IPO da Méliuz pavimenta caminho de startups digitais na B3

Amanhã, dia 5, é a vez de Enjoei definir preço para IPO que pode movimentar mais de R$ 1 bilhão

No mesmo dia em que os Estados Unidos foram às urnas escolher entre o republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden, o Brasil também fazia história. Mas talvez poucas pessoas se deram conta. Em um dia tão agitado quanto poderia ser uma disputadíssima eleição presidencial americana em 2020, a Méliuz, companhia mineira de cashback, batia o martelo para fechar sua oferta pública inicial. A operação totalizou 662 milhões de reais, com a ação a 10 reais cada.

E por que o IPO da Méliuz está fazendo história? Simples: porque abre a porta para uma fila de companhias digitais e startups virem para a bolsa. Pode parecer exagero, mas profissionais do mercado de capitais juram que não e que há uma revolução para acontecer. A lista de mandatos de novatas techs que planejam listar ações na B3 já passa de uma dezena.

O fato de uma companhia com tão poucos anos de vida, com receita de 62 milhões no primeiro semestre do ano, ter sucesso na sua colocação de ações e em uma semana com previsão de tanta volatilidade é notável. O preço da ação ficou em 10 reais, no piso da faixa sugerida de preço. Dos três últimos IPOs anteriores, Sequóia, Grupo Mateus e Track&Field, dois saíram abaixo do piso.

A demanda clean dos investidores, ou seja, no preço vendido, alcançou 3,5 vezes o livro de ofertas. Havia condição de o valor sair maior, mas todos os participantes — companhia e bancos de investimento — entenderam que era importante a construção de uma história positiva para todos. “O IPO não é fim da história com o mercado, é o começo”, reforça uma fonte envolvida com a transação. E o ponto de partida da empresa mineira é uma avaliação de 1,2 bilhão de reais, conforme o preço definido pelos investidores.

A história da Méliuz contribui e muito para pavimentar a ponte entre o venture capital — mais investidores anjos e capital semente — e a bolsa. Quanto maior e mais variada for a porte de saída para os investidores de companhias em seu estágio inicial, maior tende a ser o volume de recursos disponíveis. Há cinco anos, a indústria de venture capital no Brasil ainda engatinhava, com um total de 5,4 bilhões de reais investidos. Ao fim do ano passado, esse montante já superava 31 bilhões de reais, segundo dados da Associação Brasileira de Privat Equity e Venture Capital (ABVCAP).

A estreia no pregão acontece amanhã, dia 5, mesmo dia em que mais uma companhia da era digital decide seu IPO. A plataforma de venda de moda usada Enjoei definirá o preço para os seus papéis. No centro do intervalo sugerido, a operação pode movimentar mais de 1 bilhão de reais. A companhia, fundada pela publicitária Ana Luiza McLaren como um blog, está fazendo barulho desde que colocou os pés na fila de registro da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). É considerada por muitos como o IPO mais sexy da temporada 2020, pela combinação com economia da recirculação e inovação digital.

Ana Luiza tem impressionado o mercado em suas apresentações. E o negócio havia atraído competição entre fundos interessados em ancorar a transação. Um dos pontos mais sensíveis e questionado é a concentração do forte crescimento no curto prazo. Alguns investidores se perguntam se o forte movimento é fruto da pandemia e esporádico ou se há mesmo sustentabilidade para um ritmo mais pujante e continuado daqui para frente. Também o plano de expansão (com reforço dos serviços financeiros) têm sido esmiuçado, uma vez que o volume de recursos que a companhia pode receber com a oferta primária — acima de 500 milhões de reais — é algo ao qual a gestão nunca teve acesso antes.

O sucesso de Méliuz e Enjoei serão importantes para a guinada tech da bolsa brasileira. Há alguns anos, a B3 vinha preocupada se teria de desenvolver um ambiente à parte para esse segmento da economia, diante do crescimento que via das startups e dos investimentos de venture capital no país. Havia estudos externos sobre estruturas societárias possíveis e outras iniciativas. Nos Estados Unidos, esse universo da economia deslanchou após a criação da Nasdaq, onde hoje estão listadas as maiores empresas do país, como Amazon, Apple, Google e Facebook.

A expectativa é que, com a vinda de mais companhias, todo o mercado aprenda a desenvolver um ambiente promissor para essas empresas — independentemente de existir qualquer tipo de iniciativa da bolsa nesse sentido. Até poucos meses atrás, a B3 era lugar apenas para as companhias líderes de importantes setores da economia. Os investidores estavam habituados ao gigantismo dos números dos negócios.

Na vida das startups as únicas coisas gigantes são a velocidade de crescimento e de consumo de recursos. Por isso, há toda uma outra forma de comunicação a ser trabalhada pelos bancos de investimento e outros bolsos a serem procurados. Do lado do investidor, é preciso um aprendizado sobre o que é importante saber antes de colocar dinheiro em um negócio nesse estágio de desenvolvimento. As lições vão desde o que deve ser questionado nas apresentações iniciais até como encarar a montanha-russa que pode ser o valor de mercado e o balanço dessas companhias.

Da lista de quatro pretendentes a IPO que foram à CVM, Housi e Wine desistiram. A plataforma de e-commerce de vinhos que tem entre os sócios mais relevantes a Península, holding do empresário Abilio Diniz, também iria precificar as ações nesta quarta-feira, mas acabou optando por postergar a transação.

 

 

 

 

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