Estapar assume Zona Azul paulista e digitaliza do cartão à fiscalização

Santander estima que receita com nova concessão será de R$ 270 milhões em 2022, 17% do total projetado para o ano

A Estapar, a maior companhia de estacionamentos da América Latina, assumiu a partir desta terça-feira, dia 17, a gestão das vagas de Zona Azul da capital paulista. São 43,5 mil posições que, pelos próximos 15 anos, serão exclusivas da companhia. Em número de vagas, faz o total exclusivo sob os cuidados da Estapar subir de cerca de 360 mil para pouco mais de 400 mil.

Para a companhia, é um negócio transformador. E, para o usuário, também: além da facilidade da compra do cartão, a expectativa é que a gestão traga aumento da eficiência e da rotatividade, o que deve resultar em mais facilidade para estacionamento. O tíquete para a grande maioria das posições da cidade continua custando 5 reais por hora — exceto vagas especiais, cuja duração é duas horas, como no Parque do Ibirapuera e região, por exemplo. A compra será feita por meio de um aplicativo dedicado da empresa, chamado Estapar Nova Zona Azul.

Nele, o usuário também poderá acompanhar em tempo real em quais quadras da região que há maior oferta de vagas, para não ter de perder tempo atrás de uma. Quem nunca se viu rodando e rodando quarteirões atrás de um espacinho?

“É menos trânsito e menos poluição”, destaca André Iasi, presidente da Estapar, em entrevista ao EXAME IN. “A estimativa é de que, pelo menos, 30% do tráfego em ruas que não são principais seja de carros em busca em vagas.”

Iasi não faz projeções de receita. Nem mesmo potencial. Mas, em relatório recente, de início de cobertura, os analistas do Santander estimaram uma arrecadação da ordem de 150 milhões de reais em 2021 e de 270 milhões de reais a partir de 2022, com esse contrato. Trata-se de um crescimento de 15% e 27%, respectivamente, na comparação com 2019, quando a receita líquida somou 1,08 bilhão de reais — ano sem pandemia, em que a circulação era livre. Mas o potencial é sabidamente maior. Em relação às receitas projetadas pelo Santander para esses próximos anos, a Zona Azul paulista vai representar sozinha 11% e 17% do total.

Esse faturamento, porém, pode crescer no desenrolar da operação, pois o compromisso da Estapar é elevar o total de vagas para 51 mil, conforme contrato de concessão com a Prefeitura de São Paulo, que já garantiu as posições para essa expansão.

A partir de agora, a companhia assume toda a administração, o que inclui o custo e o trabalho de gerir as vagas fisicamente:  sinalização horizontal (pintura da rua) e vertical (placas). A empresa pagou cerca de 600 milhões de reais pelo direito da operação, em licitação realizada no fim do ano passado.

O desembolso total com a concessão, durante sua vigência, deve ser da ordem de 1,3 bilhão de reais, pois a prefeitura ainda recebe uma receita mensal fixa e outro percentual variável.

As contas do governo da capital são mais otimistas: 2,1 bilhões de reais em receita com o negócio. Essa estimativa traz a informação de que há uma estimativa de aumento de eficiência da operação nas mãos da iniciativa privada.

A Estapar não vai apenas vender e cuidar de todo o custo da Zona Azul. Vai ajudar a torná-la mais eficiente, participando indiretamente da fiscalização. Iasi explicou que haverá 40 carros preparados com quatro câmeras de leitura digital de placas, 360º graus, um computador de bordo, redundância de redes e tecnologia de geolocalização de alta precisão espalhados pela cidade. Eles vão gerar informação instantânea a respeito de veículos que estão parados de forma irregular.

A companhia não aplica — nem pode aplicar — a multa. A Estapar apenas encaminha a informação ao centro operacional da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e aí então o dado é avaliado e pode vir a ser transformado em penalidade, por decisão da prefeitura.

A questão é que ampliar a eficiência da fiscalização é parte crucial do sucesso negócio. Isso porque existem estimativas de que pelo menos 50% dos carros parados em Zona Azul estejam em situação irregular, ou seja, sem pagar a tarifa devida. Além de reduzir a geração de receita para a Estapar, a contravenção prejudica a vida do usuário que muitas vezes não encontra local para estacionar o veículo em razão disso.

Para entender a relevância dessa questão, basta estimar que cada vaga de Zona Azul tem um potencial teórico de gerar 60 reais por dia em receita, considerando que o período de vigência normalmente é de 12 horas. Por ano, isso significaria uma arrecadação da ordem de 600 milhões de reais se todas as posições forem usadas a plena capacidade e de forma 100% regular.

Gerir Zona Azul está longe de ser uma novidade na vida e história da Estapar. Atualmente, a companhia cuida das vagas públicas de 22 cidades (nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e Minas Gerais), num total de 37,3 mil vagas — 10% do total exclusivo antes da licitação paulista. “Já temos toda a tecnologia para isso”, enfatiza Iasi.

O executivo destacou, aliás, que a operação das vagas em São Paulo não foi uma privatização, mas uma concessão. Além de assumir os custos, a Estapar está obrigada, por contrato, a ceder toda a tecnologia dessa operação à prefeitura ao fim dos 15 anos e fica ao critério da administração pública a decisão por relicitar ou não a atividade.

A expectativa de Iasi é que o aplicativo tenha cerca de 4,5 milhões de usuários — o que equivale a mais de metade da frota paulista de carros, estimada entre 8 milhões e 8,5 milhões veículos. Atualmente, 12 aplicativos oferecem a venda do cartão digital — entre os quais estava o da própria Estapar. A partir de hoje, os que não forem da empresa entram em regime de transição até fevereiro de 2021. Quem tem os cartões azuis digitais (CADs) nesses aplicativos poderá usá-los até lá. Após esse período, o saldo será automaticamente portado para a Estapar.

Além da venda pelo aplicativo, os usuários que não querem ou não estão familiarizados com a tecnologia poderão comprar o acesso à vaga em pontos de comércio espalhados pela cidade, com autorização para tanto. “Também vamos colocar 100 agentes a pé, em pontos de maior movimento, para ajudar as pessoas com informações”, contou o presidente da Estapar.

Onde tudo começou

Iasi conta que a tecnologia para esse tipo de gestão vem sendo desenvolvida na empresa há oito anos. Mas, segundo ele, a experiência da empresa nas vagas públicas tem mais de 22 anos, pois foi quem instalou o primeiro parquímetro no país. A primeira operação foi em Araras, no interior paulista.

Em 2012, o executivo foi à Amsterdã (Holanda), para a Intertraffic, evento internacional de mobilidade urbana, e andou em um carro de fiscalização do tipo que agora usa em sua operação. De lá, voltou decidido a trazer a solução para o Brasil. E trouxe, inaugurando a solução por aqui.

A digitalização é um processo já presente em todo o negócio da Estapar.  Há anos, Iasi tem rotina de empreendedor de startup. Além da Zona Azul, a empresa também adota o aplicativo para que os consumidores possam pagar o estacionamento da rede e ainda reservar previamente vagas naqueles locais concorridos, como o aeroporto de Guarulhos, no Allianz Parque, entre outros.

IPO

A Estapar puxou a fila dos IPOs de 2020 da vida pós-covid, quando captou 345 milhões de reais em maio. A ação saiu no piso da faixa indicativa de preço, a 10,50 — e terminou o pregão de hoje avaliada em 9,45 reais. O maior acionista da Estapar é André Esteves, principal controlador da EXAME e fundador do Banco BTG Pactual, por meio do fundo Maranello, e garantiu cerca de 40% dos recursos na operação.

A listagem na B3 estava prevista desde o começo de 2020 e os documentos já estavam na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de a pandemia invandir o Brasil. Mas a empresa, no lugar de desistir, foi a primeira a acessar o mercado. Logo em seguida, a Natura &Co anunciou um aumento de capital privado de 2 bilhões de reais, também com suporte dos controladores.

Ambas as operações foram determinantes para a demonstração de que o mercado estava aberto a emissão. O ano de 2020 já bateu o recorde no total movimentado com ofertas de ações, que superou 100 bilhões de reais.  abertura de capital foi importante, pois ajudou a compor o pagamento dos compromissos com a prefeitura.

Tamanho

A McKinsey estima que o mercado de estacionamentos movimente cerca de 15,7 bilhões de reais ao ano no Brasil. A Estapar tem uma participação da ordem de 8% desse total. A companhia opera em nada menos do que 684 localidades, de 77 cidades. A segunda colocada no ranking do setor tem a metade dessa fatia.

Assim como diversas companhias, em especial aquelas ligadas à mobilidade, a Estapar sofreu com a pandemia. A receita líquida da companhia caiu 42% no acumulado dos primeiros nove meses deste ano, para 465 milhões de reais. Entretanto, o Ebitda teve desempenho melhor. O recuo ficou pouco abaixo de 30%, para 171,4 milhões de reais. Para o ano completo de 2020, o Santander estima que a receita líquida deve ficar em 700 milhões de reais. Mas, em 2021, a expectativa é de retomada com crescimento, com uma receita líquida superior a 1,3 bilhão de reais.

 

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