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Contabilidade de Magalu e Via escancara problema na Americanas

Entenda o caso dos R$ 20 bilhões e como as concorrentes da Americanas fazem uma contabilidade bem diferente

Magalu: companhia não recorre ao 'risco sacado' e, como prêmio, ações lideraram as altas do Ibovespa ontem (Magazine Luiza/Divulgação)

Magalu: companhia não recorre ao 'risco sacado' e, como prêmio, ações lideraram as altas do Ibovespa ontem (Magazine Luiza/Divulgação)

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Graziella Valenti e Raquel Brandão

13 de janeiro de 2023, 10h50

O mercado começou o dia de ontem de queixo caído e tentando entender como a Americanas (AMER3) têm, segundo estimativas superficiais, R$ 20 bilhões em inconsistências contábeis, acumuladas anos a fio. Sérgio Rial, CEO da companhia por um período relâmpago, começou o dia contando aos investidores o que encontrou, nesse breve período de nove dias em que ficou à frente da companhia. A explicação trouxe algum pânico aos mercados também para outras varejistas, como Magazine Luiza e Via. Elas começaram o pregão de ontem com quedas de 8% e quase 7%, respectivamente. Depois, a situação mudou ao longo do dia de tal forma, que Magalu (MGLU3), por exemplo, terminou o pregão sendo a maior alta do Índice Bovespa. Via (VIIA3) ainda terminou em baixa, de 5,38%. Os papéis da Americanas tiveram um tombo de 77,33%, o que tirou R$ 8,6 bilhões do valor de mercado da empresa — dos R$ 11 bilhões tinha antes de anunciar o problema.

O que separou Magalu, Via e Americanas ao longo do pregão de ontem foi a contabilidade, ou melhor, não a ciência contábil em si, mas os riscos que ela traduz. Olhar o balanço das três ajuda a entender o assunto que ferveu os miolos dos investidores ontem. E deve continuar fervendo por um bom tempo. O motivo do contágio inicial foi a explicação que as inconsistências no balanço da Americanas ocorreram na contabilização do financiamento aos fornecedores, o chamado ‘risco sacado’. Uma operação para lá de tradicional, espalhada pelo varejo, mas também usada pela indústria.

Especialmente investidores estrangeiros correram para vender o que tinham de exposição ao setor, para aí então terem tempo de entender o que é esse tal de ‘risco sacado’. O Brasil é o país do prazo, do crédito e da parcela. Assim que perceberam a situação, Magalu e Via colocaram as áreas de relações com investidores para explicar que não havia motivo para medo. O esforço de comunicação não se deu apenas com acionistas de mercado. A preocupação se alastrou até os bancos credores. E foram necessárias conversas.

O balanço do terceiro trimestre mostra que a Magalu não recorre a financiamentos bancários para pagar fornecedores com prazo adicional. Ao contrário, a companhia ajuda, com bancos parceiros, fornecedores anteciparem seus recebíveis. Dessa forma, se torna devedora das instituições financeiras, mas o pagamento ocorre no mesmo prazo concedido pelo fornecedor. Daí, então, que tudo é lançado sempre nessa mesma linha de fornecedores, que ao fim de setembro somava um passivo de R$ R$ 8,6 bilhões.

Na Via, assim como recomenda a boa prática contábil, sempre que a empresa usa o financiamento bancário com prazo extra para quitar a compra do fornecedor, os compromissos entram na conta passiva como “fornecedores convênio”. A empresa tinha, ao fim do terceiro trimestre, cerca de R$ 9,6 bilhões relacionado a fornecedores, sendo R$ 2,5 bilhões em compromissos com instituições financeiras devido a alongamentos. Proporcionalmente, a adoção da modalidade subiu de 20% para 26% da totalidade da conta, na comparação anual.

Sempre que uma varejista pede a bancos prazo extra para pagar o fornecedor, essa pendência precisa ser colocada no balanço patrimonial de forma diversa, mas sempre como um passivo. A Via, por exemplo, aponta isso como “fornecedor convênio”. Isso porque a ponta credora muda e, portanto, a natureza do risco também. Uma coisa é dever para fornecedores e outra, para bancos.

A média do setor, quando faz esses contratos, é estender por algo entre 60 e 90 dias o pagamento. No caso da Americanas, esse prazo estava em 360 dias. Seja como for, tanto Magalu, como Via abordam, em seus balanços, as operações financeiras relacionadas aos fornecedores. Americanas, não.

A explicação

Mais uma diferença entre Magalu e Via, de um lado, e Americanas do outro é a despesa financeira. Todas as vezes que o banco dá prazo extra ao varejo para o pagamento do fornecedor, ele cobra juros. O pagamento desses juros pode ser lançado no balanço de duas formas, conforme reza a contabilidade: ou como um aumento do custo de produtos, que reduz a margem bruta, ou como despesa financeira. Mas é sempre um fator redutor do lucro líquido.

Em Magalu, uma vez que a companhia não usa prazos adicionais, quando seu fornecedor desconta um recebível com bancos parceiros, ela chega a computar uma receita, uma espécie de comissão que a instituição financeira paga. Por que o banco paga essa taxa? Porque está descontando um recebível com risco de crédito da Magazine Luiza, portanto, mais seguro. Mas os valores não chegam a ser relevantes financeiramente.

O que não houve especialista em contabilidade que conseguisse entender é a forma adotada pela Americanas. A companhia usa um prazo extra substancialmente maior, o que implica em custos maiores. No caso da Via, por exemplo, as notas explicativas do balanço apontam que atualmente a taxa de juros implícita nesses contratos chega a quase 19% ao ano, na média. Isso para uma média de 90 dias.

A prática adotada há longos anos pela empresa do trio 3G, Beto Sicupira, Marcel Telles e Jorge Paulo Lemann, é pegar os juros pagos pelo alongamento do prazo com o fornecedor por meio de financiamento bancário e abater isso do valor absoluto do passivo com fornecedores do balanço patrimonial.

Essa prática trouxe dois efeitos: um é a majoração do lucro pelo não lançamento no demonstrativo da despesa financeira e o outro, uma redução artificial do passivo com fornecedores.

Para se ter uma ideia, apesar de não ser tão menor do que Magazine Luiza e Via, a Americanas reportou em setembro R$ 5 bilhões em compromissos com fornecedores, enquanto as outras duas R$ 8,6 bilhões e R$ 9,5 bilhões, respectivamente. Quanto mais usa o risco sacado, mais juros paga, mais o valor absoluto da dívida com fornecedor cai no cômputo adotado pela empresa.

Na apresentação do caso a investidores, Rial sinalizou que atualmente a conta de fornecedores, considerando os compromissos bancários, estaria em algo como R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões.

Mas como esse montante é tão superior às concorrentes? A explicação é o alongamento dos prazos muito acima da média do setor, o que faz os pagamentos se sobreporem. Fica mais fácil assim entender porque Rial falou em alto e bom som que a empresa não terá como, neste ano, pagar todo os juros devidos. Pediu aos bancos que "prendam a respiração e segurem firme".

O conserto dessas incorreções levaria a companhia a apresentar lucros menores, ano após ano, ou até mesmo, prejuízo na demonstração de resultado, e também passivos maiores no balanço patrimonial. A foto, portanto, estaria bem diferente. Não custa lembrar mais uma vez que o patrimônio líquido da empresa, ao fim de setembro, estava em R$ 14,7 bilhões.