Crise hídrica: PIB sob ameaça e mais inflação na certa

Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-BNDES: risco de apagão existe, mas deve ser relativizado; a crise hoje tem elementos diversos e sistema é interligado
Usinas devem operar a plena carga e custos devem retratar a realidade (Yangphoto/Getty Images)
Usinas devem operar a plena carga e custos devem retratar a realidade (Yangphoto/Getty Images)
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Angela BittencourtPublicado em 31/05/2021 às 17:43.

O Brasil começa a treinar para o impensável: torcer para dar errado. A crise hídrica que se avizinha por escassez de chuva ameaça o crescimento que passa por sucessivas revisões — para mais — por economistas de bancos, consultorias e organismos multilaterais. Nesta segunda-feira, 31, a OCDE elevou a projeção para o PIB brasileiro deste ano para 3,7%. A economia global deve avançar 5,8%. O dado brasileiro é conservador ante a pesquisa Focus, que passou a indicar expansão de 3,96%, e de bancos que avaliam em até 5% a alta do PIB de 2021, apostando numa melhora mais robusta da atividade no segundo semestre.

Mas todo esse ganho robusto está subindo no telhado. Acredite se quiser. As projeções mais recentes e mais otimistas para o PIB não incorporam potenciais estragos que virão com o nível baixo de reservatórios em destaque nos últimos dias. Estimativas de inflação também sobem, mas num movimento desencadeado há meses e não exatamente porque, de ontem para hoje, cresceu a expectativa de que a conta de luz ficará mais cara. Ela já está mais cara. E, a partir de amanhã, dia 1º, também sobe mais com a entrada em vigor da bandeira vermelha 2 que vai pressionar essa despesa no orçamento das famílias.

O risco de apagão existe, mas deve ser relativizado. O economista e ex-presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que viveu intensamente a crise hídrica na passagem da década de 1990 para 2000, pondera, em entrevista ao EXAME IN, que a crise hoje tem elementos bastante diversos daquele momento, quando o risco de apagão começou a ser discutido praticamente três anos antes de ser confirmado, em 2001. E a atividade não está explodindo.

“Hoje, não existe a divisão da energia. Soma-se capacidade energética e de fontes diferentes. O sistema é totalmente interligado. Depois do apagão de 2001, a Eletrobras foi autorizada a construir o ‘linhão’ interligando o país, condição que evitou, inclusive, o risco de apagão durante o governo Lula”, afirma Mendonça de Barros que cita a avaliação do Credit Suisse. Em relatório, a instituição considera que o Brasil está mais bem preparado hoje.

“O Credit mostra que, na prática, há uma reserva de energia no sistema”, diz o economista. Em relatório, o Credit Suisse comenta que neste ano os reservatórios encerraram a temporada de chuvas com cerca de 32% no Sudeste/Centro-Oeste e 42% quando considerado o sistema total. Em 2014, quando a expectativa também era de apagão, os reservatórios do Sul/Sudeste apresentavam nível de 37% e, o sistema total, 42%. De 2014 para cá, a energia eólica cresceu, de 4% para 10%, enquanto a energia produzida por hidrelétricas recuou de 67% para 62%. O sistema nacional sofreu compensações.

“Começamos a discutir a crise energética em 1997/1998, quando um indicador antecedente da própria Eletrobras acusou 5% de chance de ocorrer um apagão. Esse protocolo de monitoramento, utilizado internacionalmente inclusive, alertou o governo (Fernando Henrique Cardoso). Depois da crise da Ásia, em 1997, a economia avançava, mas a Eletrobras não conseguiu sensibilizar o Ministério da Fazenda para a crise que se aproximava. Era necessário fazer um pesado investimento público na veia, mas a Eletrobras era considerada parte do Tesouro. Portanto, o investimento estaria nas contas públicas e elevando o déficit. E o déficit estava sob vigília do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, relata Mendonça de Barros.

Aperto das normas ambientais

A sugestão naquele momento era construir o “linhão” que interliga o país e compensa os regimes de chuva que são diferentes nas regiões Sul/Sudeste e Norte. A operação custaria US$ 7 bilhões [e poderia ser viabilizada pelo BNDES], mas não ocorreu naquele momento exatamente pela questão fiscal.

Embora a pressão fiscal persista, o ex-presidente do BNDES lembra das transformações pelas quais passou o setor no país. “Nos governos Lula e Dilma as normas de meio ambiente a serem seguidas para a construção de hidrelétricas foram apertadas. As novas usinas, como a de Belo Monte, funcionam alguns meses do ano e não mais o ano inteiro. Partiu-se para a energia eólica, limpa, mas os ventos também não sopram o ano inteiro. Temos, então, usinas termelétricas a gás ou a diesel que também sofrem restrições ambientais. E a construção de novas termelétricas, que o governo está disposto a fazer, levará dois ou três anos.”

Enquanto isso, a economia retoma seu crescimento. Contudo, na avaliação de Luiz Carlos Mendonça de Barros, a expansão, quando normalizada, deve vir no “ritmo de sempre”: cerca de 2,5% ao ano. Na pesquisa Focus, divulgada hoje, a projeção mediana do mercado para o PIB de 2022 recuou a 2,25%, vinda de 2,30%.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, prevê expansão do PIB deste ano entre 3,5% e 4%. Esse dado já contempla a crise hídrica e uma terceira onda de Covid-19. Para 2022, a estimativa é de crescimento de 1,8%. Em entrevista ao EXAME IN, Vale diz que o  cenário não é dos melhores. “Além da turbulência política que já está sendo contratada para 2022, ano eleitoral, vacinação lenta e menor oferta de energia são fatores de compressão da atividade no segundo e no terceiro trimestres deste ano”, alerta o economista.

A consultoria acaba de elevar sua projeção para o IPCA deste ano para 5,8%, bem acima de 5,25% do teto a meta. “A inflação já vem sob pressão das commodities desde o ano passado. Os reajustes ocorrem sistematicamente para cima. E a bandeira vermelha 2 da energia possivelmente não será abandonada neste ano sobretudo com a escassez de água nos reservatórios. Hoje, temos inflação em 12 meses, rodando a 8%, situação que levantará uma discussão no pré-Copom de junho e até à mudança de discurso do Banco Central (BC)”, afirma Sérgio Vale, para quem o Copom deverá cortar a avaliação de que a pressão inflacionária é “temporária” e eliminar também a ideia de “normalização parcial da política monetária”. A perspectiva de que a taxa Selic chegará ao final de 2022 a 6,5% pode ser antecipada.

BC na berlinda

“O BC perdeu o jogo para a inflação este ano e corre o risco de perder para o ano que vem também. Selic a 7% começará a ser discutida, uma vez que a meta de inflação de 3,5% para o ano que vem e juro neutro estimado em 3%. A meta é baixa e o BC poderá perseguir juro acima do patamar neutro”, afirma o economista-chefe da MB Associados.

Para o especialista em energia Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o Brasil tem um problema de potência [no fornecimento de energia] e o planejamento do governo insiste na solução vinda das energias intermitentes e das linhas de transmissão. “Esse é um diagnóstico equivocado que tem promovido grandes volatilidades nos preços e pode levar a apagões. No fim de maio, os níveis dos reservatórios deverão ser de 31,7%, pelo menos 4,6 pontos abaixo da mínima histórica. Se considerarmos a média dos últimos 16 anos, já no fim de agosto poderemos estar com o nível abaixo de 20% e valores muito abaixo de 10% a partir de outubro”, avalia em relatório onde afirma ser necessário tomar providências urgentes.

Pires alerta para providências de curto prazo e soluções estruturais que devem ser implementadas. No curto prazo, é deixar que os preços indiquem a real situação do setor elétrico que, segundo ele, não é retratada pela bandeira vermelha 1 e a bandeira vermelha 2 deveria estar sendo aplicada desde o início de abril. Em sua avaliação, as usinas não hidrelétricas, inclusive a diesel, já deveriam estar operando na capacidade máxima, como ocorreu em 2014 e 2015 quando o cenário foi parecido com o atual. Quanto ao médio e longo prazo, o especialista diz que a MP da Eletrobras já acena com benefícios: propõe a implantação de usinas térmicas a gás com garantia de financiamento também de longo prazo; elevação dos níveis dos reservatórios com uso racional da água; redução do impacto das bandeiras na conta do consumidor cativo; e maior estabilização dos preços da energia a curto e médio prazo, viabilizando um modelo de formação de preços mais próximo da realidade.

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