Uma rede social para viagens

A startup francesa BlaBlaCar tornou-se uma comunidade com 7 milhões de usuários que se comunicam por smartphones e viajam por toda a Europa. O que ela oferece? Carona em 12 países

A poucos dias do Natal de 2003, o francês Frédéric Mazzella precisava chegar a uma cidadezinha distante 400 quilômetros de Paris para visitar os pais. Físico com mestrado pela Universidade Stanford, Mazzella fez carreira como funcionário da Nasa e executivo da operadora de telefonia japonesa NTT. Mas naquele Natal ele tinha um problemão: chegar a Fontenay-le-Comte, a cidade de  15 000 habitantes de seus pais. Encontrar um meio de transporte que o levasse até lá na véspera do Natal era uma missão quase impossível. Não havia lugar nos trens, ônibus de linha não chegam à cidade e Mazzella não tinha carro.

Ele conseguiu uma carona, e no caminho percebeu que a maioria dos automóveis viajava apenas com o motorista e, bingo!, teve uma ideia que mudaria sua vida. Com ajuda da tecnologia, Mazzella fundou o que é hoje a BlaBlaCar, startup de carona que gerencia lugares vagos nos carros, sincronizando horários e deslocamentos dos motoristas interessados em compartilhar o itinerário (ou parte dele).

“A ideia inicial era oferecer um motor de busca que organizasse os lugares disponíveis em carros, como acontece em aviões e trens, com preços e mapas com pontos de encontro, tanto para os motoristas como para quem pede carona”, disse Mazzella a INFO na sede da empresa, um escritório colorido perto da estação Saint-Lazare, no coração de Paris.

A empresa nasceu com um investimento estimado em 100 000 euros, das economias de Mazzella e seus dois sócios, Nicolas Brusson, outro francês com vivência no Vale do Silício, e Francis Nappez. O nome era Covoiturage, mas a decisão de rebatizar a empresa surgiu quando eles resolveram expandir as fronteiras. O nome BlaBlaCar veio de um dos ícones que o condutor usa para se definir no site. Se ele fala pouco durante os trajetos é um Bla (1% dos usuários), se fala moderadamente é um BlaBla (81% dos registrados) e se fala muito é um BlaBlaBla (18% dos motoristas).

A BlaBlaCar tem hoje cerca de 120 funcionários em sete escritórios pela Europa (Paris, Londres, Milão, Madri, Varsóvia, Hamburgo e Moscou). Dos desktops, a plataforma migrou para aplicativos no iPhone e nos Android. A rede de usuários da BlaBlaCar soma hoje 7 milhões de membros em uma dúzia de países, ligando motoristas a passageiros que normalmente não se conhecem, mas querem compartilhar itinerários. São viagens com média de 340 quilômetros de distância. A BlaBlaCar é o maior serviço de caronas do mundo, com cerca de 1 milhão de usuários a mais que seu concorrente mais próximo, a Carpooling.com.

Segundo Mazzella, atualmente 1 milhão de pessoas usam os serviços do site a cada mês, gastando menos do que custaria o bilhete de transporte público para o mesmo trajeto. Um bilhete de trem entre Roma e Milão, por exemplo, custa 76 euros, se comprado com antecedência de uma semana. Para cobrir o trajeto, a BlaBlaCar oferece lugar num carro por 35 euros.

Com a agilidade dos smartphones, viagens são acertadas até o último instante antes da partida. O serviço de caronas programadas recebe cerca de 3 000 novas adesões por dia. “Toda essa gente chegando à comunidade nos deu o principal ingrediente para crescer. Hoje oferecemos muitas rotas e boa disponibilidade de horários para motoristas interessados em repartir o espaço em seu carro e para os viajantes”, diz Mazzella.

De uma startup tão francesa como uma baguete recheada com queijo camembert, a BlaBlaCar tornou-se europeia. “Temos sete escritórios na Europa e uma das estratégias para a expansão é comprar startups que ainda não conseguiram alcançar o lucro”, afirma Mazzella. “Agora queremos chegar a outros continentes.” Com grandes distâncias geográficas e cada vez mais pessoas habituadas ao mundo de redes sociais, o Brasil logo deverá entrar no radar da BlaBlaCar.

Compartilhar trajetos em automóveis é uma ideia que nasceu com a popularização dos carros, no começo do século passado. Em 1914, quando os automóveis começaram a se massificar nos Estados Unidos, na onda do Ford T, o transporte solidário tornou-se uma mania nacional. O conceito voltou com tudo na Segunda Guerra Mundial, quando economizar petróleo era uma questão nacional. E foi ressuscitado na Europa, durante os anos 70, quando apareceram as Mitfahrzentrale, as primeiras cooperativas na Alemanha.

“Nossa grande sacada foi misturar carona solidária com redes sociais”, diz o francês Nicolas Brusson, chief operation officer da BlaBlaCar. Segundo ele, não foi fácil no início, pela desconfiança de muitos usuários. Os anúncios passaram a mostrar o local do ponto de encontro e o de destino, o horário da partida, o modelo do carro e um perfil do condutor, quase sempre com foto e seu nível de experiência na comunidade. É possível, por exemplo, saber a idade do motorista, se ele gosta de conversar, se curte ouvir música durante a viagem, se aceita fumantes, bagagens e animais de estimação, e o tempo que leva para dar sua resposta a um pedido de carona.

Motoristas recebem estrelas e comentários dos usuários. Conforme a quantidade de menções favoráveis, a avaliação sobe na escala até chegar a motorista expert e embaixador. Quem é mais graduado na escala tende a encher mais fácil o carro. “Essas ferramentas fazem a diferença”, diz Mazzella. “Os primeiros sites ofereciam listas de itinerários, no melhor estilo Excel. Hoje somos uma rede social, e nosso papel é fazer a moderação entre os dois lados.”

O local do encontro — normalmente uma estação de trem ou metrô — é indicado em um mapa do Google, assim como marca, tipo e cor do carro. Telefones, e-mails e contas são conferidos e certificados. Muitos usuários adicionam fotos. Segundo Mazzella, isso ajuda a aumentar a confiança. “Seria muito esquisito um cara deixar tantas pistas sobre si mesmo para a polícia investigar se a intenção dele é roubar os outros.”

Outra sacada foi orientar os usuários sobre quanto cobrar. “Com base em um banco de dados, o site calcula o preço justo, levando em conta combustível e pedágio”, diz o fundador. Mas a palavra final é do proprietário do carro. Para regular os preços dentro de uma lógica, o site tem uma ferramenta na qual os valores são acompanhados de uma escala de cores: verde, se dentro do que a BlaBlaCar considera justo; laranja, se estiver um pouco alto; e vermelho, para muito acima da média.

De acordo com Mazzella, um terço dos interessados em compartilhar trajetos dava o cano nos donos dos carros. Para resolver o problema, a BlaBlaCar começou a exigir o pagamento das reservas no site com o uso de cartão de crédito. Se a desistência não for comunicada em até 48 horas, o dinheiro não será devolvido. “Cobramos uma comissão de 11%, mas, em compensação, há a garantia de que o dinheiro chegará sempre à conta de quem está organizando a viagem”, afirma Mazzella. A taxa de desistência dos caronistas caiu para 4%.

Apesar do investimento de 10 milhões de dólares do fundo Accel Partners, a operação ainda não gera lucro, e abrir o site para publicidade não é uma opção considerada pelos fundadores. “Acho que deixaria nossa interface confusa para os usuários e não agregaria grande coisa ao caixa”, diz Mazzella. Para crescer e se defender da concorrência, a BlaBlaCar prefere criar serviços, como o Ladies Only, para mulheres que acham mais seguro viajar em um carro sem homens.      

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