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Americanas: comitê de auditoria foi 'questionador' sobre balanços

Atas internas indicam que as perguntas certas estavam sendo feitas dentro da companhia

Americanas: companhia consumiu 40% do caixa apresentado em setembro (cacaroot/Thinkstock)

Americanas: companhia consumiu 40% do caixa apresentado em setembro (cacaroot/Thinkstock)

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Graziella Valenti

20 de janeiro de 2023, 14h17

O caso Americanas (AMER3) já se tornou um episódio emblemático da cena corporativa brasileira. Talvez até mais do que foram os derivativos de Sadia e Aracruz. “É a Enron brasileira”, disse um advogado envolvido com os credores, mantendo o estilo duro sobre o episódio. Claro que o tamanho do problema, inconsistências da ordem de R$ 20 bilhões, poderia garantir esse status sozinho, mas não é só isso. Esse caso tem outros ineditismos: uma reação intensa e dramática dos credores, que bloquearam o caixa da empresa, e um pedido de recuperação judicial em velocidade relâmpago.

Existe uma decisão coletiva, uma perda de pudor, de chamar o episódio de fraude — e de se concluir quem já sabia — antes mesmo de qualquer investigação. É bom que se lembre e se explique que o comitê independente que fará esse trabalho começa só agora a se movimentar, a partir de sua constituição completa. Além de Otávio Yasbek na coordenação, terá Eduardo Flores, professor de contabilidade e parecerista, especialistas bastante próximo do mestre Eliseu Martins, e Vanessa Lopes, que é do conselho de administração e do comitê de auditoria. Flores entrou no lugar de Pedro Mello, que foi presidente da KPMG, uma das firmas que auditou a empresa.

Esse comitê ainda precisa escolher e contratar o escritório de advocacia que fará as entrevistas necessárias com os funcionários e a leitura dos documentos internos e também a firma de auditoria que irá rever os números. O resultado dessas avaliações e mais a investigação do próprio trio do comitê vão poder indicar se houve ou não fraude — e qualquer condenação a esse respeito cabe à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), após sua própria investigação. No campo criminal, a depender do que houve, qualquer acusação depende que algum lesado se apresente para a discussão ocorrer.

A reportagem da EXAME, além do que já escreveu na edição de janeiro da revista, também apurou nesses últimos dias (após o fechamento da reportagem mensal) que o comitê de auditoria da Americanas já tinha levantado as bandeiras necessárias dentro da companhia. O grupo é formado por Paulo Pereira, Mauro Not e Vanessa Lopes. Não era um problema absolutamente ignorado na esfera do conselho de administração. Mas, tampouco, totalmente compreendido por todos e em todas as suas dimensões.

Quer saber como Sergio Rial descobriu tudo? A Revista Exame conta para você

Ao que tudo indica, os órgãos de governança estavam funcionando — se integralmente e a pleno contento é difícil dizer. Contudo, é possível que as reações não tenham ocorrido em tempo hábil de se evitar um problema maior até a chegada de Sergio Rial e André Covre à gestão. De acordo com pessoas próximas à empresa, nos nove dias que ficaram na companhia, eles buscaram e tiveram acesso às atas que demonstram que “as perguntas certas estavam sendo feitas.” Na videoconferência que realizou no dia 12, Rial apontou que o ambiente da companhia não era favorável à fluência das informações.

Vale registro o fato de a empresa relatar a existência de um caixa de R$ 7,8 bilhões, incluindo recebíveis de cartão, no momento do anúncio do problema dos R$ 20 bilhões. Esse montante, independentemente de bloqueado ou não, mostra uma queda forte sobre o fim de setembro, quando somava cerca de R$ 13,5 bilhões. Trata-se de uma indicação de que a situação se agravou e bastante no fim do ano.

Os porquês de tudo só serão compreendidos após as investigações. A CVM também apura a situação. Os bloqueios bancários, contudo, chamam atenção porque não cobrem nem proximamente os créditos detidos. A própria companhia lista R$ 43 bilhões em dívida, mas o fato é que não há clareza ainda sobre o real montante.

O caso é para lá de complexo, talvez o mais complicado de todos já vistos no Brasil. "Os bancos vão até Haia, se precisar, para manter os bloqueios", comentou um advogado que está atuando no caso e sabe o tamanho da força empregada pelos credores. Cada vez mais o discurso sobe de tom e começa já citar os demais negócios do trio 3G, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, como Ambev, Burguer King (Zamp), AB Inbev e Kraft-Heinz.

O que é DIP?

Todo dia uma nova pimenta vem esquentar ainda mais as conversas — no lugar de refrescar o clima. O fator tempero que a recuperação judicial trouxe é a expectativa de que o trio de sócios, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, possa fazer um DIP para garantir que a companhia siga rodando, uma vez que o caixa foi quase totalmente bloqueado. Não está claro se a empresa terá amplo sucesso em colocar em prática a recomendação da Justiça, quando acatou o pedido de proteção a credores, que determinou o desbloqueio de pelo menos R$ 820 milhões.

O que é esse tal de DIP? Trata-se de uma sigla para um nome internacional, debt in possession, que nada mais significa do que um empréstimo que passa na frente de todo mundo na fila para receber pagamentos de empresas em recuperação judicial. A figura existe para que investidores que tenham interesse em ativos de risco encontrem um meio seguro para atuar e, dessa forma, contribuir com as chances de o negócio sobreviver. A Oi, por exemplo, fez um com a Farallon durante seu processo.

Aqui, o DIP veio dentro do contexto de como o trio 3G daria suporte à companhia. Era uma mensagem fundamentalmente aos fornecedores. Sem eles, o negócio para. Mas o tiro mirou um alvo e acertou em outro. No atual ambiente, não levou horas, só minutos, para que os bancos credores começassem a criticar a iniciativa ferozmente. Que eles (sócios) não podem diluir os demais investidores e nem se colocar na frente dos demais credores. Até o momento, um DIP não estava nas conversas.

Para quem está de fora do epicentro, a sensação, até o momento, é que ninguém quer que a Americanas sobreviva. Nem os sócios, nem os bancos, que muito mais do que os valores bloqueados, têm créditos bem maiores com a empresa. Fala-se em falência sem pudor, como em fraude. É como se todos os ritos e caminhos fossem ignorados.