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Venda da Aesop por R$ 12,5 bi remedia dívida e Natura &Co pode voltar a ser Natura

Valor da transação com L'Oréal equivale a 95% da dívida bruta da companhia ao fim de dezembro

Aesop: em uma década, receita sai de US$ 30 milhões para US$ 540 milhões (Aesop Oscar Freire/Reprodução)
Aesop: em uma década, receita sai de US$ 30 milhões para US$ 540 milhões (Aesop Oscar Freire/Reprodução)
Graziella Valenti

Graziella Valenti

3 de abril de 2023 às 21:43

A Natura &Co (NTCO3) entrou definitivamente na rota de voltar a ser só Natura. Para ser mais preciso, Natura e Avon. A venda da Aesop é o primeiro movimento para desmontar o projeto de plataforma global de marcas que deu errado. Sim, é preciso admitir. O valor da venda ficou em linha, um pouco acima até, com as expectativas do mercado, que esperava algo em torno US$ 2 bilhões para o negócio. A Natura & Co vai receber US$ 2,5 bilhões pela marca australiana, o que significa algo como R$ 12,5 bilhões.

A relevância do valor é evidente no comparativo: equivale a 60% do valor de mercado atual da Natura &Co na B3, que está pouco abaixo de R$ 21 bilhões, enquanto o negócio representou 7,5% da receita líquida do grupo em 2022. O preço pago pela L’Oréal implica o potencial de crescimento que é visto para a marca de luxo da Austrália, que saiu de uma receita de US$ 30 milhões para US$ 540 milhões, entre 2012 e 2022.

A Natura comprou a Aesop em dois movimentos, em um investimento total de US$ 105 milhões. Significa, portanto, que durante sua gestão o negócio teve o valor multiplicado por quase 25.

Outra comparação que mostra a importância da transação é com a dívida. O que a Natura &Co tem a receber com a transação representa 95% de toda a dívida bruta que registrava ao fim de dezembro: R$ 13, 3 bilhões. Considerando a posição de caixa já existente, a empresa vai ter mais dinheiro do que vencimentos quando a transação for financeiramente liquidada, após as aprovações dos órgãos anticoncorrenciais pertinentes.

O outro lado da moeda de todos esses dados é: ainda que distorcidos, e exagerados, os números significam que o lado que possui prêmio (Aesop) tem potencial de crescimento e o lado que tem desconto (o restante da Natura &Co), tem desafios e uma perspectiva muito menor de expansão.

Ainda restam a The Body Shop – que encolheu 13,5% em moeda constante em 2022 – e a Avon International, que se mostrou um pepino muito maior do que o pensado inicial. Esses são os ativos a resolver ainda. Mas agora com um fôlego maior para reflexão.

O futuro da Natura &Co é voltar a ser Natura, mas agora com as vendedoras oferecendo também Avon. E o principal mercado do negócio será a América Latina. Pelo menos, em um primeiro momento. Quando a Natura partiu para aquisições, consolidar mercado e comprar outras marcas e em outras regiões, parecia algo lógico: atender à ânsia de crescimento dos investidores e, ao mesmo tempo, diversificar riscos geográficos. Tudo isso, com escala global. Mas o tempo mostrou que aquilo que parecia absolutamente lógico era desprovido de sentido econômico suficiente no portfólio montado. Não havia sinergia nem na distribuição, nem no abastecimento (compra de matérias-primas). No fim, é como se todas as outras marcas tivessem atuado quase que como uma distração do que importava de fato, que era a marca Natura.

Análise de retrovisor, dizem analistas e gestores agora críticos, é fácil. Todos são conscientes do conforto do tempo para esse tipo de avaliação, mas nem por isso menos céticos com o futuro. Do portfólio atual, além do claro potencial de expansão da Aesop – que atua no segmento de luxo, onde as crises nunca chegam – a Natura ainda é a marca que registra melhor desempenho.

Em 2022, a Natura, no Brasil avançou 18% em receita e, na América Hispânica, quase 17%, em moeda constante. Com a venda da Aesop e o fim das preocupações com a pressão financeira, a temática da companhia volta a ser dois pontos já bem conhecidas dos investidores: portfólio e canal de distribuição.

O grande desafio nesse momento, após toda aceleração digital promovida pela pandemia, é como fazer o canal próprio da companhia e suas promoções conviver com as representantes de marca, sem canibalizar as vendas. A questão deve retornar aos holofotes. Em especial, porque há um esforço de integração de Natura e Avon que, superada a frente industrial, agora está bastante concentrado na figura das revendedoras.

E, mais do que nunca, a companhia precisará ter um plano e estar centrada em seus objetivos. Com a dívida equacionada, os investidores de mercado voltarão a sua velha forma: pedir crescimento, crescimento, crescimento. Será preciso resistir às tentações. Os erros - e nenhum administrador é imune a eles - servem para isso, gerar lições e aprendizados. A governança também volta, com tudo, a ter muita relevância. Agora, é (re)descobrir quanto vale a Natura e o que será feito do novo capital.

 

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Graziella Valenti

Graziella Valenti

Editora Exame IN

Criadora do EXAME IN, espaço dedicado à cobertura de negócios, com foco em mercado de capitais. Na EXAME desde março de 2020, ficou 13 anos no Valor Econômico, oito como repórter especial, sete anos na Broadcast, do Grupo Estado.

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