BRF: Molina faz visita e une gregos e troianos no conselho

Após investir mais de US$ 1 bilhão, empresário "tomou cafézinho" com gestores e conseguiu pacificar e unir sócios relevantes da companhia

Passado o susto, foi hora de um “olho no olho”. Marcos Molina, controlador e presidente da Marfrig, esteve em uma reunião do conselho de administração da BRF na segunda-feira desta semana, dia 14. O encontro ocorreu à noite e o empresário foi lá fazer uma visita de cortesia, algo parecido a “tomar um cafézinho”, conforme disse uma das fontes ouvidas pelo EXAME IN.

A Marfrig tornou-se a maior acionista da BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, em tacadas rápidas na bolsa. Tem agora pouco mais de 32%, bem perto do limite que o estatuto social da companhia permite antes que seja disparada uma oferta pública para todo o mercado. O gatilho para isso está em uma fatia de 33%.

A visita surtiu muitos resultados. Molina, com seu jeito simples, mas direto, encantou os ouvintes. Foi lá e reforçou o que havia dito no papel, até então, apenas em frios comunicados. Não tem pretensão de mexer no atual conselho de administração, tampouco de propor agora qualquer combinação de negócios. Quer olhar, conhecer, entender e daí, então, pensar o próximo passo. A expectativa toda do mercado está adiada até a assembleia de acionistas de 2022.

A companhia de carnes investiu mais de US$ 1 bilhão no movimento, ou quase metade do caixa que tinha ao fim de março — R$ 11 bilhões. O percentual foi alcançado por meio da compra de ações na B3, ADRs na Nyse, e mais opções e contratos derivativos.

Já ficou evidente que a BRF, para quem acompanha a trajetória da união de Sadia e Perdigão, é uma companhia repleta de complexidades que vão muito além de lidar com marcas famosas em alimentos. A esta altura, discutir como são feitas as salsichas é a parte mais simples. Desde que as empresas se uniram — e lá se vão 12 anos nessa conta — ninguém, nenhum gestor ou acionista, consolidou uma nova cultura e a rivalidade que existia entre as marcas foi importada para os cargos de gestão operacional e para o pátio fabril.

Faroeste

Molina agiu rápido. Não só na B3. Estrategicamente falando. A BRF escapou de investidas sobre a gestão em 2021, nessa assembleia geral de abril. Mas tudo indicava que não chegaria ilesa a 2022. No mercado, mais de um movimento se articulava para tentar assumir o negócio, incluindo a rival da Marfrig, JBS, da família Batista e dona da Seara, que chegou a considerar um fatiamento das marcas. Talvez os oponentes nem soubessem uns dos outros, mas parecia um faroeste, no qual o vencedor do duelo é aquele que atiraria primeiro.

Agora, se posicionar na empresa ficou bem mais caro. Os movimentos que o EXAME IN tinha conhecimento se desarticularam após a investida de Molina, incluindo a própria JBS, que não tinha e nem tem planos de iniciar uma batalha. O projeto de separação das marcas Sadia e Perdigão — uma vez que é sabido que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) jamais deixaria unir a Seara nesse pacote — é anterior à investida de Molina.

Antes de Molina entrar no capital da empresa, a BRF estava avaliada em torno de R$ 20 bilhões — valor em torno do qual patinava há anos. Agora, a empresa já vale, apenas com rumores e especulações, sem nenhuma alteração em absolutamente nada, R$ 23,5 bilhões, ou seja, cerca de 20% de valorização em um espaço curtíssimo de tempo.

Para alguém tentar lançar uma oferta pública pela empresa, conforme as regras do estatuto social, teria de pagar — brincando e para começo de conversa — R$ 40 por ação ou mais. Molina pagou em torno de R$ 23 por ação. A diferença de preço é de quase 75%.

 Um olho de dono

Antes de receber Molina, o conselho de administração da BRF ouviu um grande nome do setor financeiro. Desses que ninguém questiona a sapiência, seja pela vivência, seja pelo conhecimento propriamente dito. O grupo que toca a empresa, liderado pelo experiente Pedro Parente, estava ali para saber — em tempos de altíssimas cobranças de investidores — se teria de fazer algo, resistir, criar competição ou o que.

Ouviram surpresos, do consultado, que a chegada da Marfrig pode ser um dos melhores acontecimentos possíveis para a empresa. Finalmente, teria chegado alguém com desejo de manter o negócio, um investidor de longo prazo que — ainda que não majoritário no momento — tem olhar, comportamento e planos de dono. "Não façam nada. As compras foram na bolsa. Nada a fazer", teria sido a orientação.

O diagnóstico é que falta à BRF alguém que se sinta dono da empresa. Pois a visita de Molina parece ter unido gregos, troianos e até romanos. “Ave, Chester!” (Pausa para a piada que apenas os nascidos e crescidos antes de 1982, ano do lançamento do chester, podem lembrar — uma referência a uma das mais icônicas campanhas de marketing).

Foi após a visita do empresário que as famílias herdeiras da Sadia, Fontana e Furlan, se uniram em uma carta de apoio à Marfrig, encaminhada ao conselho da BRF. Tudo indica que até Abilio Diniz, o empresário que sonhou “desentortar” a empresa, mas também não conseguiu, entende que essa é a melhor notícia. Assim publicou o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Como investidor, desde sempre, Abilio, por meio da sua holding Península e seus fundos de investimento, tem menos de 5% do capital. Continuou no negócio mesmo após a dobradinha com a gestora de recursos Tarpon, que assumiu as rédeas da empresa a partir de 2013, ter fracassado.

No início da gestão dessa época, a BRF chegou a valer algo como R$ 63 bilhões. O ano era 2015. Depois disso, essas cifras nunca mais foram alcançadas.

A Perdigão, antes da Sadia, era uma companhia “sem dono”, em que os maiores investidores não eram estratégicos do setor de carnes, mas fundos de pensão — com destaque para Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa) — que ajudaram a resgatar o negócio lá na longínqua dificuldade da família Brandalise, bem antes dos anos 2.000.

A combinação das duas companhias resultou na migração para um modelo de “corporation”. Em 2009, além de incorporar a Sadia — diluindo os sócios da Perdigão —, a BRF ainda fez uma grande oferta de ações que movimentou perto de R$ 5 bilhões. O dinheiro era necessário para desalavancar a operação, uma vez que as rivais apenas deram as mãos após a Sadia quase quebrar com derivativos cambiais em 2008 (o fatídico ano da derrocada do Lehman Brothers). A ideia era o clássico das empresas de capital difuso: todos seriam donos de fatias menores de algo bem maior. Só que o bolo não cresceu.

A Marfrig, com seus 32% do capital, é agora, de longe, a maior acionista que a BRF já teve desde a união das duas maiores marcas de carnes de ave, porco e alimentos processados no país.

 

 

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