Quona Capital levanta US$ 332 mi com novo fundo para investir em mercados emergentes

Montante excedeu as expectativas iniciais de captação da companhia, de R$ 250 milhões
Jonathan Whittle: Brasil tem muitas oportunidades para fintechs, o que reforça otimismo da firma (Quona Capital/Divulgação)
Jonathan Whittle: Brasil tem muitas oportunidades para fintechs, o que reforça otimismo da firma (Quona Capital/Divulgação)
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Karina SouzaPublicado em 08/11/2022 às 11:06.

A Quona Capital, firma de venture capital focada em fintechs de mercados emergentes, levantou US$ 332 milhões em uma rodada recém-concluída para seu terceiro fundo — um montante que excedeu as expectativas iniciais da companhia, de captar US$ 250 milhões. O dinheiro já começou a ser aplicado em diferentes regiões, inclusive na América Latina e, mais especificamente, no Brasil.

Em outubro, a companhia liderou a rodada série A da Franq Open Banking, fintech que conecta clientes e empresas a produtos financeiros de mais de 50 provedores, que totalizou US$ 12 milhões. “A região tem muitas oportunidades para o segmento em que atuamos e estamos muito otimistas em relação ao futuro”, diz Jonathan Whittle, co-fundador da Quona Capital e sócio-diretor responsável pelo investimento na América Latina, ao EXAME IN.

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Hoje, a firma investe em 14 empresas na América Latina, o que o executivo admite ainda ser pouco diante do potencial que pode ser conquistado. No Brasil, estão nomes famosos, como Creditas, Neon, Kovi e Contabilizei, empresas nas quais a Quona entrou em rodadas iniciais e com as quais pôde colher os benefícios do desenvolvimento e do crescimento de cada uma delas. Ainda na América Latina, a empresa também investe no México e na Colômbia.

Apesar do potencial que a região apresenta, ela está longe de ser a única alvo dos aportes da Quona Capital. A firma, que tem como missão investir em startups que olhem para consumidores ‘mal atendidos’ por soluções de mercado — seja o público final propriamente dito ou PMEs — ainda faz aportes na Índia, Sudeste Asiático, África e Oriente Médio. Hoje, as startups investidas pela firma atendem 8,8 milhões de pequenas e médias empresas (sendo que 80% não eram atendidas de forma adequada antes), 30,2 milhões de consumidores de varejo e já geraram US$ 836 milhões em receita. 

Entre os investidores dos fundos gerenciados pela firma, estão gerentes de fundos globais, empresas de seguros, bancos, fundações e family offices. A maior parte dos recursos para o fundo mais recente veio de investidores que já tinham algum relacionamento com a gestora. Ao todo, somando todas as captações feitas de 2015 para cá, a companhia já levantou US$ 745 milhões e fez aportes em mais de 65 empresas.

Whittle não aborda claramente os retornos de cada um dos fundos, mas afirma estar entre “os principais” do mercado, um benchmarking que a empresa gosta de manter. “Queremos trazer bons retornos ao mesmo tempo que procuramos investidores dispostos a fazer alguma diferença no mundo. Aliamos retorno financeiro ao impacto social mensurável e temos conquistado cada vez mais a confiança de investidores em relação a isso”, diz.

Apesar de ter presença global, a firma investe com uma única tese no mundo todo e procura uma atuação bastante coesa em cada uma das regiões onde está presente. Por isso, atua principalmente sozinha, a partir dos relacionamentos cultivados em cada um dos lugares — ainda que não tenha problema nenhum em realizar co-investimentos, como o feito de forma mais recente no Brasil. Do lado de cá, para garantir a atuação local, a empresa mantém um escritório em São Paulo, além de contar com a experiência do próprio co-fundador em mais de duas décadas investindo em empresas na América Latina.

Além de Whittle, a gestora conta com Monica Brand Engel e Ganesh Rengaswamy, responsáveis por investimentos na África e na Índia, respectivamente. Ao todo, são profissionais em mais de 10 países e que falam mais de 20 idiomas. Ou seja, dados que deixam clara a abordagem com viés local. 

A procura é, claro, por fundadores que tragam negócios consistentes, dentro do mercado financeiro, e cujas soluções sejam realmente demandadas por aqui. Aspectos como crédito e pagamentos (especialmente agora que o PIX se torna cada vez mais disseminado pelo país) são alguns exemplos do que está na mira da empresa daqui para frente, em um olhar bastante local. Ainda assim, ‘dores’ como a de uma plataforma única de reunir pagamentos para pequenas e médias empresas são comuns a outras regiões em que a empresa está presente, principalmente a Europa. 

“Nós temos visto como o Banco Central abriu espaço para novos entrantes. É um cenário completamente diferente do que vimos há cinco anos, em que, hoje, é possível encontrar empreendedores que já trabalharam nas primeiras fintechs do país e que, hoje, querem construir algo próprio. Isso nos chama muito a atenção, junto ao fato de que o Brasil ainda tem uma concentração bancária altíssima e, portanto, muito espaço a ser conquistado por fintechs. Estamos animados para ver as novas dinâmicas competitivas dentro do setor e nos inserimos nelas”, diz Whittle.

As oportunidades estão principalmente no seed stage, refletindo o cenário mais complicado globalmente com o aumento dos juros. Ao contrário do que se viu na pandemia, agora, a firma consegue observar valuations “mais razoáveis”, segundo o executivo, e também com mais tempo de análise do que no ano passado, por exemplo. “É importante entender que 2021 não é a norma para o setor, foi um ponto fora da curva. O que a gente deve ver é um cenário mais racional, como o de agora”, afirma. 

Em meio ao ‘inverno’ das startups, o que a Quona Capital recomenda para as empresas em que investe  — estando elas na América Latina ou não — é que evitem fazer rodadas maiores ao longo do próximo ano ou até ano e meio e que, às que têm a chance de se tornarem lucrativas ao longo desse tempo, que o façam.

É um sinal passageiro, segundo Whittle. “Estamos muito otimistas com o setor e acredito que não somos os únicos a ver isso. Fintechs têm sido uma enorme oportunidade de retorno e investimento aqui, nos Estados Unidos e na Europa. Estamos apenas no começo da transformação”, afirma.