Com Laureate, Ânima tem aumento de três dígitos no lucro do 3º trimestre

Aquisição expandiu margens com novidades como ensino à distância, medicina e fortalecimento de pós-graduação
Ânima Educação: compra da Laureate foi aprovada em maio pelo Cade e terceiro trimestre foi o primeiro das empresas combinadas (Pattanaphong Khuankaew/EyeEm/Getty Images)
Ânima Educação: compra da Laureate foi aprovada em maio pelo Cade e terceiro trimestre foi o primeiro das empresas combinadas (Pattanaphong Khuankaew/EyeEm/Getty Images)
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Karina SouzaPublicado em 16/11/2021 às 06:43.

A Ânima Educação registrou lucro líquido de R$ 58,6 milhões no terceiro trimestre deste ano, um aumento de 195,8% em relação ao mesmo período do ano passado. A receita líquida chegou a R$ 816,7 milhões, após um incremento de 132,7% em relação a um ano antes. Os resultados refletem, pela primeira vez de forma integral, a combinação entre as unidades-base da companhia e as 11 universidades do grupo Laureate, aquisição finalizada em junho deste ano. Sem a transação, o crescimento de receita da companhia seria de 3,4% na comparação anual.

O negócio foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em maio e só então as empresas foram realmente combinadas. Uma lupa nas margens consolidadas da companhia resultante mostra que o negócio trouxe valor, o que transpareceu em todas as linhas do balanço.

A companhia expandiu receita e rentabilidade, uma combinação nem sempre possível. A margem bruta, por exemplo, saiu de 60% para quase 66%. Se por um lado, a pandemia tornou um desafio o controle da evasão, por outra, com boas negociações, trouxe reduções de custo de aluguel. A despeito de uma notável pressão inflacionária, a Ânima  vai tentar manter os custos sob controle.

O Ebitda teve um acréscimo de quase 270% na comparação anual, para R$ 292,5 milhões, no intervalo de julho a setembro. O avanço das margens ajuda a entender porque, na última linha do balanço, o crescimento foi superior à alta na receita. Em entrevista ao EXAME IN, o diretor financeiro, André Tavares, explica como o modelo de ensino criado pela Ânima (E2A) e as novas verticais, como medicina e ensino à distância, foram fundamentais na conquista de margem.

Como resultado dessa consolidação, a base de alunos da Ânima registrou aumento de 168,5% em relação a um ano antes: fechou setembro com 310.562 estudantes dentro da modalidade de ensino acadêmico — a principal vertical de negócios em receita dentro da companhia. O tíquete médio também subiu 2,4% em relação ao terceiro trimestre do ano passado e a evasão dos cursos de graduação registrou queda de 0,4 ponto percentual nessa mesma comparação, considerando as unidades-base e as incorporadas pela Laureate. A evasão do período ficou em 9,6%.

Para manter esses níveis, a companhia utiliza tecnologia. “A gente tem um algoritmo em que, com dados dos alunos, conseguimos verificar qual é a probabilidade de evadirem. Qualquer que seja o motivo. Com isso, o coordenador de cada curso, que tem, por exemplo, mil alunos para cuidar, recebe periodicamente a lista daqueles que têm maior chance de desistir do curso”, conta Tavares. 

A partir daí, a companhia toma uma série de iniciativas: se é um problema financeiro, o aluno pode ser apresentado ao PraValer, instituição de financiamento de ensino privado e parceira da Ânima. Se o problema é acadêmico, pode ser realizado um nivelamento conceitual. E, se o aluno não tem certeza daquele curso, é encaminhado ao departamento de “vida e carreira”, em que é possível ajudar a orientá-lo sobre o curso. Agora, o foco é integrar completamente esse modelo matemático às unidades que vieram da Laureate, como forma de tornar as operações ainda mais rentáveis e manter os níveis baixos.

O executivo explica que o ganho nas margens está principalmente relacionado às aquisições. Com as novas unidades e os novos cursos integrados, a companhia teve a oportunidade de estender a metodologia E2A (Ecossistema Ânima de Aprendizagem) a todas, aproveitando os mesmos custos administrativos, o que explica uma parte do desempenho financeiro. O conceito do E2A, no qual o aluno pode personalizar sua trilha acadêmica, foi desenvolvido antes da Laureate, mas ganhou escala com o negócio. 

Trata-se de uma forma de ensinar que prioriza competências, em vez de disciplinas — sugerindo melhor aproveitamento do corpo docente para os cursos. A companhia também conta com um projeto chamado UC Dual, que consiste em parcerias da Ânima com grandes empresas — sem custo algum para as partes — trazendo lideranças de companhias como Amazon, XP, Bradesco e Siemens para dar aulas aos alunos e, possivelmente, recrutar alguns deles para programas de estágio dentro dessas empresas.

Além disso, a Ânima também conquistou margens ao incorporar o serviço de Educação à Distância da companhia adquirida, com uma operação já totalmente estruturada, o que evitou consumo intensivo de caixa. Até então, não tinha essa frente desenvolvida. No fim do trimestre, somava 83.660 alunos matriculados em cursos de graduação e pós-graduação à distância, aumento de 67,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. 

A receita da vertical ainda é tímida: R$ 48,9 milhões, cerca de 4,9% da receita líquida total do trimestre. Ao mesmo tempo, isso foi conquistado em uma divisão incorporada em junho deste ano. No último Censo da Educação Superior publicado pelo INEP/MEC no ano passado, o EAD já representava 35% de todas as matrículas da educação superior. Ou seja, há potencial pela frente e a Ânima aposta nisso, mas sem que represente a perda de sua identididade pedagógica. Em um cenário econômico de redução do poder de compra da população, a modalidade à distância tem um apelo mercadológico importante, com um tíquete médio substancialmente menor do que os cursos presenciais de graduação. 

Impossível também não destacar o avanço em um dos nichos cada vez mais cobiçados pelo tíquete elevado, o de medicina. A aquisição da Laureate, e também da Usinul, colocaram a Ânima em posição vantajosa. Na empresa, essa vertical ganhou o nome de Inspiralli e terminou setembro com aproximadamente 10 mil alunos, mais do que o dobro registrado no primeiro trimestre de 2021.  No acumulado do ano, a vertical já é responsável por 25% da receita e tem uma margem operacional de 67,5% antes das despesas corporativas, quase 1 ponto percentual acima de 2020, e com um tíquete médio 9,9% maior do que no ano anterior, em torno de R$ 7,4 mil, na comparação com os mesmos nove meses de 2020. 

“Temos também cursos que estão em amadurecimento, relacionados ao programa Mais Médicos do governo. Temos atualmente de quatro a cinco projetos autorizados e mais três que têm perspectivas de expansão de vagas no futuro”, diz Eduardo Garcia, relações com investidores da Ânima Educação.

Por fim, com o módulo de EAD e os alunos da Laureate, a receita líquida da vertical de Lifelong Learning aumentou 78,8% em relação ao terceiro trimestre do ano passado e ficou em R$ 40,7 milhões. O segmento é considerado uma oportunidade de evolução dentro do ecossistema de aprendizagem. Dentro dessa proposta, a Ânima firmou recentemente uma parceria com a Vivo, em que é possível fazer pequenos cursos que podem ser incorporados dentro de módulos maiores, na palma da mão.

“A gente acredita que cada vez mais as pessoas entram aqui na graduação, mas não saem mais, continuam estudando e comprando novos cursos e experiências. É algo que investimos cada vez mais e que passa por todas as nossas verticais como principal avenida de crescimento para o futuro”, diz Tavares.

O movimento de consolidação exigiu capital da Ânima. Por isso, ganhos de sinergia e margens maiores serão essenciais para que a empresa reduza sua alavancagem. Para financiar a aquisição da Laureate, totalmente paga em dinheiro, a companhia emitiu duas séries de debêntures não conversíveis em ações e captou R$ 2,5 bilhões. Ao todo, a dívida líquida ficou em R$ 3,1 bilhões — ante R$ 108,7 milhões um ano antes. A relação entre a dívida líquida e o Ebitda, como era de se esperar, aumentou e terminou setembro em 4,1 vezes, considerando os últimos doze meses das companhias combinadas. 

 

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