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IG4 vira destaque em ESG: novo ativo no Chile e fundo de US$ 500 mi

Fundador da casa, Paulo Mattos, vira um dos principais defensores do "ESG in action": a causa como vetor de mudança e não de seleção

A IG4, gestora de private equity criada por Paulo Mattos no fim de 2016, já fez investimentos de US$ 1,1 bilhão em ativos. Dedicada a oportunidades de transformação de companhias, seja via recuperação de dívida ou turnaround de governança, a casa está prestes a anunciar a mais recente aquisição do Fundo II, uma empresa de galpões e armazéns logísticos no Chile. Esse é o último investimento da carteira. Por isso, também vai dar a largada na captação para o terceiro fundo, que deve ser de aproximadamente US$ 500 milhões. Ou seja, vai ampliar o total investido em quase 50%.

Com o novo fundo, Mattos não vai ficar muito distante de um portfólio de investidas de R$ 10 bilhões. Ele está na COP26, em Glasgow (Escócia), de onde concedeu uma entrevista exclusiva ao EXAME IN. A IG4 é uma das raras empresas de investimento a ter um certificado B-Corp — nas quais, além do retorno aos acionistas, o negócio, os produtos e os serviços oferecidos devem trazer benefícios para a sociedade e ao meio ambiente.

Mesmo sem que a IG4 seja uma gestora de impacto, por definição, Mattos vem se tornando uma das principais vozes entre os brasileiros, da indústria financeira, a defender um ativismo ESG nos investimentos — o que ele chama de “ESG in action”. O que isso significa, na prática? Integrar as métricas ESG nos chamados indicadores-chave de performance (KPIs) e usá-los para promover a reestruturação da empresa. “Não é usar o ESG para filtrar investimentos, mas para guiar transformações”, explica Mattos. É o que a IG4 tem feito nos seus próprios investimentos.

O caso da Iguá, companhia de saneamento que nasceu do primeiro investimento, em 2017, a partir da aquisição da CAB Ambiental com um processo de reorganização de dívidas, conquistou destaque e tornou-se alvo de apresentação no evento internacional. É o investimento mais maduro da gestora.

A companhia conquistou notas superiores a de companhias de saneamento da América do Norte e da Europa nos quesitos ESG do relatório da holandesa Gresb, que coleta, valida, avalia, produz parâmetros, atribui notas e produz inteligência de dados para que o universo financeiro consiga, sob a ótica do ESG, comparar empresas do mesmo setor mundo afora. A avaliadora é dedicada a ativos da economia real, como infraestrutura e o mercado imobiliário.

Mattos explica que a IG4 tem como meta transformar todas as suas investidas em B-Corps. Todas elas são signatárias do Pacto Global da ONU e dos princípios para investimentos responsáveis (PRI) e têm metas de evolução de seus indicadores ESG. Esse é o piso. Mas a questão central é colocar o ESG dentro das métricas de retorno e gestão.

Durante a COP26, a gestora de Mattos também assinou sua participação no Net Zero Asset Managers (NZAM), grupo de gestores de recursos que atuam para apoiar o compromisso de redução na emissão de gases até 2050. Esse coletivo reúne mais de 130 gestoras, com um total de ativos sob gestão superior a US$ 57 trilhões.

Além da Iguá, a IG4 é dona da Opy Health, uma rede de infraestrutura hospitalar, da Aenza, antigo grupo peruano de concessões Graña Y Montero, do Terminal de Grãos do Maranhão (CLI). Agora, deve assinar a compra da empresa chilena — que marca a entrada naquele país. Com isso, 40% do portfólio estará na América Latina, mas fora do Brasil. A Iguá foi uma das vencedoras do processo de privatização da carioca Cedae, que foi vendida em quatro diferentes blocos.

Recentemente, a gestora, associada ao Macquire, o maior grupo de investimentos em infraestrutura do mundo, fez um lance para entrar no bloco de controle da companhia CCR, mas não houve acordo com os acionistas. A IG4 compraria a participação da Andrade Gutierrez, mas sua oferta pressupunha uma revisão do acordo com os demais controladores, os grupos Soares Penido e Mover (antiga Camargo Correa). Os sócios que continuariam no negócio, porém, entendiam que só deveriam discutir qualquer revisão do acordo societário se e depois que a IG4 comprasse as ações da AG, conforme a redação do acordo. Mas não era essa a proposta da gestora. Com isso, não houve sucesso no negócio. Sobre o tema, Mattos prefere não comentar. Confira abaixo os principais trechos da conversa:

O que é o ‘ESG in action’ que vocês defendem e por que essa filosofia é importante?

O conceito é simples. No lugar de você usar as métricas de ESG para filtrar os investimentos, ou seja, para fazer a seleção, você as usa para fazer o turnaround do negócio. Eu acredito que o segmento de private equity tem um papel fundamental para o sucesso do Pacto Global da ONU, pois ele prepara as médias empresas e desenvolve suas culturas. Até mesmo o Larry Fink, presidente da BlackRock [maior gestora de recursos independente do mundo] falou disso aqui [na COP26]. Muito se comenta sobre o padrão ESG para as companhias abertas, listadas em bolsa. Mas essas são já as grandes corporações. Quando nós entramos nas médias, a ideia é que essa cultura de integração se desenvolva e quando a empresa chegar à bolsa já vai ter isso arraigado, em estado de excelência. Não será mais uma preocupação de transformação, como é para muitas das empresas já grandes e com ações negociadas.

O que está dizendo é o contrário do que foi discutido por anos. No lugar de falar em custo extra, você usa os parâmetros ESG para tornar as companhias mais eficientes e darem maior retorno, é isso?

É isso. Nosso ‘flagship case’ é a Iguá, nossa investida desde 2017. Se considerar de onde ela veio e onde está hoje, é possível dizer não só que tem muita geração de valor, mas que os conceitos ESG ajudaram a fazer o turnaround. O investimento acumulado pela empresa é de R$ 900 milhões em quatro anos.

Como a Iguá conseguiu fazer isso?

É óbvio que o próprio investimento em saneamento já cria impactos positivos ambientais e sociais. Mas você pode fazer isso do jeito tradicional ou pode buscar inovações que te ajudem no caminho. Na Iguá, foram diversas iniciativas. A primeira coisa que fizemos foi pesquisar novas formas de expandir a rede e, no lugar de estruturas enormes de concreto, adotamos módulos de menor porte de aço carbono ou aço inoxidável. Essa escolha diminuiu o investimento, o impacto ambiental, acelerou a expansão da cobertura e diminui as despesas administrativas na perpetuidade, pela redução no gasto de energia. Isso tem um valor gigantesco. Energia representa 30% das despesas de uma companhia de saneamento, em média.

Inovação, então, é essencial nesse caminho ESG?

Sem dúvida. Não pode haver medo de inovar. Alcançar o Pacto Global passa necessariamente por inovação. E isso é a gestão do negócio que conduz. Ela precisa motivar e incentivar as pessoas a fazerem diferente. Mais do que isso, adotar como meta. Buscar por novos materiais e novas formas de consumir energia são essenciais. Esse interesse vai fomentando o desenvolvimento de novas cadeias globais. Os compromissos são para 2050. Faltam 28 anos. Mas esse tempo voa. Precisa começar a fazer agora.

Na Iguá, além do material, o que fizeram de diferente?

Foi feita a digitalização da rede e a adoção de medidores inteligentes. Essas iniciativas permitiram a companhia reduzir o índice de perda e roubo de água, que antes era 66%, para cerca de 35%. E a ideia é melhorar ainda mais, pois ainda está fora dos melhores padrões globais. Além disso, adotamos parcerias com fintechs para financiar o usuário final no momento de contratar um ramal de saneamento para sua casa, pois isso era um entrave para parte da população se conectar à rede. Muita gente não é nem bancarizada. Então, isso é impacto social também. Tudo isso somado fez a margem Ebitda subir de 32%, em média, para mais de 45%. E conseguimos dobrar a cobertura em Cuiabá, uma das nossas principais praças atendidas. Ou seja, está claro que estamos falando em geração de valor.

Qual a função do investidor e como ele deve se comportar em relação a essa transformação?

Tem que parar de pensar no ESG como “ser do bem”. ESG é métrica de gestão. Não é filantropia. É geração de valor e isso é que vai fazer com que o efeito se multiplique. No caso da IG4, fazemos uma due-dilligence sobre espaço para inovação, inclusive de materiais — e isso é algo muito importante — antes de decidirmos pelo investimento. Nisso, ajuda o fato de estarmos em várias partes do mundo. Nossa base fica em Londres, mas o time tem 31 pessoas, espalhadas em escritórios de São Paulo, Lima, Santiago e Madri e se divide entre especialistas de operação, ex-executivos que estiveram no chão de fábrica, e em investimento, propriamente.

E qual a importância de medir para acompanhar esse processo de evolução em ESG?

Tem que medir. É assim que a temática ESG pode ser associado aos indicadores-chave de performance. É um desafio ainda: criar mensurações que possam ter comparações, criar padrões na indústria. A Gresb, por exemplo, tem métricas que aplica globalmente. E tem empresas que fazem certificações. Ainda não existe um consenso, mas já existem algumas instituições importantes que fornecem padrões de medida e certificações. Esse desenvolvimento deveria envolver governos, reguladores, todo terceiro setor, sociedade civil, investidores. Hoje existe mais consistência, mas ainda tem muito para melhorar. E também acho que os fundos precisam ser medidos. Nós temos uma auditoria dedicada só para o fundo, para avaliar como nós, como gestores, acompanhamos, incentivamos e fiscalizamos essa evolução das investidas.

Você acredita que isso te torna mais competitivo para captação de recursos?

Não tenho dúvida. Eu capto com grandes fundos de pensão, fundos de fundos, multi family offices,  endowments. Hoje, ESG é uma necessidade, mesmo eles não sendo investidores dedicados. E isso é sim um fator de diferenciação. Os donos do capital são cobrados cada vez mais a prestar atenção ao tema. E, mesmo não sendo especializados, estamos nos destacando nessa frente, pois a forma como cuidamos do assunto atinge os objetivos desses investidores

Já participou de outra COP? Qual sua sensação ao retornar a essa?

Sim, estive na COP-14, da Polônia, em 2008. Na época, eu estava representando o BNDES na assinatura do Fundo Amazônia. Do ponto de vista de tamanho, mudou completamente. Tem representatividade muito maior. Você vê aqui hoje os CEOs das maiores empresas do mundo inteiro, dos maiores bancos e os maiores gestores de recursos. Além dos Estados e da sociedade civil organizada. Isso não era assim, há 13 anos. Há um interesse muito maior agora do setor privado, o que mostra o impacto da transformação e isso é muito importante. Esse compromisso precisa ser conjunto, pois existem setores em que você precisa mudar padrões de consumo e de organizações industriais. Precisa estar todo mundo pensando junto.

 

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