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Santos Brasil vai concluir oferta mesmo com virada da maré na bolsa

Santos Brasil busca caixa para aproveitar leilões no setor e dobrar geração de caixa

Porto de Santos: companhia busca ativos que podem diversificar atuação em contêineres (Germano Lüders/Exame)
Porto de Santos: companhia busca ativos que podem diversificar atuação em contêineres (Germano Lüders/Exame)
GV

Graziella Valenti

24 de setembro de 2020 às 16:29

A maré virou na bolsa, mas não para todo mundo. Uma das maiores empresas de operação portuária do país, a Santos Brasil, deve conseguir fechar sua captação nesta quinta-feira, 24, de acordo com fontes de mercado. A companhia anunciou uma emissão de ações que pode trazer 1 bilhão ou mais para reforçar o caixa e colocar o negócio em uma rota de crescimento importante. O desconto solicitado pelos investidores é que vai ditar o tamanho final da operação. A pressão não está pequena: há pouco, as ações caíam mais de 5% no aguardo da oferta.

A Santos Brasil está entre as empresas que fazem parte da história de revitalização do mercado de capitais brasileiro.  Hoje avaliada em pouco mais de 3 bilhões de reais, fez sua estreia na bolsa em 2005. Mas, desde então, não havia mais acessado a B3 como fonte de recursos.

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Aos investidores, a empresa tem dito durante as apresentações que decidiu levantar dinheiro novo, mesmo tendo endividamento baixo, por ver oportunidades de dobrar sua geração de caixa. Em ano sem pandemia, o Ebitda da Santos Brasil supera 200 milhões de reais. “Não se vê oportunidades no setor portuário iguais a atuais desde a década de 90”, segundo fonte que acompanha a empresa de perto. Há mais de 35 projetos disponíveis, com os leilões do governo, que vão trazer investimentos de 16 bilhões de reais para esse segmento. Por isso, “transformacional” é o adjetivo mais usado para falar o que essa oferta pode representar para a empresa.

Durante a pandemia, a operação sofreu. A receita líquida caiu 15% no segundo trimestre, para 224,8 milhões de reais, e o Ebitda recorrente recuou 37%, para 42 milhões de reais. Mesmo assim, o endividamento líquido continua equivalente a menos de 1 vez o Ebitda acumulado em 12 meses. Ao fim de junho, essa relação estava em 0,78, com a dívida líquida em 84 milhões de reais. Apesar de fazer parte do setor de transporte e logística, a atividade portuária é bastante diversa do mercado rodoviário, em que os preços são regulados e o tráfego relativamente estável. É um negócio mais cíclico, totalmente correlacionado  à economia do país e ao mercado de commodities.

O Opportunity, que por meio de dois principais veículos de investimento é o acionista majoritário, se comprometeu a colocar 200 milhões de reais na oferta. Antes do humor da bolsa ficar tão pesado, acionistas minoritários importantes como Trafalgar, BRAM e Safra tinham dado indicações que exerceriam suas fatias na oferta prioritária, conforme apurou o EXAME IN. O banco se tornou dono da maior parte das ações votantes depois de 2014, quando a empresa migrou para o Novo Mercado como parte do acordo com Richard Klein, para dar fim a um longo conflito societário. A maioria foi alcançada por meio de compra de ações em bolsa.

Depois da captação, o Opportunity continuará sendo o acionista de referência, mas deixará de ter participação de controle, pois vai acompanhar a operação em proporção inferior a que possui no negócio. A expectativa é que sua fatia caia de 54% do capital para cerca de 44%.

Quem assistiu atentamente às apresentações durante o road show entendeu que o foco da Santos Brasil são oportunidades vizinhas as suas no próprio porto de Santos e ainda em Itaqui, no Maranhão, e Paranaguá, no Paraná. A empresa está de olho em ativos ligados à movimentação de químicos e combustível, o que representa uma diversificação — pois boa parte de sua atividade está no segmento de contêineres — e uma demanda cativa, pois o Brasil é dependente da importação desses produtos. Também tem interesse nas operações de movimentação de veículos, celulose, açúcar e toras de madeira.

Questionada pelos investidores se pensa em aquisições para consolidação, a companhia indicou como um caminho possível para a operação com contêineres, mas sem prever grandes passos. Nesse segmento, os planos são mais de verticalização e oferta de serviços complementares de logística em terra, para os clientes do serviço marítimo.

A emissão de novas ações — além do próprio crescimento do negócio, claro — poderá ampliar substancialmente a liquidez dos papéis da companhia, que muitas vezes sofre pelo baixo giro financeiro. Cálculos de mercado apontam que o valor transacionado por dia, hoje entre 16 milhões de reais e 20 milhões de reais, poderia dobrar.

Quem fica e quem vai

Ontem, o banco BR Partners cancelou sua oferta inicial de ações (IPO). A mudança de humor dos investidores fez a demanda secar para operações de menor porte. Pensar no tamanho da porta, para comportar uma eventual saída de emergência, passou a ser uma preocupação de quem está investindo neste momento, no qual o mercado aguarda sinais do governo de que vai ter responsabilidade com suas contas e retomar o caminho do equilíbrio fiscal. A preocupação com o cenário macroeconômico, combinada à tensão externa, deve pesar nas próximas transações. Mesmo assim, a Santos Brasil deve concluir sua oferta e a Melnick, um filhote da Even, também. Hidrovias do Brasil, que colocou sua operação na rua, também deve conseguir fazer o IPO, mas tudo indica que a operação vai ter de sair no piso da faixa sugerida.

 

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