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Na estreia, Grupo Abra elimina risco financeiro de Gol com reestruturação de US$ 1,4 bi em dívida

Dívida da brasileira com a controladora deve ser capitalizada em breve, ou seja, transformada em participação acionária

Gol elimina risco financeiro com alongamento da dívida e, em breve, compromissos devem ser capitalizados (Gol/Divulgação)
Gol elimina risco financeiro com alongamento da dívida e, em breve, compromissos devem ser capitalizados (Gol/Divulgação)
Graziella Valenti

Graziella Valenti

6 de março de 2023 às 11:25

O Grupo Abra de aviação comercial estreou sua formação em grande estilo, para deixar claro na largada sua força. Quase ao mesmo tempo em que os documentos finais do grupo foram assinados, já com a nova empresa tornando-se controladora da brasileira Gol, também foi concluída uma das maiores reestruturações privadas de dívida da América Latina, em um total de US$ 1,4 bilhão ou pouco menos de R$ 7,5 bilhões.

A criação da Abra coloca Gol (GOLL4) e Avianca, as duas participantes iniciais e arquitetas principais do negócio, no jogo global da aviação global. Em breve, a elas devem ser somadas Sky e Viva. As empresas deixam de ser encaradas como operações regionais. A soma das marcas do grupo equivale a uma receita anual da ordem de US$ 7 bilhões e a cerca de 300 aeronaves.

Nos últimos seis meses, enquanto negociavam com investidores, executivos das empresas Gol e Avianca, que assumirão as funções de liderança do grupo, reforçaram que a Abra não será uma holding, ou seja, meramente uma empresa de gestão de portfólio com participações em companhias. A Abra é uma plataforma do setor de transporte aérea de passageiros e cargas. Esse foi o recado. Tem razão de existir muito além da soma das partes. Não por acaso, as sinergias estimadas são da ordem de US$ 300 milhões ao ano, o que a um múltiplo médio do setor (que varia de 4 vezes a 11 vezes Ebitda) significa um valor adicional da ordem de US$ 2 bilhões na soma de Gol e Avianca, conforme fontes que trabalham na formação do grupo.

Essas são as vantagens quantificáveis, mas existem inúmeras outras cuja matemática é mais sofisticada. Para aqueles que ainda não tinham compreendido, a reorganizaçao dos vencimentos da Gol, que representa praticamente a eliminação dos riscos financeiros da empresa brasileira, é um exemplo disso.

A operação consistiu de dois movimentos. O primeiro foi uma captação de US$ 1,5 bilhão pela Abra, pouco mais de US$ 500 milhões em dinheiro novo e cerca de US$ 1 bilhão em papéis antigos da Gol que foram trocados por títulos da Abra. Essa substituição foi feita com um desconto de 29% implícito. Em um segundo movimento, a Gol emitiu nova dívida no valor de US$ 1,4 bilhão, cujos papéis foram comprados pela Abra com os recursos levantados. O custo da dívida nova para a empresa fundada pela família Constantino ficou em 18% ao ano e os papéis têm vencimento em 2028.

Da remuneração, 4,5% serão pagos como juros e o restante será capitalizado ao compromisso principal. Essa taxa só foi possível de ser alcançada porque a Abra, em sua operação, dispõe de ativos que antes não poderiam ser usados como garantia pelas companhias operacionais, o que reduz seu custo de capital. A emissão da Abra usou como garantia as ações de controle da Gol, equivalentes a 54% da empresa, e 100% da Avianca. Esse é já um ganho de eficiência - no custo financeiro - da criação da Abra.

Como fica a dívida da Gol?

De forma simplificada, a dívida da Gol com bonds que era de US$ 1,9 bilhão foi reduzida para um valor líquido de US$ 1,7 bilhão e com prazo mais longo. A duração média das dívidas com títulos da empresa passou de 2,5 para 4,4 anos. Em etapas: dos papéis antigos sobraram cerca de US$ 800 milhões, pois US$ 1,1 bilhão foram recomprados pela Abra, e a Gol emitiu US$ 1,4 bilhão em dívida nova. Só que dessa nova emissão, US$ 450 milhões são ingresso de dinheiro novo, não são troca de papéis velhos por novos.

A transação representa uma economia de US$ 313 milhões para a Gol. A melhoria do perfil financeiro da Gol porém, não deve parar por aqui. Há uma expectativa de que os compromissos sejam trocados pela Abra por participação acionária na Gol, ou seja, deixariam de existir. Essa troca pode ocorrer a qualquer momento entre este ano e 2028. Mas, alguns apostam que, a depender das condições do mercado, é possível que esse movimento ocorra ou ao menos comece dentro de 2023. Para trocar a dívida que possui em ações, a Gol terá, como é praxe nesses casos, realizar um aumento de capital privado, no qual acionistas minoritários poderão participar para preservar suas fatias no negócio e não serem diluídos.

O que vem pela frente

O plano para Abra é que ela seja a companhia listada, e em uma grande bolsa internacional, não mais Gol e Avianca. Analistas e investidores já dão como certo o movimento. A dúvida é o prazo. Dessa forma, tanto Gol como Avianca, bem como as demais companhias que vierem a compor a plataforma, poderão se beneficiar de uma maior liquidez, atraindo investidores globais. A expectativa é que uma grande bolsa global seja escolhida como mercado primário, em Nova York ou Londres. Na prática, isso significa reestruturação societária à frente para os investidores da Gol. Mas, antes disso, deve haver a capitalização da dívida da Abra contra a Gol.

Não faltam entre investidores do mercado acionário quem aponte as companhias aéreas como difíceis no relacionamento e até mesmo na compreensão de seus negócios, repletos de indicadores para lá de específicos. Porém, a reestruturação da dívida da Gol - o primeiro grande movimento oficial da Abra - conta uma história um pouco diferente, na qual apenas relações de longo prazo e duradouras podem mostrar os resultados alcançados, conforme pessoas que participaram da renegociação.

Em fevereiro de 2022, a Gol se movimentava no mercado externo para fazer uma pequena captação. Então, a invasão da Ucrânia pela Rússia e a explosão nos preços do petróleo (maior fator de pressão de custos do setor) fizeram o mercado se fechar por completo para as empresas de aviação. Em meados do segundo semestre, a Gol começou a organizar a formação de um bloco de credores para poder negociar e pensar em um reperfilamento de seus compromissos mais profundo. O grupo foi formado e um acordo de confidencialidade foi assinado para que as conversas pudessem se desenvolver. Só que, novamente, a empresa teve de por as barbas de molho e esperar a digestão do novo cenário pelos investidores depois que o FED, o banco central americano, colocou o pé no acelerador na elevação da taxa de juro dos Estados Unidos, e também aguardar até que a Latam finalizasse os trâmites para garantir sua saída do processo de recuperação judicial.

A conquista da Gol, e da Abra, não foi só conseguir levar a cabo a renegociação em cenário tão desafiador: foi manter um grupo coeso de investidores interessados no processo por um período de seis meses. Por que isso é algo digno de nota? Porque esses acordos acabam por imobilizar os ativos dos investidores na empresa, pois os participantes da negociação passam a ser considerados detentores de informações privilegiadas. A paciência dos investidores nas negociações é algo a se atribuir valor, na visão de pessoas que participaram da estruturação de toda a transação, mesmo quando comparado a outros setores, de compreensão mais simples e menor risco. Dificilmente, apontam, um grupo ficaria seis meses bloqueado de movimentar sua posição até finalizar o acordo se as relações não fossem de confiança.

Apesar de ter organizado um grupo ainda em 2022, a Gol permitiu que não apenas esses credores participassem da reorganização, mas outros também. Do total reperfilado, 80% vieram do grupo organizado ainda no ano passado e 20% foram adicionados depois, conforme a manifestação do interesse em aderir às novas condições.

Os planos para a Abra

O objetivo da criação de um grupo com diversas marcas abaixo é simples, porém crucial para esse setor: diluir riscos, com a presença em diversos países e situações econômicas, e maximizar as oportunidades, financeiras e operacionais. São seis frentes de oportunidades a serem exploradas, além da mais óbvia na gestão de compras: malha aérea, negociação com lessores e fabricantes de aeronaves, operação de carga, programas de fidelidade, a manutenção de motores e turbina e ainda toda frente de tecnologia da informação. A Abra já nasce também com duas preocupações centrais: acelerar o processo de redução das emissões de carbono pelas empresas e reforçar os projetos de segurança cibernética.

A gestão integrada de malha transformam a soma de Gol, Avianca e Sky como vitais no fluxo global de passageiros entre as Américas do Sul e do Norte e também da América Latina com a Europa. Bogotá, em um primeiro momento, e mais à frente Lima, quando a Sky integrar o grupo serão os grandes hubs para concentrar e espalhar viajantes sulamericanos mundo afora. Fontes que se dedicaram ao desenho estratégico da Abra garantem que há apetite para novas aquisições e que não estão descartadas parcerias, com troca de participações minoritárias, com grandes grupos europeus.

Nas relações com América do Norte, a Abra nasce com o pé em duas canoas e isso terá de ser definido no futuro. Enquanto a Gol é parceira da American Airlines, a Avianca opera com a United Airlines. Situação semelhante, mas sem envolver investimentos em ações, ocorre na Europa. O principal parceiro da Gol é a KLM/Air France, equanto que a Avianca tem acordos com o grupo IAG, que reúne British Aiways e Ibéria.

Essas são definições que, ainda não imediatas, terão de ocorrer com alguma celeridade. Outra coisa que já está em desenvolvimento é a criaçâo de um câmbio para os programas de milhagens existentes dentro do grupo. O objetivo é que os clientes possam usar seus créditos dentro das empresas do grupo. E, na frente cargueira, há um mundo a ser explorado ainda, em especial pela Gol, que poderá se aproveitar da experiência e do posicionamento da Avianca nesse mercado.

Exceto por cargueiros dedicados ao Mercado Livre, a Gol só explora - e ainda com potencial de ampliar - o mercado de cargas via porão das aeronaves. Com a transformação de Bogotá em um hub junto com Avianca, a companhia pode, além de aumentar o transporte de cargas via porões, vir a operar cargueiros próprios.

Dessa forma, a Abra tem duas alavancas grandes de expansão: o aumento do mercado de viajantes na América do Sul - e o foco em baixo custo como diferencial também está no cerne da criação da plataforma - e o crescimento das oportunidades no setor de cargas, com a rápida evolução no varejo internacional online.  O Brasil, de acordo com dados da Associação Latino-Americana e do Caribe de Transporte Aéreo (Alta), a taxa de embarque per capital no Brasil, em 2019, era de 0,5, comparado a 1,2 no Chile, 2,6 nos Estados Unidos e 4,5 na Espanha.

Com a Abra, e o conceito de hubs continentais de passageiros, ficará mais simples a abertura de novos destinos pelas companhias. Por exemplo, neste mês, a Avianca vai estrear um voo que parte de Belo Horizonte para Boston, passando por Bogotá. É a concentração de passegeiros de diversas origens do continente na capital colombiana que facilitará a distribuição, a partir de la, para um número cada vez maior de destinos nos Estados Unidos.

Dentro da Abra, as empresas vão continuar sua gestão operacional e comercial de forma quase independente. A ideia é que as empresas sigam "falando as línguas" de seus países de origem, ou seja, preservando as relações com consumidores, governos e todo o mercado. Contudo, dentro da Abra, será possível realizar um benchmark genuíno de indicadores operacionais e as companhias da plataforma poderão buscar excelência nos resultados.

A gestão da Abra será conduzida por Constantino Júnior, que assume como CEO com um contrato inicial para três anos, conforme o EXAME IN apurou. Ao lado dele estarão, Richard Lark, atual vice-presidente financeiro da Gol, como presidente da Abra, e ainda Adrian Neuhauser, atual presidente e CEO da Avianca, como Deputy CEO. Eles estarão justamente com o foco de suas atividades direcionado ao benchmarking e às oportunidades de ganhos de eficiência.

Serão eles os responsáveis por demonstrar que o grupo tem razão de existir para além da soma das partes. O que querem fazer juntos? Além da execução do plano operacional, fazer com que a Abra busque os melhores múltiplos do setor. Com modelos semelhantes, é possível ver de um lado a IAG, negociada a aproximadamente 5 vezes Ebitda, e do outro, a Ryanair, pela qual os investidores aceitam pagar um múltiplo de 11 vezes.

No tempo em que a Panair encantava o mundo, Carlos Drummond de Andrade vivia tentando decidir se o mundo era grande ou pequeno e se seu coração era maior ou menor do que ele, até que enfim no poema "O caso do Vestido" decidiu-se: "O mundo é grande e pequeno". É nesse mundo que a Abra quer atuar.

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Graziella Valenti

Graziella Valenti

Editora Exame IN

Criadora do EXAME IN, espaço dedicado à cobertura de negócios, com foco em mercado de capitais. Na EXAME desde março de 2020, ficou 13 anos no Valor Econômico, oito como repórter especial, sete anos na Broadcast, do Grupo Estado.

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