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Natura &Co reduz conselho: saem gringos e Dynamo ganha assento

Eficácia da estrutura de governança e gastos com remuneração de executivos se tornaram alvos de questionamento de acionistas

Natura &Co: gestora carioca Dynamo passa a compor conselho de administração (Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket/Getty Images)
Natura &Co: gestora carioca Dynamo passa a compor conselho de administração (Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket/Getty Images)
Graziella Valenti

Graziella Valenti

27 de março de 2023 às 09:03

A Natura &Co (NTCO3) quer mudar pontos importantes de sua estrutura de governança corporativa. A alteração que mais chama atenção é a quase reforma do conselho de administração da empresa. A eficácia da formação do órgão tornou-se alvo de questionamentos recentes de investidores. O colegiado será reduzido de 13 para 9 participantes e dois nomes novos vão compor o grupo: Bruno Rocha, sócio fundador da gestora de recursos Dynamo, e Maria Eduarda Mascarenhas Kertész, executiva do alto escalão da Johnson & Johnson no Brasil.

Saem da formação Ian Martin Bickley, Jessica DiLullo Herrin, Wyllie Don Cornwell, Nancy Killefer e Fábio Colletti Barbosa, que fica apenas como presidente do grupo. Antes da mudança atual, Roberto Marques, CEO global anterior, já havia deixado o conselho. Os novos indicados ficam até a assembleia de 2024, quando haverá uma nova eleição completa do conselho.

Essas modificações serão levadas aos acionistas para votação em assembleias gerais ordinária e extraordinária marcadas para 26 de abril. Até então, conselho de administração da Natura &Co tinha uma formação que refletia ainda o projeto anterior do grupo: de ser uma plataforma global de marcas. Dona de nomes como Avon, The Body Shop e Aesop, a companhia passa por um profundo processo de revisão de modelo.

Em 2022, a Natura &Co teve prejuízo de R$ 2,8 bilhões, ante lucro de R$ 1 bilhão no ano anterior. Além de aumento na despesa financeira, a empresa também mostrou piora nos indicadores operacionais. A receita líquida teve queda de 9,5%, para R$ 36,3 bilhões. Em moeda constante, ou seja, excluindo a volatilidade cambial dos diversos países em que atua, o número fica praticamente estável, com leve alta de 0,4%. Na B3, o valor da companhia, que chegou próximo de R$ 80 bilhões no começo de 2021, está agora em aproximadamente R$ 18,5 bilhões.

O resultado da revisão estratégica tende a ser, no longo prazo, a concentração do negócio nas marcas Natura e Avon, e com a saída dessa última de diversos mercados internacionais nos quais hoje está presente, mas que não oferecem retorno suficiente. Neste momento, está em andamento o desenvolvimento de uma maior integração entre ambos os negócios, inclusive na força de vendas.

Em razão disso, a formação anterior do conselho era considerada inadequada para esse novo projeto. Havia excesso de participação de executivos internacionais. A ideia é que os membros atuais tenham, inclusive, mais agenda disponível para se dedicar à empresa. A companhia vem acumulando questionamentos de investidores tradicionais do mercado brasileiro e algumas casas relevantes de análise fundamentalista inclusive desistiram do negócio e venderam totalmente ou de forma relevante suas posições. O EXAME IN apontou a existência de críticas e os questionamentos sobre o conselho em reportagem publicada em 16 de fevereiro, a partir de uma entrevista exclusiva com o CEO Fabio Barbosa. 

Se Rocha e Kertész forem aprovados, vão se unir aos três sócios fundadores, Antonio Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, mais Gilberto Mifano, Georgia Garinois-Melenikiotou, Andrew McMaster e Carla Schmitzberger. A Dynamo é a maior acionista de mercado da empresa, dona de 5,12%do capital total, seguida pela BlackRock, com 5,06%.

A expectativa é que, em breve, o conselho decida sobre o futuro da australiana Aesop. Nos últimos meses, a Natura &Co recebeu propostas para aquisição parcial ou integral da empresa, tanto de companhias do setor como de fundos de private equity.

Remuneração

A Natura &Co desembolsou R$ 198,3 milhões em remuneração para seus administradores, entre março de 2022 e abril de 2023. O montante é 72% superior ao que foi aprovada pela assembleia de acionistas do ano passado, apesar do desempenho operacional do negócio ter ficado aquém das expectativas do mercado. A companhia, na proposta da administração, alega que o motivo do aumento foram as mudanças realizadas no quadro de gestão. No ano passado, houve a saída de Roberto Marques da presidência global e também do conselho de administração e a eleição de Fabio Barbosa, que já era conselheiro, como sucessor no cargo executivo.

Apenas em benefícios pós-emprego, a empresa incorreu em uma despesa extra de R$ 45,6 milhões. O aumento dos gastos com remuneração é outro incômodo do mercado com a empresa, em especial, porque não vem acompanhando de uma evolução do negócio - ao contrário, de uma piora dos números.

Para o próximo intervalo de gestão, de abril deste ano a março de 2024, a Natura &Co propôs um valor global 32% inferior aos R$ 115,15 milhões aprovados no ano passado. Com isso, o montante total para o período, que será levado para votação na assembleia, é de R$ 78,3 milhões. Como Barbosa deixa de acumular cargo no conselho e no quadro executivo, sua remuneração contará apenas como parte das despesas da diretoria.

Simplificação

Na proposta da administração, a Natura &Co trouxe uma série de sugestões para simplificar a gestão, com a finalidade de eliminar custos da estrutura da holding, tais como acabar com o comitê operacional do grupo. No novo modelo de negócios que o grupo deve adotar, a holding deixa de ter uma função estratégia e passa a ser uma gestora do portfólio de marcas.

Conselho fiscal

Investidores minoritários da companhia, Previ (fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil), BB Gestão de Recursos e a gestora carioca JGP indicaram Cynthia May Hobbs Pinho, como membro titular, e Andrea Maria Ramos Leonel, como membro suplente para composição do conselho fiscal da empresa.

 

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Graziella Valenti

Graziella Valenti

Editora Exame IN

Criadora do EXAME IN, espaço dedicado à cobertura de negócios, com foco em mercado de capitais. Na EXAME desde março de 2020, ficou 13 anos no Valor Econômico, oito como repórter especial, sete anos na Broadcast, do Grupo Estado.

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