Economia sacode a poeira, mas volta por cima ainda é incerta

Após tombo por pandemia, PIB avança e deve zerar perda de 2020; em 2022 expansão é modesta e economistas alertam para endividamento público, tentações eleitorais e recomposição do mercado de trabalho

Quase 60 anos depois da primeira gravação, a mensagem do compositor Paulo Vanzolini é lembrada por renomados economistas e com aplicação certeira: “Reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima.” Popular, o refrão embala revisões de estimativas para o PIB brasileiro sobretudo deste ano. O desempenho de 2022 sofre retoques e estará sujeito a correções mais intensas após o resultado do PIB no 1º trimestre, a ser divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1º de junho. Por ora, as indicações são de que o ritmo de expansão cairá à metade na comparação com este ano, como resultado de condições imperativas: Selic maior, crédito mais caro e, possivelmente, freio em benefícios emergenciais que compensaram a queda de renda desde o início da pandemia. Após tombo histórico em 2020, a economia brasileira e internacional levantará ainda que por efeito estatístico. Mas que crescimento esperar quando as principais variáveis retornarem aos níveis pré-pandemia?

“Há diferença entre recuperação e tendência de crescimento de longo prazo. O avanço da vacinação, o consumo reprimido e o aumento de renda em vários países, por benefícios concedidos contra os efeitos da Covid-19, contratam uma reação forte no curto prazo, porém distorcida pela base de comparação muito baixa. A recuperação será forte, mas voltaremos depois ao ritmo pré-Covid-19 e com um nível de endividamento muito elevado e comum a todos os países porque todos agiram para combater o impacto econômico, social e de saúde pública provocado pela doença”, afirma Alberto Ramos, diretor de Pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs.

Transição incerta

Em entrevista ao EXAME IN, o economista destaca a importância do endividamento público para as perspectivas de retomada consistente da atividade. “A ideia de que o custo ficou menor porque os juros estão muito baixos é imprecisa. O juro não vai ficar baixo para sempre. Além disso, historicamente, países com maior endividamento tendem a crescer menos e isso independe de uma crise fiscal. A pandemia deixará cicatrizes econômicas no mercado de trabalho e o PIB potencial pode ter diminuído. E só saberemos no futuro. Outra questão a considerar é a mudança na condução da política econômica. A ação dos governos potencializou uma intensa demanda por recursos públicos. Resta saber, como essa demanda será financiada.”

O executivo do Goldman Sachs diz que não dá para prever quanto tempo levará a transição do crescimento de curto prazo para uma fase similar à pré-pandemia, inclusive, porque será necessário partir da hipótese de que não vão surgir novas variantes do coronavírus resistentes às vacinas disponíveis e que, no mundo, haverá um elevado grau de imunidade adquirida pelo contágio ou pela vacinação maciça. “Creio que esse cenário pode se materializar no fim deste ano ou no início de 2022, mas não há certeza sobre isso”, pondera Ramos que revela preocupação particular com o crescimento econômico na América Latina. “A região já vinha com taxas pífias de expansão e as variáveis econômicas poderão ser afetadas por ruído e instabilidade política num ambiente de grandes demandas sobre um orçamento já muito inchado.”

A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro FGV IBRE, vê a economia brasileira melhor este ano, crescendo 4% ou mais, mas com recuperação heterogênea. “Alguns setores mostraram resiliência à pandemia, caso do Agronegócios e segmentos da Indústria. Serviços ainda caem. A economia está melhor, mas temos mais inflação e juros. Em 2022, a expansão pode ficar abaixo de 2% e não faltam desafios à frente. A política monetária não será estimulativa, o cenário internacional será incerto e não se deve descartar tentações de anos eleitorais, embora não exista espaço para isso.”

Ao EXAME IN, Silvia lembra que a melhora é fato, mas também que é o emprego que vai gerar renda. No ano passado, o governo compensou a perda, mas aumentou muito os gastos. “O governo continua fazendo tudo o que é possível. Pagando o auxílio emergencial, embora menor, antecipando o 13º salário de aposentados e pensionistas. Mas o que vai gerar renda é o mercado de trabalho. E a taxa de desemprego só não está subindo tanto porque uma parte da população, em função da pandemia, acredita que não vai valer a pena procurar emprego e outra parte está recebendo o auxílio.”

Ajuste fiscal deverá ser contundente

Cassiana Fernandez, economista-chefe do J.P. Morgan Brasil, que prevê expansão do PIB este ano de 4,1% e de 1,7% em 2022, pondera que, em diversos países, os governos decidiram tentar preservar ao máximo os balanços dos agentes privados através de transferências fiscais e medidas creditícias com condições altamente favoráveis. Nesses casos, os efeitos [sobre a atividade] são incertos e variam de país para país. Em um ambiente de juros abaixo da taxa de crescimento da economia, acredita-se que o déficit fiscal pode se manter elevado por mais tempo sem em tese prejudicar de forma permanente a sustentabilidade fiscal. Isso tende a manter o crescimento mais elevado por algum tempo. E os países desenvolvidos parecem se encaixar nesse primeiro caso, embora os mercados recentemente pareçam estar desafiando esse entendimento de que tal situação é sustentável por muito mais tempo do ponto de vista econômico.

“No caso brasileiro, porém, os juros estruturais são maiores que o crescimento potencial da economia. Nesse sentido, o estímulo fiscal de 7% do PIB do ano passado que aconteceu em um ambiente de dívida pública elevada, e baixa credibilidade, vai requerer um ajuste mais contundente da política fiscal nos próximos anos para preservar a credibilidade ao longo do tempo. Isso deve manter o crescimento brasileiro em níveis mais moderados. Uma política fiscal expansionista prolongada e insustentável pode, nesse caso, inclusive prejudicar as perspectivas de crescimento, já no curto prazo com crises de confiança, como vimos na década passada no Brasil”, afirma a economista-chefe do J.P. Morgan em entrevista ao EXAME IN.

Assim como Silvia Matos, da FGV, Cassiana Fernandez alerta para a relevância do mercado de trabalho como alavanca de crescimento. “A deterioração no mercado de trabalho, principalmente com efeitos negativos sobre a massa de renda disponível, tem elevado o endividamento das famílias para níveis historicamente altos. Embora não vejamos esse patamar como um fator de risco para o sistema financeiro, já que bancos se encontram capitalizados e o nível de inadimplência ainda é muito baixo, esse endividamento pode ser um fator que pese sobre as decisões de consumo das famílias, logo também restringindo a recuperação da atividade.”

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