ESPECIALISTAS: A crise da Covid na indústria automotiva e os reflexos na bolsa

A pandemia trouxe transformações profundas para o setor, mas já é possível verificar recuperação de margens nas companhias listadas
Indústria automotiva: crise trouxe discussão sobre a necessidade de montadoras redesenharem portfólio (AFP/AFP)
Indústria automotiva: crise trouxe discussão sobre a necessidade de montadoras redesenharem portfólio (AFP/AFP)
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Lucas Marquiori*

Publicado em 14/07/2022 às 11:14.

Última atualização em 14/07/2022 às 15:31.

A indústria automotiva no Brasil já enfrentou diversas crises no passado, incluindo muitos episódios de volatilidade cambial, problemas econômicos, excesso de capacidade, entre outros. Contudo, a crise trazida pela pandemia da Covid teve um impacto mais profundo que as outras. Não só pelo fato de ter sido uma crise global (e não nacional, como muitas outras), mas também por ter desestruturado profundamente as cadeias de fornecimento do setor, criando um enorme desbalanço de oferta. Inevitavelmente, muitas empresas listadas em bolsa sofreram as consequências dessa crise, principalmente as fabricantes de autopeças e, indiretamente, as locadoras de veículos.

Pela cronologia, além dos efeitos iniciais de novas medidas sanitárias em muitas fábricas, a pandemia trouxe um relevante distúrbio na cadeia de fornecimento de importantes componentes eletrônicos, especialmente importados da Ásia.  A elevada inflação de insumos metálicos (o preço do vergalhão subiu 97% desde 2020), junto com severa desvalorização cambial -- câmbio acima de R$ 5/USD durante a pandemia -- combinados com a já famosa falta de semicondutores, forçaram as montadoras locais a desacelerar drasticamente a produção no país. Como resultado, a produção de componentes também caiu, provocando uma forte pressão de custo no setor. Já para as locadoras de veículos, a falta de carros forçou um processo de envelhecimento de frota: a idade média dos veículos circulantes no Brasil atingiu 10 anos e 3 meses, versus 9 anos e 8 meses em 2019, de acordo com o Sindipeças.

Detalhando um pouco mais os impactos dos últimos dois anos no setor, é possível observar alguns efeitos interessantes. Primeiro, vimos a mudança no mix de produto das montadoras, com a demanda sendo concentrada nos produtos premium — como SUVs —, enquanto produtos de entrada (Small Hatchs) perderam espaço, com queda de 33% de share da frota em 2019 para 21% em 2022. Com menor elasticidade-preço, os segmentos de maior tíquete geralmente ganham espaço quando a renda disponível contrai. Nas locadoras, esse efeito ficou evidente pelo aumento do preço médio do carro comprado (superando a inflação de veículos, e mostrando o impacto do novo mix).

Em segundo lugar, um severo aumento de preços foi percebido nos últimos dois anos. Basta lembrar que, nos últimos 12 meses, o preço do carro novo subiu, em média, 17%, de acordo com a FIPE. Depois de muito tempo sendo limitada pela demanda, a indústria automotiva viveu no ciclo de 2020-2021 um bastante raro período de restrição pela oferta. O desejo de evitar transporte coletivo, a resistente demanda por viagens no período de home office, além de novos padrões de consumo combinados, deixaram a demanda bastante resiliente no setor. Dessa forma, a baixa oferta inevitavelmente virou aumento de preço (já necessário pra compensar o aumento de custo das montadoras). Na média, o preço médio de compra por veículo das locadoras subiu de R$44mil reais no 1T20, para R$89mil no 1T22.

Por último, a crise trouxe uma importante discussão sobre a necessidade de as montadoras redesenharem o portfólio de produtos de forma mais ampla (como evidenciado pela decisão da Ford de sair do país).  Estratégias de descarbonização e eletrificação ganharam intensidade globalmente, e muitas fabricantes começam a estabelecer metas mais claras de migração de motorização. Outra inovação de produto relevante vem da introdução de produtos mais voltados a serviços, como locação eventual ou de longo prazo, bem como veículos por subscrição (tradicionalmente dominados pelas locadoras de veículos).

Para os próximos meses, especialistas e membros do setor esperam uma normalização de produção na indústria automotiva: a ANFAVEA agora espera produção de 2,3 milhões de veículos, 4% a mais que o ano passado. As razões desse otimismo são os investimentos relevantes feitos nos últimos anos em capacidade de produção de semicondutores na Ásia. Mas, claro, as boas perspectivas pode ser ameaçadas em caso de novas ondas de Covid ou de novos gargalos de infraestrutura nas cadeias logísticas globais (portos fechados, falta de contêineres, etc).

Mas, mesmo que as perspectivas mais otimistas se cumpram, as tendências devem permanecer por muito tempo na indústria automotiva. Apesar de a inflação permanecer como um fantasma constante, o enfraquecimento do mercado de varejo e o mix de venda mais equilibrado deveria ajudar os preços médios a retornarem a patamares mais aceitáveis. Também se espera que o interesse pelo transporte público/alta-escala se recupere lentamente. Por outro lado, descarbonização e agregação de serviços devem continuar tendências relevantes, dado que o cliente final está cada vez mais sofisticado e privilegiando soluções mais eficientes.

Dentro das companhias listadas, vemos um processo mais claro agora de retomada de volumes. Isso já se reflete nos últimos resultados das companhias fabricantes de componentes, que começam a entrar em um processo mais claro de melhoria de margens, com as empresas voltando aos patamares de duplo dígito. Esse processo de retomada, claro, também é ajudado pelos dolorosos ajustes de capacidade administrados durante a crise. Por fim, a retomada gradual da produção deve ser ainda particularmente positiva para as locadoras de veículos, que podem voltar pra dinâmica de expansão de frota que estavam acostumadas no pré-pandemia. 

*Lucas Marquiori é diretor de Equity Research no BTG Pactual