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8 de janeiro, o dia que não terminou, mantém viva a pergunta: “Que Lula é esse?”

Após susto, mercado reage bem à união dos três poderes, mas segue ansioso com a questão fiscal

Deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, inaugura a nova ordem democrática, após 21 anos sob a Ditadura Militar (Reprodução/Agência Senado)

Deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, inaugura a nova ordem democrática, após 21 anos sob a Ditadura Militar (Reprodução/Agência Senado)

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Graziella Valenti, com apurações de Raquel Brandão e Beatriz Quesada

11 de janeiro de 2023, 12h28

O domingo, 8 de janeiro, ainda ecoa pela semana. As avaliações que se assentam ao longo dos dias – ainda que poucas – mostram que há um perdedor mais evidente do que um ganhador. É quase unânime nas análises que o ex-presidente Jair Bolsonaro é o lado que sai enfraquecido dos eventos, com uma divisão de seu eleitorado da parte que quer se afastar dos ataques.

A direita, do ponto de vista de eleitores, fica desorganizada, sem um líder. Mas essa é uma massa tentadora e relevante à espera de uma nova liderança. Candidatos não faltam. Portanto, a calmaria tem cara de transitória. E isso vai depender bastante de como forem os próximos quatro anos para o brasileiro, mas que começam já, em 2023.

Em dois dias de digestão das imagens grotescas, dos ataques à democracia, ao centro de poder do país, ao governo, ao patrimônio público e à imagem do Brasil, é possível perceber que entre os empresários há uma leitura mais predominantemente positiva. A união entre os três poderes, a marcha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os governadores, tudo isso, mais a resposta efetiva, deu uma sensação de tranquilidade. É possível discordar das decisões dos três poderes – Executivo, Legislativo, Judiciário. Mas é muito melhor a frustração de discordar do que a visão do caos à ausência dessas instituições.

Esse foi mais ou menos o saldo entre aqueles que empreendem no Brasil, do pequeno ao gigante, que no domingo assistiu com apreensão às transmissões das invasões e o quebra-quebra sem saber se ele chegaria a sua fábrica, sua loja, seu ponto – fosse um só ou milhares. Até que Lula quebrasse o silêncio das lideranças, ficou uma sensação de medo. De curta duração, ela foi suficiente para um choque de realidade para alguns, no sentido de abraçar com mais disposição o resultado das urnas. Em especial, ao ver a ignorância da destruição mesmo sem nenhuma resistência policial, sem nenhuma agressão.

Entre os investidores, porém, não tem esse mesmo suspiro de quem enche o peito aliviado – pelo menos, não tanto. Mas também tem menos profundidade. Todos concordam que a resposta quase unânime da sociedade, de sair em defesa da democracia, foi positiva. Um alento, uma confirmação de que não há espaço para aventuras no Brasil. Pode parecer pouco. Mas isso já é bastante coisa. Em especial, para a confiança do empresário.

A reação mobilizou de banqueiros na Febraban, passando pela Natura & Co, e alcançando até mesmo os hermanos do Mercado Livre, que fizeram uma bela campanha em prol da democracia brasileira com um cupom de 99% de desconto para compra da Constituição Federal. Só para todo mundo lembrar o que nos rege e onde moram os limites. Direitos e deveres. Tinham edição comentada saindo a R$ 2,50. Vale a pena até para quem acha que não vai ler. Ter na estante de casa é sempre um lembrete e uma evidência importante – saudações a Ulysses Guimarães.

Mas, passada essa saudação ao voto, à urna, à escolha do povo, e aos três poderes, começam as perguntas. Tem desde as mais rasas sobre estabilidade política – ainda que nenhuma instabilidade tenha sido demonstrada, bem o contrário disso – até às mais profundas e, algumas, até conspiratórias futuristas.

Como vai sair a direita e o centro desse evento? Essa “vergonha” pode enfraquecer a oposição ao novo governo dentro do Congresso? Os debates serão menores? Há quem tema essa perda e há quem acredite que ela, se ocorrer, dura pouco, bem pouco. Começa aqui a conversa.

Só que ela vai além.

A coletiva de Lula, no domingo, agregou questionamentos. E não foram poucos. Para quem viu no discurso da vitória um Lula estadista, à altura de sua trajetória, experiência e do capital político que possui, ao ressaltar que o Brasil precisa de união, a fala do domingo decepcionou. Não poderia ser mais “nós e eles” do que foi. Inclusive com um ataque surpreendente ao agronegócio, que carrega o país. O presidente que critica o agro químico aprova a desoneração dos combustíveis fósseis, para não queimar sua popularidade.

A pergunta “que Lula é esse, de 2023?” segue mais viva do que nunca. As comoções dos últimos dias, para lá de legítimas, não afastaram essa dúvida. E, agora, junto com ela aparecem outras. Tem de um tudo: Quem será o novo líder da direita, essa vaga em aberto? Alguém mais preparado e politicamente mais estratégico do que Bolsonaro? Será Janja uma nova Evita? E as medidas econômicas aguardadas de Fernando Haddad, vão aproveitar essa cortina de fumaça?

A ansiedade dos investidores continua sobre a questão fiscal brasileira. De onde virão os recursos para bancar o projeto de gastos de Lula? Essa resposta ainda não veio e é o que o mercado, formado por aqueles que tomam conta da poupança dos brasileiros, ainda quer saber. Com essas dúvidas, torna-se quase insólito projetar o país: Qual a taxa de juros adequada? E a inflação, para onde vai com aperto monetário de um lado e gasto do outro?

A resposta para elas é que vai dizer que Lula é o Lula desse mandato. Que ele é pró-democracia, isso não é novidade. Ninguém – exceto alguns fanáticos com discurso distorcido – tinha dúvida quanto a isso. Esse 8 de janeiro parece ser um dia muito longo. Mesmo demonstrando sua força, Lula não vai escapar do escrutínio sobre seu projeto econômico. Não no Brasil de 2023.