Coronavírus derrubará em 70% matrículas em faculdades privadas

Estimativa da consultoria Atmã Educar aponta que, por causa da pandemia, apenas 180.000 alunos ingressarão no segundo semestre, ante 625.000 previstos

A pandemia do coronavírus está mudando de forma definitiva um dos negócios que mais cresceram no Brasil da última década — o ensino superior privado. Com os estudantes em casa, as redes de ensino precisaram intensificar as aulas online, mas a distância deve impulsionar a inadimplência e afetar a captação de novos alunos.

As matrículas de meio de ano nas redes de ensino superior devem cair 70% em meio à pandemia do coronavírus, segundo estimativas da consultoria Atmã Educar. De 625.000 novos alunos previstos, apenas 180.000 devem de fato efetivar as matrículas.

No total de novos alunos previstos para o ano, a queda deve ser de 17% — de 2,5 milhões para 2.060 milhões. Somando esse dado com um aumento na inadimplência, a perda de receita no ano para as redes privadas pode chegar a 10%, ou 6 bilhões de reais, segundo a Atmã.

O ambiente remoto é a alternativa possível, mas no curto prazo não é uma solução que reduza os custos das instituições. Pelo contrário. A Atmã calcula que uma faculdade média, de 5.000 alunos, precise investir 200.000 reais para iniciar aulas online — e, depois, outros 15 reais por aluno por mês com tecnologia e conteúdo.

No médio prazo, as aulas online devem, sim, ajudar a reduzir os custos — e a reduzir a demanda por professores. Em média, o salário dos professores representa 80% do gasto das instituições de ensino superior, uma despesa difícil de ser reduzida em 2020. Ainda assim, sem atividades físicas, alunos têm demandado reduções nas mensalidades, colocando as instituições contra a parede.

 

No total, 6,5 milhões de alunos estão hoje nas redes de ensino superior privado — dos quais cerca de 2 milhões são à distância. O problema é que a modalidade à distância têm mensalidade muito mais barata que a presencial — 280 reais ante 780 reais. Agora, com todos em casa, os alunos presenciais podem achar que pagam pelo que não recebem. No Rio de Janeiro, a Defensoria Pública do Estado ingressou na Justiça com pedido de desconto imediato de 30% no valor das mensalidades até o fim do isolamento social.

Em meio à queda de braço, a inadimplência média passou de 20% para cerca de 30% como consequência da pandemia. “Não é uma catástrofe. A grande apreensão é com a renovação da matrícula, já que os alunos não estão tendo as atividades práticas”, diz Romário Davel, sócio da Atmã.

A consultoria está criando um projeto para fazer com que instituições de médio porte, com até 5.000 alunos, possam receber aulas de um núcleo central de produção de conteúdo. É uma opção de cortes de custos e ganho de escalas, com suporte amparado por tecnologia.

A ideia é dar até 40% das aulas desta forma a partir de 2021 (e o máximo possível esse ano, por uma brecha legal influenciada pelo coronavírus). Nesta modalidade, um professor pode dar aula para até 300 alunos em cursos de direito. “A pandemia já quebrou o paradigma de alunos e professores sobre ensino à distância”, diz Romário Davel.

 

O problema, claro, é como (e quanto) cobrar por isso. Em condições normais, instituições que decidirem aumentar a carga online de seus cursos presenciais devem informar o novo modelo aos estudantes com 30 dias antes aos alunos.

Com as dificuldades da pandemia, grandes redes de ensino têm sofrido na bolsa — as ações chegaram a cair 60%. A Cogna, ex-Kroton, aprovou essa semana a emissão de 500 milhões de reais em debêntures, com prazo de três anos. O dinheiro captado servirá para alongar a dívida da companhia e fazer aportes de capital em suas controladas. A companhia divulga resultados nesta quinta-feira, após o fechamento do pregão, e deve perde 22 milhões no trimestre, segundo relatório do banco BTG Pactual.

Ainda segundo o BTG, as oportunidades para as grandes redes continuam no longo prazo. Inclusive na consolidação do mercado com a compra de grupos regionais de ensino. Como costuma acontecer em crises, os pequenos e médios devem ser os mais afetados pela onda do coronavírus nas redes de ensino.

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