Ex-Petrobras, Castello Branco fica sem suporte para conselho da Vale

Agências de recomendação de voto não escolhem ex-presidente da Petrobras para eleição deste ano, o que pode atrapalhar sucesso da tentativa

Roberto Castello Branco, que acaba de deixar a presidência da Petrobras, após o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) optar pela sua substituição por Joaquim Silva e Luna, não encontrou respaldo das agências internacionais de recomendação de voto para a eleição como conselheiro da Vale.

São as duas companhias com maior representatividade no Índice Bovespa, somando quase 20% na composição do indicador. A Vale está avaliada atualmente em R$ 500 bilhões e a petroleira, em cerca de R$ 300 bilhões.

Nem ISS, nem Glass Lewis são favoráveis à indicação de Castello Branco, o que não deixa de ser uma surpresa, uma vez que o executivo foi transformado pelo mercado em uma espécie de mártir da independência política. Isso porque manteve a paridade dos preços de combustíveis no Brasil com os valores internacionais, em momento delicado do país, com ameaça de nova greve pelos caminhoneiros — o que despertou o temor de uma reprise de 2018 no Planalto.

Para completar o quadro que parecia favorável, Castello Branco foi executivo da Vale por 15 anos, entre 1999 e 2014. Período em que ocupou posições que variam de economista até  gerente de relações com investidores.

O ex-presidente da Petrobras faz parte de um grupo com quatro nomes que concorrem ao conselho da Vale, formalmente indicados por investidores nacionais como Lirio Parisotto e Victor Adler, mais diversos fundos como Tempo Capital, Poland, Alaska, Argucia e RPS. Trata-se de uma espécie de dissidentes, como classificou o ISS. Eles alegaram que a Vale precisa de uma maior independência no conselho.

Com eles, a Vale tem 16 candidatos para 12 vagas. Nenhum desses investidores que fizeram a recomendação aparece na lista de maiores acionistas da Vale.

ISS e Glass Lewis costumam ser importantes nas eleições. Em alguns casos, ainda são determinantes. Participam de uma longa cadeia de serviços de votos para investidores estrangeiros. A Vale tem diversos investidores internacionais de peso. Conforme lista publicada pela Glass Lewis com os dez maiores investidores, a Capital Research tem quase 18% do capital. Sozinha equivale a praticamente todo grupo de ex-controladores, com Previ, Bradespar, Mitsui, que somam 21% da empresa. BlacRock, nessa lista, aparece com 6,5%.

O resultado final do encontro vai depender do quão independente as gestoras internacionais conseguirão ser em relação às agências de voto, e da presença dos investidores nacionais.

O grupo de quatro nomes em que Castello Branco é sugerido como presidente do conselho inclui Marcelo Gasparino, advogado catarinense que conquistou espaço junto a investidores locais e internacionais e a quem muitos atribuem a articulação desse movimento dissidente, Mauro Rodrigues da Cunha, que construiu sua carreira pautada pela militância em prol do avanço das boas práticas de governança corporativa, e ainda Rachel Maia, ex-presidente da Lacoste e da Tiffany no Brasil e que tornou-se bastante requisitada para conselhos de companhias abertas.

A Vale, em julho do ano passado, constituiu um comitê de nomeação formado por Pedro Parente e Alexandre Silva, respectivamente presidentes dos conselhos de BRF e Embraer, e mais Maurício Coelho, presidente da Previ, antigamente participante do grupo de controle. Essa eleição é a primeira da Vale como empresa sem controlador definido, nem mesmo um grupo organizado sob um acordo de voto. A fundação é investidora relevante tanto da BRF como da Embraer. Esse grupo fez um trabalho de estudo e sugestão de nomes para a assembleia deste ano.

O comitê de nomeação indicou José Luciano Penido como presidente do conselho e mais seis nomes que já participam do colegiado: José Maurício Coelho (presidente da Previ), Fernando Buso (Bradespar), Sandra Guerra (independente), Roger Downey (independente), Murilo Passos (independente) e Eduardo Rodrigues (ex-Vale).

Há cinco novos nomes propostos, quatro estrangeiros com experiência corporativa internacional: Clinton Dines (ex-CEO da BHP Billiton na China), Elaine Dorward-King (ex-líder de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Rio Tinto), Ken Yasuhara (ex-diretor da Mitsui e da Sumitomo no Brasil),  Ollie Oliveira (ex-executivo das mineradoras Anglo American e DeBeers) e Maria Fernanda Teixeira, que além de ter ocupado altos cargos de direção, foi fundadora do Grupo Mulheres Executivas de São Paulo e membro do Conselho de Diversidade e Desenvolvimento do Banco Mundial.

Tanto ISS quanto Glass Lewis rejeitaram o nome de Ken Yasuhara, por falta de experiência em conselhos. Glass Lewis apontou ainda que Murilo Passos estaria em quantidade excessiva de conselhos, além da Vale.

Além de Castello

Exceto pela recomendação de abstenção (quase um voto contrário) ao nome de Castello Branco, que é idêntica, ISS e Glass Lewis divergem sobre o restante do grupo dos quatro. ISS só recomenda Rachel Maia, pela diversidade de gênero e racial que representa. Já Glass Lewis indica apenas Gasparino e Rodrigues da Cunha. Portanto, significa dizer que ISS sugere 11 nomes entre os apontados pela Vale e Glass Lewis, dez.

Em entrevista ao EXAME IN, Gasparino afirmou, no fim da semana passada, estar convicto de que os quatro representantes serão eleitos, pelo apoio que possui, equivalente a mais de 20% do capital. Esse percentual é suficiente para indicação dos quatros candidatos desde que seja adotada a eleição pelo sistema de voto múltiplo. Nesse método, além de uma selação por nome e não por chapa (na Vale, a formação do conselho será sempre nominal), cada ação passa a dar tantos votos quantas vagas houver no conselho e é possível concentrar a distribuição em menos candidatos, para aumentar sua chance de compor o colegiado. A adoção desse formato de votação depende do pedido de investidores com, pelo menos, 5% do capital.

O grupo de quatro candidatos dissidentes da Vale tem feito um esforço de divulgação e encontro com investidores da mineradora, uma espécie de road show para eleição. Apesar disso, as agências de voto não fizeram as sugestões tratando-os como um coletivo.

 

 

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