Fundos de crédito captam R$ 54 bi e CVM decide se vida volta ao normal

Em julho, carteiras de crédito privado veem dinheiro voltar e gestores querem fim de flexibilização de regras

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) decide ainda nesta terça-feira se vai prolongar a flexibilização de regras para ofertas de esforços restritos de títulos de dívida ou se vai deixar as permissões temporárias usadas para a crise vencerem no dia 1º de agosto. O assunto é tema da reunião de colegiado do dia e o resultado deve se tornar público no máximo amanhã. Durante a crise, os bancos puderam comprar os papéis emitidos pelas empresas e revender imediatamente para as pessoas físicas, com ganho. Era uma forma de compensar a ausência dos fundos de crédito no mercado, que foram alvos de saques pesados, o que prejudicava a captação de recursos pelas empresas, no momento em que elas mais precisavam.

A decisão vai radiografar o comportamento do mercado nesses três últimos meses. Entre as imagens estará o comportamento dos fundos de crédito privado dentro do que é a indústria da renda fixa. Até junho, os fundos de renda fixa tiveram resgate recorde de 95 bilhões de reais, em 2020. Só que esse fluxo foi concentrado nos 150 bilhões de reais retirados dos fundos de crédito privado de baixa duração. Os de livre duração também foram alvos de saques, mas de 9 bilhões de reais. O saldo líquido dos resgates do segmento geral foi menor, pois teve compensação dos 128 bilhões captados pelos fundos que investem em dívida pública, do governo.

O medo sobre o futuro das companhias, junto com a taxa de juros em queda, afetou principalmente o interesse nas carteiras que aplicam dinheiro na dívida empresariais.

Em julho, a fotografia começou a mudar de verdade, desde a pandemia. A captação do segmento renda fixa acumulada estava em quase 54 bilhões de reais, até dia 22. Dentro disso,  a mensagem mais importante é que houve uma ligeira captação nos fundos de baixa duração de dívidas corporativas, de 260 milhões de reais, e o volume que entrou nas carteiras de livre duração supera 12 bilhões.

Para estimular o mercado de crédito na crise, a CVM havia suspendido a exigência de lock-up de 90 dias para os compradores de emissão das dívidas. Ou seja, os papéis podem ser revendidos no mercado secundário logo após serem emitidos — não precisariam ser carregados por pelo menos três meses, como diz a regra para tempos normais. Essa flexibilização ajudou as companhias a emitirem, especialmente, títulos incentivados — que têm vantagens tributárias para investidores e grande apelo no varejo.

Os bancos trocaram as taxas de estruturação das emissões por comprar os títulos e garantir a demanda logo na largada. Então, as empresas passaram a emitir pela regra de esforços restritos, que é rápida (questão de dias), pois os papéis são oferecidos para poucos investidores profissionais. E deixaram de lado as ofertas públicas, que levam cerca de um mês e são abertas a todo o mercado.

Quase imediatamente após a emissão, os bancos revendem o que compram das companhias no secundário com a permissão da CVM e rentabilidades que podem alcançar entre 7% e 8% em dias para papéis de prazos mais longos (dez anos). Foi a alegria das tesourarias durante os três meses de vigência. E das companhias, que conseguiram levantar recursos em meio à pandemia. O comportamento virou praxe após uma emissão de 800 milhões de reais da Rumo em maio.

Contudo, conforme o fluxo dos fundos de crédito foi se normalizando e as captações começam a voltar, as gestoras de recursos querem participar de novo da festa na largada das colocações, mas não estão conseguindo — ou pelo menos, não na proporção que gostariam. As tesourarias gulosas querem continuar no giro rápido. As emissões em andamento de Light e da companhia de saneamento Iguá terão fatias maiores dedicadas a institucionais na alocação, o que sinaliza uma retomada da normalidade. Mas eles ainda vão sofrer um rateio grande — ou seja, ficar apenas com uma parcela do que pretendiam comprar. Mais um sinal de retomada da normalidade.

Entre os bancos, há grande expectativa que a CVM prolongue a flexibilidade, o que agrada as instituições pelos lucros de suas tesourarias. Mas é crescente o número de vozes que aponta no sentido de uma normalidade e distorções de fluxo, geradas pela retirada do lock-up — o que pode incluir até, daqui para frente, um custo maior para as empresas. O que foi bom durante a crise pode deixar de ser tão eficiente daqui em diante. Não está nada óbvio como o regulador vai decidir.

 

 

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