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Fernando Rocha, da JGP: "Devemos conviver com mais dissenso no BC daqui para frente"

Para economista-chefe da gestora, há espaço para cortar juros de 50 em 50 pontos-base até o fim do ano

Fernando Rocha: estimativas da gestora são de inflação em 4,8% para 2023 (JGP/Divulgação)
Fernando Rocha: estimativas da gestora são de inflação em 4,8% para 2023 (JGP/Divulgação)
Karina Souza

Karina Souza

3 de agosto de 2023 às 10:59

O corte da Selic em 0,50 ponto percentual já era esperado por Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da JGP, como o executivo afirmou em entrevista ao EXAME IN. A confirmação do percentual veio nesta quarta-feira, em uma votação historicamente apertada, de cinco votos a quatro, definida pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. A divergência dentro do Copom chamou a atenção da mídia, mas, para o executivo, trata-se de um processo natural dentro do órgão, considerando o processo de independência do BC e as diferenças com o governo atual. "Minha avaliação é de que a busca será por um consenso na próxima reunião, mas não sei se ele se mantém dali para frente. Se aparecerem dados muito favoráveis, acho que vai ter gente querendo acelerar o passo e as discordâncias devem se acentuar", diz Rocha.

De todo modo, na visão da gestora, o ritmo de cortes, caso siga no patamar atual, não representa um risco para o país -- dada a distância entre o juro real projetado tanto pelo BC quanto pelo mercado. Considerando as diferenças entre um e outro, a Selic nominal ficaria entre 8% e 9%. Para a JGP, a estimativa de IPCA no país deve ficar em torno de 4,8% para este ano, com 3,9% para 2024. Fatores como a atenção à alimentação e ao comportamento dos mercados globais seguem na mira da gestora para acompanhar o cenário brasileiro daqui para frente.

Leia abaixo a entrevista completa: 

O Copom sinalizou que irá manter os cortes na mesma magnitude de 50 em 50 pontos-base... Esse deverá mesmo ser o ritmo a ser seguido?

Acho que sim. A gente estima uma taxa neutra bem abaixo da taxa atual. O Banco Central tem uma estimativa de 4% de juro real neutro. Usando o Focus, por exemplo, que aponta inflação longa de 3,5%, isso resultaria em uma Selic neutra nominal de 8%. Mas acho que o mercado tem um valor acima disso, considerando 5,5% de juro neutro, que daria uma Selic de 9%. Mesmo com essa divergência, existe um espaço grande para cortar. A dúvida para o passo inicial, se era 0,25 ponto percentual ou 0,50, se deve muito à comunicação na ata passada. O Copom falou que um grupo estava na dúvida se já sinalizava corte e outro grupo já tinha decidido sinalizar, mas que concordavam que o passo inicial seria muito gradual, o comunicado usou palavras ali de paciência e parcimônia, que indicariam 25 p.p. Acho que a opção de quem votou por 25 não seria a de continuar nesse compasso para sempre, mas de começar devagarinho... E o majoritário percebeu que 25 era um passo muito pequeno e resolveu já começar com 50. 

Há uma chance de que esse cenário se amplie ainda mais, indo para 0,75 ponto percentual?

O BC quis passar a mensagem de que 50 é o passo ideal, tentando dar um guidance de que vão manter esse passo, em uma tentativa de frear um pouco o mercado. De qualquer forma, acho que vamos ver muito do que depender dos números. É muito difícil frear o mercado só com comunicação. O mercado percebe que as coisas vão mudando e se ajusta. Por exemplo, da reunião passada para essa, o cenário evoluiu favoravelmente e as estimativas foram caminhando para colocar 50 apesar da sinalização de 25. Depende muito dos dados, mas de qualquer forma, a mensagem por enquanto é a de que foi necessário começar com 50 e que devem seguir com 50. 

Muita gente destacou o fato de que foi uma decisão apertada. Como o sr. avalia essa divisão dentro do Copom? As coisas devem ficar mais unânimes daqui para frente?

Minha sensação é de que vamos conviver com um maior dissenso daqui para frente. Pela própria natureza do regime. A gente tinha antes uma situação com um presidente do BC, que escolhia os diretores, que eram submetidos pra aprovação no Congresso, mas havia uma hierarquia muito clara. Hoje você tem uma situação em que o BC ficou independente de fato e os diretores têm mandatos, já trazendo mais autonomia. Acrescente a isso o fato de que o governo tem uma visão diferente da do atual presidente do BC. Criou-se uma situação em que o ambiente favorece mais dissenso.

Minha avaliação é que a busca será por um consenso na próxima reunião, mas não sei se ele se mantém dali para frente. Acho que, na próxima reunião, se não tiver muito dado diferente, deve ser um corte unânime de 50. Agora, se aparecerem dados muito favoráveis, vai ter gente querendo acelerar o passo as discordâncias devem se acentuar. Eu esperaria conviver com um pouco mais de dissenso. E à medida que tiver mais substituições na diretoria, isso vai se acentuando. 

No que a decisão atual interfere na necessidade de correção de juros futuros?

O DI curto estava dividido entre 25 p.p. e 50 p.p. Como deu 50, vai cair juro curto, pode ser que juro longo incline um pouco. O fato de o BC estar indo mais rápido significa que tem mais risco lá na frente, vamos dizer assim. Mas acho que a parte mais longa não vai subir, é só que a ponta curta vai cair. A gente chama isso de bull steepening, a parte curta cair um pouco mais rápido do que a longa. 

E em relação à inflação? Ainda é cedo para traçar conclusões definitivas, claro, mas quais são as estimativas da gestora?

Estamos construtivos. Temos uma estimativa para esse ano de 4,8%  de IPCA. Não vamos mais ter deflação. Nossa estimativa para o IPCA de julho é de 0,07%, depois tem agosto e setembro e estamos entre 0,30% e 0,40%, algo assim. Para o ano que vem temos de 3,9% Em 2024, esperamos que o preço de serviços ainda tenha certa resiliência porque a parte fiscal está expansionista, o governo está gastando mais, tem muita transferência, desemprego está baixo.

Nossa estimativa é a de que a inflação de bens industrializados caia mais, a inflação de serviços caia menos, a parte de alimentação esse ano foi boa mas ano que vem já deve ser diferente. Enfim, as coisas se equilibram. Tenho dificuldade de ver o índice indo para 3%, mas acho que o balanço de risco está favorável, temos chance de revisar um pouco para baixo do que pra cima no ano que vem. Tem risco de El Niño, acho que globalmente commodities tão caindo, tem parte de industrializados que vai continuar baixa e a grande dúvida é a parte de serviços. Fato de ter começado com 50 não piora em nada esse balanço de riscos daqui para frente.

E em relação ao cenário internacional? O que veem?

Temos um cenário de descasamento de ciclo monetário. O Brasil já parou de subir, está começando a cortar, o Chile cortou mais do que o esperado. A América Latina, de um modo geral, tem um peso maior de commodities no índice de preço via alimentação. Quanto mais baixa a renda, maior o peso de alimentação no orçamento doméstico. No IPCA, alimentos no domicílio pesa 15% e fora 7%, um total de 22%. Nos Estados Unidos o peso é bem menor, a renda é maior, dilui mais. Esse efeito subiu muito no primeiro momento, mas como já está caindo, resulta em uma queda mais rápida por aqui. Já nos nos países desenvolvidos isso dilui e aí entra um pouco mais a parte do mercado de trabalho e serviços. Deu esse descasamento de ciclo. Mas acho que o pessoal vai caminhar para um platô. Fed tá perto, Europa e Reino Unido um pouco mais atrasado. 

Como o Brasil pode ser afetado por isso?

Brasil vai ser um pouco limitado pelo juro do Fed. Se demorar a cortar, ficar ali entre 5,75% e 6% parado muito tempo, chega num ponto que 9% aqui com 6% lá é um par meio complicado. E geralmente quando a diferença fica muito pequena, a taxa de câmbio é que sofre. O câmbio valoriza muito quando estamos com juro alto e tende a desvalorizar em juro baixo em relação aos Estados Unidos. E aí o câmbio influencia inflação, então tem que medir isso, vai ser importante pra se acompanhar, política monetária global e Fed alavanca do mundo.

Que outros pontos merecem atenção daqui para frente?

Aqui a gente tem que acompanhar desdobramento da política e das proposições que estão vindo. Acho que não tem nenhuma surpresa, estamos vendo o plano. Uma coisa importante vai ser monitorar metas fiscais. Ouvi dizer que vão fazer orçamento com meta de primário zerada. Então a execução fiscal vai ser um ponto importante a se monitorar aqui. Lá fora, a política monetária e a evolução da própria inflação. Tanto aqui quanto lá, quanto mais rápido cair e pensarmos lá fora pr flexibilizar, melhor para a gente, vamos surfando um período bom. 

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Karina Souza

Karina Souza

Repórter Exame IN

Formada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduada pela Saint Paul, é repórter do Exame IN desde abril de 2022 e está na Exame desde 2020. Antes disso, passou por grandes agências de comunicação.

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