Gustavo Franco: Otimismo com 2030
Economista analisa cenário político sem Lula, Trump e Bolsonaro em meio a escalada das tensões entre Brasil, às vésperas das eleições, e Estados Unidos


Gustavo Franco
Economista
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 12:08.
Última atualização em 7 de agosto de 2026 às 12:23.
O mês de julho de 2026 teve ao menos duas novidades importantes, ambas, na verdade, filmes velhos: o tarifaço americano é uma reprise piorada do que já foi visto em abril, e as flutuações dos candidatos nas pesquisas eleitorais também parecem meio repetitivas.
Para a primeira novidade, emerge a figura de Donald Trump. O tarifaço é obra dele, e tudo depende dele. Como hoje, no Brasil, tudo depende de Lula. Talvez ele arrume a casa em janeiro de 2027, se ganhar. Talvez não. Não há como saber — há muita gente em torno dele falando coisas sem sentido.
Talvez Trump perca o interesse no tarifaço, ou se esqueça do Brasil. Não há como saber. E também há, em torno dele, muita gente falando coisas sem sentido.
Em 2030, todavia, não teremos mais nada disso. Nem Lula, nem Trump, nem Bolsonaro. Como será a política em 2030, quando essa safra de líderes populistas estiver fora do jogo? As eleições de 2026 se desenham como a última dança entre Lula e Bolsonaro, não? E Trump não pode ser candidato à sua sucessão em 2028, confere?
Claro que o Brasil vai seguir e a política vai se renovar. Não se sabe ainda de que jeito, quais os nomes e os partidos. Os líderes de agora vão tentar preservar seus acervos e definir seus herdeiros. O processo está em andamento, e o público vai decidir.
Como tem sido generalizada a reclamação quanto à polarização política, e quanto ao populismo desregrado de ambos os polos do espectro, a ideia de mudança tem sido bem recebida, ao menos em tese.
Algo parecido se passa com a política fiscal: vai ser outra coisa, talvez mesmo a partir de janeiro de 2027, pois o que temos hoje é insustentável. Vai ser uma crise, ou um ajuste. Como está, não vai ficar.
Nem mesmo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, — cuja vontade de permanecer nesse posto parece clara — diz que a política fiscal está redonda. Não sem cruzar os dedos fora das vistas do interlocutor.
O ministro deve estar com os dedos dormentes. Freudianamente, todavia, ao sinalizar que as regras do arcabouço terão um “aperto” em 2027, o ministro está usando uma fórmula transversa de reconhecer que um aperto é necessário.
A demanda por otimismo no Brasil é invencível. A nova fórmula para ficar otimista com o Brasil é a de mergulhar um pouco mais fundo na ideia de que não é possível manter a situação fiscal como está por muito mais tempo. Claro que há um paradoxo nessa observação, mas é antigo: remonta a Santo Agostinho.
Funciona assim: no Brasil, o insustentável é efêmero, inclusive porque não se sustenta. Algo necessariamente vai se passar. Não é possível que não venha um desfecho, possivelmente uma solução. O responsável pelo insustentável sabe do problema, e sabe que vai ter que resolver o problema em algum momento.
A fala de Santo Agostinho é simples:
“Deus, dai-me castidade, mas não agora”.
Como há uma eleição em andamento, e está apertada, o pecado parece inevitável. O governo está gastando uma fortuna, desarrumando suas contas a olhos vistos. O incumbente não deveria ter todos esses poderes. Mas tem, e usa. O governo parece utilizar todos os recursos de que dispõe, e todos os que pode tomar emprestado também.
É muito dinheiro; a eleição era para ser uma goleada.
Mas não é o que se passa. A aprovação do presidente está se arrastando, e a rejeição resiste. Não fora a fraqueza dos adversários, o presidente da República talvez estivesse encolhendo. A fadiga é evidente.
É como se a polarização estivesse perdendo energia. É como se 2030 estivesse já querendo se mostrar. Não se deve perder de vista que é uma eleição geral – Câmara e dois terços do Senado, vinte e sete governadores e suas assembleias. Vai ficar tudo muito diferente já agora em janeiro de 2027. Vai ser possível enxergar 2030 com mais nitidez.
Uma boa maneira de reclamar da vida em 2026 é afirmar otimismo para 2030.
Inclusive porque em 2030 também não vai ter mais Donald Trump.
Donald Trump e o tarifaço
Dois tostões de prosa sobre Trump e seu tarifaço, na verdade a segunda tentativa, seguindo-se à derrubada pela Suprema Corte americana das tarifas anunciadas com grande pompa no chamado liberation day, evento que perdeu o primeiro de abril por exatas 24 horas.
Naquele momento, as tarifas eram para todos os parceiros comerciais dos EUA, com isso indicando que a medida era geral, tal qual uma desvalorização cambial com o intuito de melhorar as contas externas americanas.
Escritos de assessores do presidente Trump davam apoio à interpretação pela qual o “tarifaço” funcionaria como uma espécie de “Acordo do Plaza” unilateral, construído a partir de tarifas e subsídios, e não mais através de intervenções cambiais coordenadas com parceiros cooperativos.
Não obstante essa arquitetura multilateral da medida, o presidente Trump introduziu temas bilaterais em muitos dos aumentos de tarifas com vistas a dar tratamento midiático e político ao assunto. Mas o que era nada mais que um tempero virou o principal assunto.
No caso do Brasil, a carta que Trump assinou no tarifaço original, ainda que em modelo igual às cartas para outros países, tinha referências a Bolsonaro, com o que, tudo se transformou. Na verdade, as relações bilaterais foram atiradas num rabbit hole, uma toca de coelho, uma expressão americana que remonta ao “Alice no País das Maravilhas”, livro de 1865, de Lewis Carroll, em que Alice, por pura curiosidade, entra um mundo mágico e incompreensível do qual terá problemas para sair.
Donald Trump parece ter perdido o controle da situação, o que não parece incomodá-lo. Ele parece estar no seu elemento, tirando vantagem do desconserto do adversário. O neomercantilismo de Trump já tem, inclusive, uma designação: geoeconomia. É a geopolítica praticada com ferramentas econômicas.
Mundo afora, as vítimas ficam confusas. Nada disso se parece com as negociações comerciais do passado.
O assunto acabou voltando para a esfera da “diplomacia presidencial”, mas de um jeito novo. O presidente dos EUA fala através de redes sociais, e Lula responde através de “cacos” em discursos de improviso.
Não é uma boa dinâmica para as relações bilaterais.
O lado bom de tudo isso é que em 2030, que está logo ali na esquina, nenhum desses personagens terá mais a mesma relevância. Muitas de suas encrencas vão simplesmente desaparecer. Na verdade, 2030 pode estar mais perto do que se imagina.
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Gustavo Franco
EconomistaGustavo Franco é sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central do Brasil
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