Brasileiros ‘mergulham’ no mercado após manter dinheiro parado

É precipitado avaliar a eleição de 2022; política econômica a ser implementada é desconhecida seja quem for o vencedor
Pessoas que não sabiam investir, deixaram dinheiro parado e hoje ‘mergulham’ no mercado (Market Square/Reprodução)
Pessoas que não sabiam investir, deixaram dinheiro parado e hoje ‘mergulham’ no mercado (Market Square/Reprodução)
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Angela Bittencourt

Publicado em 29/06/2021 às 11:05.

Última atualização em 29/06/2021 às 12:48.

A história é antiga. Praticado na Grécia, o salto ornamental chegou à Olimpíada há mais de um século e popularizou o trampolim que tornou a queda menos arriscada aos saltadores. Mas treino faz diferença. A profundidade do mergulho também, o que se aplica ao contexto dos investimentos no Brasil. Sobra dinheiro. As aplicações estacionadas em retorno baixo estão na casa de trilhões de reais e autorizam a convivência de gestoras de ativos em inédita cooperação operacional e empresarial.

“Hoje o ‘pool’ de dinheiro disponível no mercado brasileiro proporciona a convivência de inúmeras gestoras em regime inédito de cooperação operacional e empresarial. Há risco de mudar e a concorrência ser para valer? Há. Mas esse risco parece distante”, avalia Marcelo Cabral, sócio e CEO da NEO Investimentos.

Em entrevista ao EXAME IN, Cabral aponta que alternativas de aplicação financeira de curto prazo e de elevada rentabilidade em termos reais impunham uma concorrência quase imbatível para outras opções de investimento. “E não é necessário muito esforço. Até pouco tempo atrás, a meta atuarial das fundações era mais que alcançada com a variação do CDI. Mas o que levou a isso foi a má gestão das contas públicas por décadas.”

Com base em dados da ANBIMA e Banco Central, a NEO dimensiona que o “dinheiro estacionado em retorno baixo” reúne o saldo da caderneta de poupança de R$ 1 trilhão. Soma-se a esse montante pouco mais de R$ 390 bilhões de saldo em operações com CDB e CDI por pessoas físicas e possivelmente mais R$ 2,3 trilhões em fundos de renda fixa.

A NEO avalia que não é tarefa fácil estabelecer o contrafactual para sinalizar a migração de recursos. No ano passado a captação de poupança foi muito forte e talvez fosse ainda maior se os juros estivessem mais elevados. Os dados da ANBIMA revelam que a captação de multimercado foi de R$ 140 bilhões, pouco inferior à captação de R$ 180 bilhões de fundos de renda fixa. Contudo, nos últimos três anos, a entrada de recursos na renda fixa foi negativa e em ações e multimercados, altamente positiva.

O mercado experimenta um movimento intenso de brasileiros que não sabiam investir e deixaram o dinheiro estacionado em alternativas de renda fixa de curto prazo, sobretudo, porque o juro era alto. “Mas todos estavam correndo risco de crédito sem saber, o risco de crédito do governo. Isso mudou. É sorte ter juro que paga a inflação, mas se incluir a tributação, o investidor está andando para trás. Por isso a indústria de alocação cresce cada vez mais para receber essas pessoas”, afirma Cabral.

O executivo chama atenção também para a expansão geográfica dos investimentos. “Quando a NEO foi criada, em 2003, o eixo era Rio-São Paulo. Hoje temos oferta relevante de dinheiro distribuído em outros estados brasileiros. E prevalece a lógica de cooperação entre gestores porque a oferta de dinheiro segue em expansão. Além disso, a barreira de entrada no mercado é baixa. Nem todos os novos entrantes sobrevivem. O mercado é muito concentrado. Existem cerca de 200 alocadores em multimercados, considerando nossos melhores concorrentes. E 10% deles, portanto 20 ou menos, têm 90% do total do patrimônio investido e entre eles estão os grandes bancos”, afirma.

Risco eleição

Para Mário Schalch, gestor de multimercados da NEO, o mercado passa hoje pelo seu melhor momento, com a conjugação da retomada de atividade, com menos restrições à mobilidade social e com a presença de enorme estímulo monetário e fiscal especialmente no mundo desenvolvido. “Estamos vivendo no melhor dos mundos. O pico de aceleração da atividade no mundo deve acontecer entre o segundo e o terceiro trimestre. Os próximos seis meses, porém, serão desafiadores. E uma questão a ser respondida é como os preços dos ativos vão reagir ao início da retirada de estímulos pelos bancos centrais. Aqueles que não tiverem sua valorização bem fundamentada vão sofrer mais.”

Schalch chama atenção para a pressão que se observa nos diferenciais de retorno dos títulos soberanos europeus que estão em níveis mínimos desde a crise de 2008 e neste momento em que se observa aumento na relação Dívida/PIB na maioria dos países. “As taxas mais longas de títulos do Tesouro americano também podem estar sendo influenciadas por essas compras oficiais de ativos sem sensibilidade a preços [de mercado].”

O Brasil, como apêndice do mercado global na visão do gestor da NEO, também vai muito bem, embora reverbere muitos ruídos que vão desde decisões do Copom até as eleições de 2022 que poderão mudar as condições atuais.

“Vejo o mercado sem capacidade de comprimir muito os prêmios praticados ou capaz de buscar grandes retornos antes de ter uma visão mais clara do que seria o resultado da eleição presidencial”, afirma Schalch.

O gestor entende que avaliar a eleição presidencial é precipitado. Schalch pondera que o resultado é muito incerto, mas as maiores probabilidades apontam para a vitória do governo atual ou para um governo mais de esquerda que saiu aplicando medidas que agradavam muito pouco o mercado.

“Caso um governo de esquerda volte, que tipo de política será implementada? Temos um cenário de políticas econômicas que são completamente desconhecidas hoje. E isso também vale para eventual reeleição porque a agenda econômica que era esperada para o governo Bolsonaro também não foi executada. E, hoje, está muito claro para o mercado que essa agenda não será executada. Ela tem limitações”, conclui o gestor da NEO Investimentos.

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