendimentos) fez com  o famoso bloco das FAAMG — Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google — em 2020. Juntas essas companhias se valorizaram em mais de 2 trilhões de dólares, esse é o valor adicionado. Somadas, valem hoje um pouco mais de 7 trilhões de dólares, algo como 37 trilhões de reais ou 9,3 vezes a soma do valor de todas as empreas abertas brasileiras da B3.

 

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