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O que o Google disse aos colaboradores depois de demitir 12 mil

Em conferência global de aproximadamente uma hora, porta-vozes não descartaram novos cortes

 (Artur Widak/Getty Images)

(Artur Widak/Getty Images)

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Karina Souza

23 de janeiro de 2023, 15h50

O Google realizou, nesta segunda-feira (23), uma conferência com colaboradores de todo o mundo para dar mais detalhes sobre o futuro da empresa após anunciar a demissão de 12 mil pessoas em todo o mundo. De acordo com fontes ouvidas pelo EXAME IN, Sundar Pichai, CEO do Google, Ruth Porat, CFO da empresa, e Phillip Schindler, vice-presidente sênior, afirmaram que não sabem o tamanho exato de quantas pessoas serão mandadas embora fora dos Estados Unidos e que não há previsão de quando esses layoffs serão realizados. O que deve acontecer, a partir de agora, é que cada country manager deve pegar as necessidades apontadas pelo time global e trabalhará com as equipes locais para entender como esse processo será feito. Questionados a respeito de uma nova onda de demissões, os porta-vozes presentes no comunicado apenas disseram que “é importante estar alinhado com as prioridades”. 

O tom é bastante similar ao de Mark Zuckerberg quando anunciou as demissões em massa na Meta: a projeção de que a receita cresceria mais rápido do que as despesas de contratação — algo que não se comprovou — foi um ponto mencionado por Ruth Porat, CFO do Google, durante a conferência. Ainda assim, a executiva não apontou o fato como um erro, mas sim como um mecanismo necessário para que a empresa conseguisse reagir à época dos desafios da covid-19 e atender clientes da melhor maneira possível. 

Para quem fica no Google, houve uma tentativa de um discurso motivador. Pontos como a importância do que a empresa faz e o tamanho da responsabilidade com a qual terão de arcar daqui para frente foram enfatizados aos colaboradores, num tom de que “realizar esse trabalho ao lado de pessoas incríveis é fundamental”. 

Os porta-vozes também endereçaram um assunto comentado pela mídia no exterior nesta segunda-feira: o comunicado enviado pelo TCI Fund Management, fundado por Christopher Hohn (que tem uma posição de US$ 6 bilhões na Alphabet) de que a companhia de buscas teria de cortar muito mais empregos do que anunciou até agora. Em vez dos 6% anunciados até o momento, o investidor sugere um corte de 20% da força de trabalho, ao todo. Em resposta ao comunicado, Porat afirmou que o Google “escuta acionistas por ser uma empresa aberta, mas nenhum investidor guia as decisões da empresa”. 

O ajuste de custos, feito agora, não significa uma interrupção nas contratações, mas sim um ajuste para a empresa procurar profissionais dentro das suas principais estratégias de negócio — e que as demissões foram realizadas com base em critérios rígidos de performance e produtividade, envolvendo cerca de 700 líderes nesse processo. 

É uma resposta ao fato de que colaboradores com uma longa carreira dentro da empresa foram demitidos, como o The Information mostrou na última sexta-feira. O veículo especializado norte-americano apontou, ainda, que, dos cortes realizados até o momento, a única unidade não afetada foi a de Inteligência Artificial. 

Google e Inteligência Artificial

Não foi sem razão. Na última semana, o Google ativou um “código vermelho” dentro da empresa, como apontou o NYT, depois que a Microsoft anunciou que deve acoplar a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT em seus produtos, indo desde o motor de buscas Bing até os recursos Azure, de nuvem para empresas. O fato fez a gigante de buscas até mesmo convocar de volta os co-fundadores Larry Page e Sergey Brin para lidar com essa nova ameaça.

Com o pronunciamento aos colaboradores, o Google deixa claro que está se preparando para responder ao novo desafio com força total. A empresa já tinha algumas iniciativas de IA dentro de casa, sendo um dos mais conhecidos o LaMDA (acrônimo para Language Model for Dialogue Applications), um chabot bastante parecido com o que o ChatGPT faz e que, inclusive, ganhou as manchetes no último depois de declarações de Blake Lemoine, engenheiro do Google, afirmar que se tratava de uma inteligência artificial que “ganhou vida”, algo que meses depois não se mostrou verdadeiro. 

O que aconteceu, a partir da semana passada, foi que a corrida ficou visivelmente mais acirrada. O ChatGPT tem falhas, é claro (ainda mistura realidade com ficção em muitas perguntas realizadas a ele) mas já atingiu avanços importantes: consegue completar linhas de códigos, roteiros de viagens e outras tarefas. Que podem, é claro, ameaçar a forma como se navega na internet e busca-se por soluções para problemas variados.

Uma matéria publicada pelo New York Times no fim do ano passado esmiuçou esse assunto em detalhes e trouxe (aprofundando ainda mais o olhar para dentro dele) uma conclusão relevante: o Google tem uma limitação importante em responder perguntas feitas diretamente à plataforma, uma vez que isso poderia impedir ou reduzir significativamente as propagandas mostradas na plataforma, que hoje respondem por 80% da receita. 

Para referência, de acordo com os dados disponíveis até o momento, o montante atingido pela Alphabet (dona do Google) em receita no terceiro trimestre do ano passado foi de US$ 69 bilhões, aumento de 6% na comparação anual. O lucro líquido foi de US$ 13,9 bilhões, queda de 26% ante o mesmo período do ano anterior.

Ainda assim, não há motivo para pânico, ao menos na visão do Morgan Stanley. Em relatório divulgado no dia 10 de janeiro, o banco afirmou que a concorrência acirrada poderia levar a uma redução de margens da gigante de busca, mas que poderia provocá-la a reagir rapidamente com novas ferramentas. Uma das vantagens nesse processo é justamente a escala: com o tamanho do Google, é cerca de sete vezes mais barato investir nesse tipo de pesquisa do que para a OpenAI, dona do ChatGPT.