Os dividendos bilionários da Petrobras e da Exxon têm a mesma explicação

Petroleiras mundo afora anunciaram pagamentos recordes pela combinação de lucros elevados e dívidas reduzidas
Petrobras: dividendos anunciados no ano podem alcançar R$ 160 bilhões, com números esperados para terceiro trimestre (MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images)
Petrobras: dividendos anunciados no ano podem alcançar R$ 160 bilhões, com números esperados para terceiro trimestre (MAURO PIMENTEL/AFP/Getty Images)
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Graziella ValentiPublicado em 03/11/2022 às 13:56.

O mercado aguarda para hoje, após o fechamento do mercado, o anúncio da Petrobras (PETR4/PETR3) de pagamento de mais até R$ 50 bilhões em dividendos, junto com o balanço do terceiro trimestre da companhia. O montante é aguardado pelos investidores, dentro da política da empresa de remuneração aos acionistas, que considera o fluxo livre de caixa e os investimentos.

Caso confirmado, a Petrobras deve acumular cerca de R$ 160 bilhões em dividendos anunciados no ano, o equivalente a aproximadamente US$ 30 bilhões, com base no resultado acumulado de janeiro a setembro. Desse total, cerca de US$ 8 bilhões ou próximo de R$ 45 bilhões referem-se a recursos que estão sendo distribuídos em razão de um programa de venda de ativos pela empresa. Nenhuma surpresa para o mercado.

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Com a alta do petróleo, todas as companhias do setor no mundo entraram na lista dos destaques de remuneração. Não por acaso, o oráculo de Omaha, Warren Buffett, investiu bilhões e bilhões em petroleiras ao longo deste ano.

Quando a conta para a Petrobras exclui os dividendos pagos em razão dos desinvestimentos, o que se vê é que a estatal distribuirá (no ano, até o terceiro trimestre) algo em torno de US$ 22 bilhões. O número é muito próximo dos US$ 25 bilhões que a gigante americana ExxonMobil também ofereceu de retorno aos investidores, na combinação entre dividendos e recompras de ações (prática adotada com mais força fora do Brasil) para esse mesmo período.

O que permite à Petrobras distribuição tão vultosa de dividendos, assim como a suas pares internacionais, é a soma de dois fatores: lucros elevados pelo preço internacional do barril de óleo e ainda baixa alavancagem financeira. A relação entre dívida líquida e Ebitda da Petrobras está abaixo de 1 vez, um indicador bastante reduzido. No mundo, as petroleiras estão em momento particular de baixo endividamento, com a essa relação variando entre 0,5 vez e 1 vez. A saúde financeira das empresas é o que deu conforto para o aumento da remuneração aos acionistas.

O que explica toda essa robustez nas contas não é só o preço da commodity. Vai bem além. O setor vem de anos de investimentos contidos, Petrobras e as demais petroleiras, dado o esforço de empresas e governos pela descarbonização da economia.

E a política?

A eleição nem terminou e o debate sobre os dividendos da Petrobras já ganharam novo contexto político. A expectativa dos dividendos já mobilizou questionamentos por parte da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e da Associação Nacional dos Petroleiros Acionistas Minoritários (Anapetro), que são contrárias ao pagamento. A deputa federal e presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Glesi Hoffmann, também se manifestou sobre o assunto hoje cedo, por meio de sua conta no Twitter, e qualificou o pagamento de dividendos como sangria. “Não concordamos com essa política que retira da empresa sua capacidade de investimento e só enrique acionistas. A Petrobras tem de servir ao povo brasileiro”, diz ela.

Quando se fala em dividendos da Petrobras, é sempre importante lembrar que a União Federal é a controladora e dona de quase 29% do capital total da companhia. Ou seja: os proventos pagos pela petroleira ajudam a compor o orçamento do governo, a partir do qual se definem as políticas públicas e os investimentos no país. A União é a maior acionista da empresa. Além disso, o BNDES tem outros 8% da estatal.

Mas os ganhos do país com a Petrobras vão além. A Fitch Ratings, por exemplo, estima que só em 2022 entre dividendos e impostos (pago sobre o lucro), a estatal renderá US$ 30 bilhões ao cofres públicos, o que equivale, segundo as estimativas da agência de análise de crédito, 1,5% do PIB e 1,7% das receitas totais do governo.

A fala de Gleisi pega em cheio a maior preocupação dos investidores com a Petrobras, em relação à estratégia que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente para o mandato que começa em 2023, deve adotar. O histórico de investimento da Petrobras é sua caixa de pandora. A preocupação dos investidores é que seja retomada uma política de investimento agressiva e em projetos de retorno reduzido ou até negativo, como refinarias, conforme ocorreu durante o governo anterior do PT — e coração das revelações da Operação Lava-Jato.

Contudo, com o dividendo em mente, as ações da Petrobras por enquanto não mostravam forte reação negativa na bolsa. Há pouco, as preferenciais tinham ligeira alta e as ordinárias, pequena queda, acompanhando a volatilidade do mercado.

Para os próximos meses, é esperada a divulgação do novo plano estratégico da Petrobras, com os investimentos para os próximos anos, desenvolvido dentro desse governo. A expectativa é que haja um aumento dos volumes planejados para os próximos anos, com investimentos em exploração e produção (E&P) na região equatorial. Contudo, não são esses planos que os investidores temem, mas sim em frentes que não sejam em E&P.

Por isso, os investidores se mantêm atentos e ansiosos sobre divulgações a respeito do quadro que deve acompanhar o governo, e essa atenção vai do Ministério da Economia à presidência da Petrobras. O que for feito da estatal, para além do impacto direto nas contas públicas, tem efeito direto na perspecção de risco Brasil e, portanto, no custo de capital do próprio governo e das companhias brasileiras.

 

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