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Energia

O que o sistema de baterias em larga escala da Isa Cteep significa para o futuro do setor elétrico

Projeto pioneiro deve impulsionar mercado, de olho em crescimento de fontes intermitentes de geração

Sistema em Registro (SP): mais de 74 mil baterias armazenam energia para picos de demanda (Isa Cteep/Divulgação)
Sistema em Registro (SP): mais de 74 mil baterias armazenam energia para picos de demanda (Isa Cteep/Divulgação)
Karina Souza

Karina Souza

23 de março de 2023 às 23:36

“Não há transição energética sem transmissão de energia”. Esse foi o mote da Isa Cteep nesta quinta-feira, quando a companhia reuniu colaboradores e representantes de entidades setoriais em Registro (SP) para apresentar o primeiro sistema de armazenamento de baterias em larga escala do Sistema de Transmissão brasileiro . Ou, em outras palavras, um projeto pioneiro que armazena energia produzida 'pelas vias tradicionais' do sistema elétrico em baterias. E para quê? Garantir o abastecimento de energia para consumidores em períodos de pico de demanda -- em que o sistema fica sobrecarregado e, consequentemente, faltaria luz. Mais do que um projeto bem-sucedido, a iniciativa da companhia de energia faz avançar o setor, de olho em garantir estrutura suficiente para um sistema elétrico que se desenvolve com cada vez mais atenção para fontes renováveis intermitentes, como a eólica e a solar. Para ficar em um exemplo recente, nesta semana a Neoenergia inaugurou um complexo de geração associada (que une as duas fontes) na Paraíba, em um investimento de R$ 3,5 bilhões.

No caso da Isa Cteep, companhia que transmite 30% da energia consumida no país, o investimento foi delimitado a R$ 146 milhões pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e financiado por meio de debêntures emitidas pela companhia. Nos próximos cinco anos, apenas para contexto, a empresa deve investir R$ 10 bilhões no Brasil. O projeto surgiu a partir de uma necessidade identificada pela companhia, em 2019, de atendimento ao litoral sul de São Paulo, que tem uma mudança de perfil importante de consumo ao longo do verão, com a chegada de turistas. Em 2021, depois de avaliar algumas possibilidades para sanar o problema de falta de energia, a companhia decidiu investir no sistema de armazenamento de energia via baterias e começou os estudos de viabilidade técnica, seguidos por conversas com reguladores. Obtido o aval e definidos os critérios, as obras começaram. A companhia teve catorze meses para realizar as obras -- no fim, foram concluídas em um ano -- de olho em atender à demanda do verão de 2022/2023.

Hoje, a potência instalada do projeto é de 30 MW e usa 74,8 mil células de bateria, o equivalente a 75 mil celulares, por curiosidade. Esse conjunto garante o atendimento da demanda máxima do Litoral Sul e beneficia dois milhões de pessoas, por cerca de duas horas, quando colocado em prática. Um ponto importante é que a iniciativa visa atender a demandas de pico já pré-programado (e não necessariamente emergências de falta de luz). Ao todo, a vida útil das baterias é de 17 anos. O sistema pode ser usado em emergências de falta de luz? Tecnicamente, sim, mas não se trata do 'melhor uso', uma vez que as baterias tipicamente não ficam 100% carregadas, mas com 40% da potência total. Ou seja, um tempo muito menor de energia disponibilizada.

Daqui para frente, ainda há oportunidades de eficiência a serem capturadas dentro do projeto já colocado em prática. Conversas com o Operador Nacional do Sistema Elétrico têm sido conduzidas para entender como o projeto pode abraçar outras funções, como permitir bom controle de fluxo e da potência de energia. 

O sucesso da iniciativa, dentro dos parâmetros que se propõe a cumprir, é o pontapé inicial para a companhia mostrar que tem capacidade de absorver variações sazonais de fontes intermitentes, reduzindo custos para o sistema interligado nacional e proporcionando economia de energia para os consumidores. Uma demanda para a qual o mundo todo está atento. De acordo com dados da BloombergNEF, instalações de armazenamento de energia devem somar 411 GW até 2030, o que representa 15 vezes mais do que os 27 GW de 2021. Estados Unidos e China continuam sendo os principais mercados, mas, na visão de Rui Chamma, CEO da Isa Cteep, há espaço de sobra para ser aproveitado pelo Brasil. Tanto que este não é o único projeto de inovação em que a companhia trabalha.

A Isa Cteep agora estuda, também, soluções de eletrônica de potência para garantirem o melhor uso do sistema de transmissão (chamado FACTE, em inglês). Hoje, a região entre Porto Ferreira e Ribeirão Preto já está chegando perto do limite em linhas de transmissão. Em vez de construir uma nova (o caminho natural até então), a companhia estuda a viabilidade de usar sistemas eletrônicos para redirecionar fluxos na rede. Também é uma iniciativa que olha para o crescimento das fontes intermitentes no sistema, de olho em diminuir a ociosidade.

Hoje, a Isa Cteep opera 128 subestações e tem uma receita anual de R$ 4,2 bilhões. Mais de 90% da energia de São Paulo passa pela empresa. Ao longo dos próximos anos (2023 a 2027) mais de R$ 5 bilhões devem ser investidos em reforço da estrutura atual para o estado e outros R$ 6,2 bilhões devem ser investidos em cinco novos projetos de construção em outras regiões do país.

Parte do grupo Ecopetrol, líder em energia na Colômbia, a companhia leva os aprendizados com a subestação de Registro para a Isa no Chile e Colômbia, de olho no crescimento da energia renovável e na possibilidade de reduzir riscos com o pico de demanda.

O que falta para avançar e o que dizem os reguladores

De olho em todas essas iniciativas e no potencial brasileiro, Chamma apontou três necessidades principais para o desenvolvimento do setor de olho no futuro: a necessidade de maior regulamentação da atividade, oferecendo, por exemplo, modelos diferentes de remuneração para transmissão do que se tem hoje (a chamada Receita Anual Permitida, ou RAP), um planejamento setorial integrado e flexível, e competitividade econômica.

“O banco de baterias de Registro segue a mesma lógica de remuneração, com uma RAP de R$ 27 milhões, mas fora do Brasil está vinculado às usinas fotovoltaica e eólica. Carrega na baixa e vende na alta. Estamos na consulta pública para criar a regulação”, afirmou, em coletiva de imprensa. 

Sandoval Feitosa, diretor geral da Aneel, ressaltou em coletiva de imprensa os principais avanços conquistados até aqui com o projeto pioneiro da Isa Cteep e deu mais detalhes sobre como, ao menos do lado da regulação, as coisas devem avançar daqui para frente. “Estamos com previsão ao longo de 2023 para fazer duas consultas públicas, de forma que tenhamos a regulamentação do uso do armazenamento a partir do primeiro semestre de 2024. No entanto, a exemplo do que aconteceu com a Isa Cteep, outras soluções não deixarão de ser implementadas nesse meio tempo”, afirmou. "O Brasil é uma potência mineral e que tem que explorar essa capacidade de produzir minerais e produzir riqueza e as baterias são uma grande oportunidade junto a isso".

O tema também é acompanhado de perto pelo Ministério de Minas e Energia. Gentil Nogueira de Sá, superintendente do MME, também esteve presente no evento e ressaltou o viés de inovação para a pasta dentro do novo governo.  “Sistemas de armazenamento fazem parte do futuro do Brasil. Vamos ver sistemas [de armazenamento] como esse ao longo dos próximos 10 anos, o que cria oportunidades únicas para profissionais em todo o país. O MME está totalmente aberto à inovação”, disse. 

São pontos que visam desenvolver um Brasil mais moderno, alinhado com as tendências globais de ESG. Para um país que pretende alcançar emissões zero de carbono até 2050, o futuro começa já -- e o projeto da Isa Cteep é só o primeiro passo.

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Karina Souza

Karina Souza

Repórter Exame IN

Formada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduada pela Saint Paul, é repórter do Exame IN desde abril de 2022 e está na Exame desde 2020. Antes disso, passou por grandes agências de comunicação.

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