Dynamo elege companhias que considera “imunes” para o curto prazo

Gestora carioca que captou 1 bilhão de reais no auge do estresse vê mundo mais endividado, menos globalizado e mais digital

Depois de algum atraso, a gestora Dynamo publicou duas de suas tão aguardadas cartas de uma vez e, como não poderia deixar de ser, os temas foram o coronavírus, a economia e as empresas, nessa ordem.

A gestora carioca que se tornou referência quando o assunto é investimento com base em análise fundamentalista — muito além da planilha de excel — aponta que o ambiente é de mais dúvidas do que certezas. Mesmo assim, já registrou suas primeiras conclusões. “O mundo sairá diferente deste episódio da Covid-19. Tendências que se desenhavam devem se acelerar. Três delas já parecem se definir: um ambiente com mais dívida, menos globalizado e mais digital.”

Diante do que qualificou como “um cisne negro de olhos azuis e bico amarelo”, a Dynamo apontou que a capacidade de gestão e adaptação serão essenciais para as empresas na pandemia e depois dela. “Ativos diferenciados serão importantes, mas capacidade de adaptação é fundamental.”

No meio das semanas de maior estresse nos mercados, a gestora reabriu o fundo Cougar — que tem mais de 25 anos de existência — para captação, após nove anos fechado. Iniciou o processo cética, em busca de 1 bilhão de reais em três tranches, com datas diferentes. Em quatro horas, tinha demanda para 5 bilhões de reais. Com seu movimento, puxou uma fila de captações que incluiu nas semanas seguintes nomes respeitados como Atmos e Bogari, entre outras.

Após se debruçar sobre sua carteira de investimento, a casa concluiu que ela possui uma “razoável amplitude no grau de imunidade de curto prazo”. Entre as companhias aplicadas, a avaliação é que aquelas relacionadas à entrega de bens físicos ao cliente final terão um ano mais difícil, como é o caso de Natura & Co., Renner e BrMalls.

Já outras investidas estão em situação privilegiada de competição, como é a B3, ou trabalham com perfil de longo prazo nos contratos, como a Eneva, ou ainda possuem ativos estratégicos de qualidade, como a Vale — conforme entendimento registrado na carta aos cotistas. Já a Cosan é tida como protegida em razão da matriz diversificada dos segmentos de atuação, que vão da produção de etanol e açúcar, a postos de gasolina e distribuição de gás.

A Localiza, na visão da gestora, pode ocupar espaços deixados pela concorrência mais fragilizada e a XP tem uma proposta de valor diferenciada aos clientes. Por fim, o Mercado Livre é percebido como um ativo que está preparado para capturar os benefícios das mudanças de ambiente que o mundo assiste.

A Dynamo afirma que os ajustes de preço e mesmo a volatilidade do mercado permitiram um ajuste da carteira que incluiu a redução ou liquidação de algumas participações e ampliação de outras.

A análise dos negócios nesse momento demandou uma análise profunda dos compromissos financeiros das empresas e sua situação de caixa, o que levou a gestora a avaliar contrato a contrato, vencimento a vencimento. Outra frente de estudo exigiu um contato próximo das companhias para entender o impacto do momento em cada linha do balanço e da operação e ainda no ecossistema do negócio.

Por fim, para o olhar de futuro, a Dynamo trouxe alguns questionamentos que estarão presentes em suas decisões de investimento para o longo prazo —  neste momento, com visibilidade prejudicada. “A crise pode acelerar tendências e catalisar padrões de comportamento”, apontou a gestora.

Nesse sentido, mostra-se intrigada pelos reflexos do home office na mobilidade urbana e como isso afetará a demanda futura das companhias aéreas. Também traz dúvidas sobre como será o consumo em ambientes de convivência coletiva, nas mais diversas atividades, de restaurante e academias até agências bancárias e shoppings.

A gestora aponta preocupações sobre os sinistros para o cenário pós-pandemia nas operadoras de serviços de saúde, com o atual temor das pessoas de frequentar hospitais, e registra ainda inquietações sobre o segmento de educação, pois, no longo prazo, o efeito pode ser uma redução da resistência aos sistemas de ensino à distância.

“Quando a paisagem competitiva sofre abalos sísmicos, a capacidade de adaptação das companhias é testada. Precisamos selecionar os investimentos que terão condições de navegar neste ecossistema diferente”, escreve a Dynamo na carta, tentando identificar as empresas que conseguirão “desenvolver imunidade duradoura”. Por isso, acredita que as companhias que estiverem bem posicionadas poderão inclusive aumentar seu diferencial competitivo.

Três letrinhas

A Dynamo, famosa pelas análises profundas e posições de longo prazo, conclui que a crise do coronavírus deu força aos investimentos dedicados ao ESG — sigla em inglês para os princípios ambiental, social e de governança. A gestora, contudo, nunca se posicionou como militante da causa, apenas entendia que eram pontos que poderiam ser diferenciais em alguns negócios. Por isso, a conclusão é ainda mais relevante.

“Nestes dias de pandemia, a classe de ativos ESG apresenta desempenho superior à maioria das demais, registrando influxo positivo de recursos. Trata-se de uma mensagem clara: o entendimento por parte dos investidores de que problemas graves e inesperados terão de forma crescente origem no ambiente externo, e que companhias que tenham formado cultura, incorporado vivência e desenvolvido mentalidade respeitando cada um destes aspectos estariam melhor preparadas para enfrentar tais desafios.”

Alguns parágrafos antes dessa afirmação, quando se preparava para abordar o tema, a gestora lembrou o conceito da medicina chinesa tradicional, que associa patologias ao estado da alma para avaliar o ambiente global. A sabedoria oriental, com base filosófica, aponta que doenças nos pulmões têm origem no estado emocional da tristeza, segundo o documento. “Sob esta visão, o mundo acometido pela Covid-19 estaria doente porque triste, triste porque doente. A doença na tradição oriental é a expressão de que algo precisa mudar”, aponta a Dynamo na segunda de suas cartas, após a primeira delas inteira ser dedicada ao contexto científico do novo vírus.

Assim, a gestora carioca provoca análises sobre a necessidade de mudanças. “A forma de restaurar o equilíbrio da energia vital é um processo que requer mudanças em ambientes, pensamentos, hábitos e costumes. Pensar o mundo de uma forma mais sistêmica é uma das transformações que vinha se desenhando.”

Após lembrar comentários de que, na China, o desligamento de indústrias provocou uma queda nos óbitos esperados por questões respiratórias ligadas à poluição maior do que o aumento de mortes provocados pela covid, a Dynamo apontou:

“Quando o desastre “salva” vidas é sinal de que atingimos um limiar insustentável”.

Retorno

A Dynamo considera a velocidade de recuperação parcial dos mercados tão inédita quanto a crise. Contudo, não encontrou resposta que julgue definitiva para a reação dos preços dos ativos.

“Em pouco menos de dois meses desde o ponto mínimo, no dia 23 de março, o S&P500 registra uma apreciação de 28,0% (em dólar), o Índice Bovespa de 24,5% e o Dynamo Cougar de 34,2%, ambos em reais nominais”, descreve a gestora.

O que despertou atenção, segundo a carta, é como “senhor mercado” decidiu se creditar valor enquanto as discussões sobre o futuro ainda estão em andamento. Ou seja, não há, até o presente momento, nenhuma certeza sobre como e quando se dará uma esperada recuperação.

“A dúvida geral neste momento reside sobre qual a melhor explicação para o movimento de recuperação também incomum em tão curto espaço de tempo. Seria: i) uma volta “técnica”, simplesmente ajustando uma reação demasiado negativa no primeiro momento; ii) uma volta fundamentalista, a partir do entendimento de que a crise será circunscrita no tempo e sob uma visão de longo prazo já se enxerga valor sobre a mesa; iii) uma volta essencialmente especulativa, onde investidores procuram antecipar a psicologia dos demais comprando na frente.”

Para a Dynamo, entender se essa reação positiva foi adequada, tímida ou excessiva é a pergunta que todos querem, mas não conseguem, responder.

Em 60 meses, o Dynamo Cougar tem retorno de 94,9%, até 30 de abril, ante valorização de 43,2% do Índice Bovespa. Em 24 meses, o ganho é de 29,4%, ante uma queda de 6,5% do indicador da bolsa paulista. Neste ano, o Cougar perde 23,9%, diante de uma desvalorização de 30,4% do Ibovespa.

“O momento de profunda consternação precisa deixar legado mais permanente. Os antigos diziam que o homem essencialmente é um ser que esquece. Trata-se de um alerta fundamental. Precisamos construir mecanismos para lidar com os enguiços da nossa natureza. Envolvimento coletivo parece ser o caminho. Solidariedade vem do latim sólido, inteiro, firme, completo. Exercer a solidariedade implica comprometer-se com algo superior, buscando solidificar, consolidar. Que possamos traduzir a dor aguda do presente em propósito solidário para um futuro duradouro.” É o parágrafo final da carta aos costistas.

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