Gustavo Franco: Um plebiscito contra a fadiga
Economista analisa desconforto crescente entre o Palácio do Planalto e o Banco Central às vésperas do pleito


Gustavo Franco
Economista
Publicado em 4 de julho de 2026 às 16:00.
O principal adversário do presidente que concorre a seu quarto mandato é a fadiga. Há diversos livros bons sobre os dramas de líderes longevos. Para ficar nos latino-americanos, vale destacar “O Outono do Patriarca” (de Gabriel Garcia Márquez) e o “Recurso do Método (de Alejo Carpentier). São clássicos e não há como escapar dos enredos ali descritos.
A idade vem para todos, líderes e regimes. É inexorável o envelhecimento da pessoa e do projeto: o “primeiro magistrado” (é como Carpentier designa o presidente) sente-se só e não há outro propósito senão o de deixar-se ficar.
A longevidade do líder tem muito a ver com a inexistência de herdeiros e com a tibieza dos projetos alternativos, tanto da oposição quanto da situação. Mas não é um acidente. Tampouco um esquecimento da autoridade: o que pode ser mais ameaçador que um substituto especialmente preparado pelo titular, pronto para começar sua missão antes do tempo?
Muitos líderes são longevos porque não preparam sucessores, nem seus partidos, para existir sem eles. A eleição que se aproxima com irritante lentidão vai se tornando um plebiscito sobre um presidente longevo. Sublinhe-se, não há nem herdeiro, nem programa.
A página inteira de jornal tomada por programas sociais e bondades eleitorais com impecável curadoria marqueteira, cada programa com seu material publicitário, não é um programa de governo, ou uma ideia de país.É, na verdade, um poderoso combo eleitoral de altíssima octanagem.
Na visão dos economistas, da maior parte deles, na verdade, ressalvadas as exceções de sempre, o pacote eleitoral bem demonstra a continuidade da inconsistência entre as políticas fiscal e monetária, cuja expressão mais flagrante é a taxa de juros, que o governo acha que não lhe pertence, e que não consegue fazer cair.
Claro que os juros não podem cair se a política fiscal só fica pior.
O que podem fazer os dirigentes do Banco Central do Brasil se lhes é dada uma meta de inflação que não funciona com o resultado fiscal que o Palácio entrega?
Mas o presidente da República não está pensando em herdeiros, ou na continuidade do seu projeto. O único herdeiro da inconsistência é o impasse. Na verdade, não se concebe que a presente inconsistência possa se manter por muito mais tempo, sem provocar uma mudança de rumos.
O Brasil parece procurar estabelecer a máxima de Lampedusa (tudo tem que mudar para que tudo fique como está) só que ao contrário: é preciso manter as coisas como estão, inclusive com este mesmo Presidente, para que tudo possa, afinal, mudar.
Pois é.
Enquanto não muda, o Banco Central do Brasil precisa articular a espera, um enorme desafio de comunicação. Na verdade, quando se estuda a disciplina “comunicação para bancos centrais” não há notícia de protocolos para a defesa de uma política fiscal inconsistente com a meta, para não dizer coisa pior.
Parecem próximos de se esgotar os primeiros meses de harmonia entre o Palácio do Planalto e o seu indicado para a presidência do Banco Central. O Palácio emite sinais de desconforto com os comunicados da Autoridade Monetária, o que pode trazer o Doutor Sidônio para o comitê de redação dos comunicados do COPOM.
Para evitar isso, ao que tudo indica, o presidente Galípolo explicou que o Banco Central do Brasil não deve se exceder em explicações.
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Gustavo Franco
EconomistaGustavo Franco é sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central do Brasil
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