Juro baixo? Taxa baixa esconde alta histórica com BC blindado

Expectativa do mercado é alta de 0,75 ponto para decisão de quarta-feira, levando Selic a 3,5% ao ano

Para baixo todo santo ajuda. A expressão vale para quem carrega compra de supermercado, enfrenta o último quilômetro da maratona e administra a taxa de juro. Movimento ladeira acima exige esforço e até cooperação. Mas isso não vai faltar a Roberto Campos Neto quando, na quarta-feira, encerrar a 18ª reunião do Comitê de Política Monetária de sua gestão. O histórico está a seu favor.

Todas as 17 decisões tomadas pelo colegiado desde março de 2019 foram “unânimes” oscilando entre manutenção e corte da taxa básica até a inflexão de março, também sancionada por um “sim” coletivo. E não se espera mudança de padrão no Copom desta semana — o primeiro do Banco Central com novo status e blindagem institucional inédita que, em algum momento, começará a fazer preço no mercado. Afinal, sete de seus nove membros estarão em seus cargos quando o vencedor da eleição de 2022 cruzar a linha de chegada ao Palácio do Planalto. E o presidente da instituição — se não for demitido pelo presidente da República que tem essa prerrogativa — permanece no posto até dezembro de 2024.

Esse extenso horizonte comporta mudanças relevantes no cenário econômico e político, na composição da diretoria do BC e na gestão da taxa de juro — primeiro elo dessa cadeia a se movimentar.

Na quarta-feira, o Copom deverá confirmar o segundo aumento consecutivo da Selic. O último ajuste semelhante ocorreu em junho de 2015. O cenário político era outro. O fiscal péssimo, mas melhor que o atual. Lá e cá, as expectativas inflacionárias desandaram. Em 2015, à pressão de ajustes de preços administrados somaram-se baixa credibilidade do governo e irresponsabilidade fiscal. Neste 2021, à pressão de alimentos e combustíveis soma-se a pandemia do novo coronavírus com efeito social e fiscal devastador. Para o Brasil e todos os países.

Em bloco, o mercado espera mais um ajuste de 0,75 ponto percentual e Selic a 3,50%. Até dezembro a taxa deve chegar a 5,50% mostra a Focus, bem mais que o dobro de 2% no início do ciclo de alta há 45 dias. Ajustes dessa magnitude historicamente alimentam pressão externa — e do próprio governo — sobre a autoridade monetária. Desta vez, porém, pode ser diferente e não apenas porque o juro nominal está pouco acima do recorde de baixa de 2% ao ano. O juro real negativo no presente e no futuro durante meses — com impacto sobre a taxa de câmbio e no reposicionamento de investidores — também é escudo para o Copom. Mas a blindagem deste momento vai além de perspectivas de retorno.

Em março, quando o Copom iniciou o aperto monetário, o BC já havia conquistado sua autonomia. Contudo, há apenas 15 dias, o presidente Jair Bolsonaro nomeou o presidente e os diretores da instituição. Na última sexta-feira, o presidente formalizou a aprovação do nome de uma nova diretora para uma substituição: Fernanda Guardado.

A autonomia e o status da diretoria promoveram o BC a uma “autarquia de natureza especial” e sem subordinação a qualquer ministério, inclusive, o da Economia. Com isso, a responsabilidade do seu comando ganha um aditivo e tanto.

O poder de compra dos brasileiros — variável relevante para o resultado da eleição de 2022 sobretudo após a pandemia — dependerá do controle da inflação, da retomada da atividade e, por tabela, do mercado de trabalho que já reage. A coesão de sua diretoria é condição relevante para a recuperação e harmonia desses indicadores. Um BC uníssono — sobretudo no Brasil – arrefece o receio de interferências políticas em decisões de natureza técnica e focada no controle da inflação.

Dança das cadeiras

O comando de Assuntos Internacionais e Riscos Corporativos muda assim que o Senado sabatinar e aprovar a indicação de Fernanda Guardado que substituirá Fernanda Nechio que deixa a instituição por razões pessoais após o Copom. Em 31 de dezembro, segundo a programação da rotatividade do BC autônomo, saem João Manoel Pinho de Mello e Fábio Kanczuk. O primeiro cuida da Organização do Sistema Financeiro; o segundo, da Política Econômica. Na Organização do Sistema está o Pix e uma batelada de inovações que prometem melhorar a vida do cidadão com suas finanças. A Política Econômica é responsável pela edição dos principais documentos publicados pelo BC. Entre eles, o Relatório Trimestral de Inflação.

Em sete meses, portanto, haverá dança das cadeiras no Copom. Os substitutos dos diretores em trânsito devem estar alinhados a Roberto Campos Neto, que a autonomia do BC transforma em um dos homens mais poderosos da República e que, por força de lei, tem emprego garantido nos dois primeiros anos do próximo governo — seja de Bolsonaro, Lula ou de uma terceira via.

Não é desprezível, portanto, a possibilidade de Campos Neto ser assediado pelo mercado, pelo governo e pelos políticos. É improvável, porém, que eventuais tentativas tenham sucesso. Seu discurso técnico vem sendo repetido, em média, quatro vezes por mês para além dos documentos da instituição em eventos com representantes dessas tribos, confirmam suas apresentações de domínio público no site da autoridade monetária.

Aos mais observadores, não passou despercebido, em abril, o destaque dado por ele à escalada da Covid-19, ao lento processo de vacinação e seus efeitos sobre a economia global associada diretamente às medidas de restrição da mobilidade. A pressão dos alimentos sobre a inflação ao consumidor sobretudo no Brasil e na Turquia é outra abordagem reprisada pelo presidente do BC, assim como a resposta fiscal dos governos à pandemia. Entre os emergentes, o Brasil é protagonista em ações de suporte à liquidez do mercado financeiro em algo equivalente a 17,5% do PIB. O suporte ao crédito alcança 20% do PIB. A conta virá no futuro, mas maior estrago econômico provocado pela pandemia foi contido.

O Copom define a próxima Selic nesta quarta-feira sem flertar com atividade e emprego, dois mandatos agregados pelo Congresso ao projeto de lei do BC autônomo. Campos Neto, no comando do colegiado, mira a inflação sem ilusão e expectativa de aceleração das reformas e menor deterioração da relação Dívida/PIB. Em bom português, o presidente do BC espera bom senso.

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