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Americanas: diálogo com credores piora e pedido de recuperação judicial é iminente

Vitória do BTG Pactual na Justiça, para bloqueio de recursos da empresa, deve acelerar decisões

Americanas: consenso entre credores e sócios parece cada dia mais distante (Michał Chodyra/Getty Images)

Americanas: consenso entre credores e sócios parece cada dia mais distante (Michał Chodyra/Getty Images)

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Graziella Valenti

18 de janeiro de 2023, 16h32

O clima das conversas com os bancos credores do caso Americanas piorou sensivelmente de ontem para hoje. No lugar de os dias estarem ajudando os ânimos a acalmarem, é o contrário. Um pedido de recuperação judicial é iminente agora que o banco BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da Exame) conseguiu que a Justiça reconheça seu direito de bloquear R$ 1,2 bilhão em recursos da companhia que estão na instituição. Embora a decisão judicial valha apenas para a instituição, outros bancos estão em situação semelhante e também já foram à Justiça com pedidos semelhantes. É o caso de Bank of America (BofA) e Goldman Sachs. 

Essas instituições possuem contratos derivativos com a Americanas e já receberam chamada de margem. Ou seja, estão sofrendo a consequência já do problema. Não se trata apenas de expectativa de perda futura. A companhia tem esses contratos tanto para risco cambial como para troca de indexador de títulos de dívida. O balanço da companhia de setembro, na frente cambial, apontava uma posição ativa de dólar mais pré de R$ 6,65 bilhões para uma posição passiva em CDI mais pré de R$ 6,95 bilhões. Nos indexadores, há uma posição ativa de R$ 8,5 bilhões em IPCA mais pré para uma passiva de R$ 8,3 bilhões, em CDI mais pré. As agências de classifcação de risco Fitch e Standar & Poors (S&P) reduziram a nota de crédito da companhia. Na Fitch, os papéis foram classificados como "junk" e na S&P, já foram para nota 'D', que significa calote (default).

Com o risco de que a decisão tenha efeito cascata, o pedido de recuperação judicial pela Americanas deve ocorrer o mais breve possível. Enquanto a empresa estava protegida pela medida cautelar que obteve no dia 13, que impedia execuções e antecipações de vencimento, havia algum tempo para tentativa de um diálogo privado. Agora, esse fôlego se perde e as negociações terão que continuar, mas agora dentro de um ambiente Judicial.

O trio de sócios que controla a gestão da companhia, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira (sendo esse último o que sempre foi mais próximo da empresa), não tem se mostrado flexível na disposição de capital que têm para colocar no negócio: continuam batendo na tecla dos R$ 6 bilhões, junto, é claro, com uma conversão de dívida relevante por parte dos bancos, em ações da empresa. "Eles não parecem dispostos a aumentar esse valor", comenta uma fonte próxima aos diálogos dos últimos dias.

O Rothschild, que está liderando as negociações, tenta transmitir uma mensagem de que a visão dos sócios é que a Americanas precisa sair e sobreviver a essa crise, segundo pessoas que acompanham as conversas. Eles não querem colocar dinheiro apenas para dar conta do problema dos bancos. O objetivo das conversas é resolver a situação e não apenas diminuir o problema. E isso não será possível apenas com aporte de recursos do lado deles. Já os bancos estão demonstrando uma ferocidade sem comparação com o cenário, justamente porque a credibilidade da empresa (seja isso certo ou errado) era calcada no bolso e na capacidade de execução do trio. Dessa forma, exigem um aporte maior dos sócios. Está muito difícil encontrar um ponto de equilíbrio e os ânimos estão cada vez mais acirrados.

Quando pediu a medida cautelar para se proteger de execuções e tentar preservar o caixa, a Americanas listou R$ 40 bilhões à Justiça. Contudo, esses valores não são sequer conhecidos no detalhe — pelo menos, não publicamente. No momento em que Sergio Rial, que seria o presidente da companhia, renunciou ao cargo, disse ter encontrado inconsistências contáveis no valor estimado de R$ 20 bilhões. Apesar de a empresa ter anunciado que esse valor não tem efeito caixa, é fato que os passivos estão incorretamente relatados. O que se conhece, nesse momento, são R$ 19 bilhões em compromissos relacionados a empréstimos e financiamentos e R$ 5 bilhões de fornecedores. Esse último valor, tudo indica, está substancialmente subestimado.